Culinária política

O que faz uma empresa de temperos e especiarias, com 600 mil clientes registados, gastar só numa semana 92 mil dólares a anunciar no Facebook a favor do ‘impeachment’ de Trump?

A Penzeys Spices, uma empresa americana de especiarias, temperos e molhos, com sede na cidade de Wauwatosa, no Wisconsin (e que deve o seu nome ao chefe índio Wauwataesie), detém atualmente o segundo lugar na publicidade no Facebook relacionada com o impeachment do presidente Trump.

O que faz uma empresa de temperos e especiarias, com 600 mil clientes registados, 70 lojas e comércio online, gastar só numa semana 92 mil dólares a anunciar no Facebook a favor do impeachment, para além do óbvio apimentar do tema? Esta é, no mínimo, uma questão picante.

Note-se, em primeiro lugar, que não foram os recordistas, pois Donald Trump himself gastou mais de 700 mil dólares, só que ele, claro, gastou-os contra o seu impeachment. Mas ficaram num honroso segundo, e distantes do terceiro lugar, o milionário Tom Steyer, também ele anti-Trump, que investiu 86 mil dólares nessa mesma causa. Aliás, entretanto anunciou a sua candidatura à presidência.

Quanto à essência da questão, Bill Penzey, proprietário da empresa, justifica a campanha com a base dos resultados, e diz ser um interesse comercial, não político. Afirma que o ato de cozinhar e a culinária têm a ver com a preocupação pelas pessoas, e é o Facebook que classifica esta preocupação nos “valores”, o que faz os anúncios da Penzeys serem automaticamente listados em “política”. Na verdade, o que a empresa ganhou foi visibilidade – esta foi de longe a campanha com mais impacto, ajudada, como ele salienta, por nunca o presidente e quem o apoia terem sido tão impopulares (um exagero!).

Claro que perderam alguns clientes e receberam vários emails a acusá-los de tudo e mais alguma coisa, alguns deles todos em maiúsculas e outros com insultos à mistura. Mas em poucos dias o anúncio teve mais de 50 mil comentários e mais de 40 mil partilhas; as vendas online aumentaram 60% e as de embalagens para presente 135%, para uma perda de clientes estimada em 3%. Rewarding, dir-se-á.

Com efeito, o “Earned Brand Study” da Edelman diz-nos que 57% dos consumidores nos países desenvolvidos compra ou boicota um produto com base no seu posicionamento sobre um determinado tema. Jonathan Copulsky, da Deloitte, diz-nos que os consumidores já não escolhem uma marca apenas a olhar para a qualidade, são “belief-driven buyers” – podem ser manipulados, mas escolhem com consciência: 65% deles não escolhem uma marca que permanece calada numa matéria em que eles acham que ela devia tomar uma posição.

Isto funciona melhor com produtos que com políticos – são fatores chave para o sucesso a perceção de três elementos: autenticidade, compromisso e transparência, tudo aquilo que a política não tem. Imagine-se o que isto seria por cá. Já estou a ver a coisa: a maravilha que não era uma campanha de publicidade destas para uma empresa de desbaratização. Era só dizer que trata do nosso Parlamento, até porque de facto ele, Parlamento, não nos sai nada barato.

Recomendadas

O urgente regresso à legalidade na Catalunha

Só através do diálogo e da moderação se alcançará uma solução estável, duradoura e consensual, que poderá passar por um novo alargamento da autonomia ou, mesmo até, por uma solução federal.

As promessas ocas de Medina

O Programa Renda Acessível da CML prometia mundos e fundos. No fim de 2019, a avaliar pela informação na comunicação social, apenas 20 casas estão efectivamente prontas a habitar.

O Muro de Berlim nunca caiu

As décadas vividas sob regimes assentes na propaganda ajudam a explicar o actual caminho em direcção ao autoritarismo da Polónia e da Hungria.
Comentários