Cultura: e se nos deixássemos de tabus?

Num país que leve a liberdade de investigação a sério não há perguntas tabu. Controlo político, ideológico, social, até cultural, da liberdade de investigação produzida em contexto académico não deve ter lugar. E quando surpreendido, deve ser combatido.

1/ O sobressalto 

A recente polémica sobre “Os Maias” deve inquietar. Porque se exalta tanto o país cultural com uma pergunta e uma recomendação editorial feita numa comum palestra de doutorandos numa universidade nos Estados Unidos? Certamente, não foi a qualidade da investigação apresentada o móbil do sobressalto.

Quantas mais investigações académicas, incontáveis, em etapa equiparável à do caso – um trabalho com vista a uma futura tese, apresentado num seminário de doutorandos – teriam de ser apreciadas se fosse a sua qualidade, decerto sempre discutível, o que tivesse estado em causa? Talvez esse tenha sido o pretexto, mas o móbil foi a questão de investigação levantada, o incómodo da questão, logo rejeitada, como um absurdo – “Serão Os Maias de Eça de Queirós (1888) um romance racista?”.

Num país que leve a liberdade de investigação a sério – não menos nas humanidades do que nas ciências sociais e naturais – não há perguntas tabu. Controlo político, ideológico, social, até cultural, da liberdade de investigação produzida em contexto académico não deve ter lugar. E quando surpreendido, deve ser combatido. Como a liberdade criativa é intocável, também a liberdade de investigação é intocável. E sim, a liberdade de crítica também é intocável, dentro e fora das paredes académicas, mas a crítica não é intocável. Há a crítica e há a crítica da crítica.

Isto não é calar o debate, é a sua regra. Ora, quando se visa com a magnitude a que se assistiu alguém que está numa fase de investigação precoce, ainda nem passou a escrito e publicou o que simplesmente começou a pensar e apresenta num seminário, que calhou ser gravado, é a liberdade que se ressente.

Quererá alguém voltar ao tema?  Dar-se-á por adquirido que há perguntas que não se podem fazer? Que o enunciado disfarça mal uma resposta que se presume logo subentendida? Que quem as faz, pelo atrevimento, será sujeito a um desmerecimento sumário em jornais e redes sociais, independentemente da resposta à questão, que pode bem não ser “sim” e ainda assim ser interessante?  E que quem estuda cultura tem de se conformar a um campo de estudo com tabus, normativo, como se fosse uma moral? Ora, a preocupação com este facto não pode ser iludida.

Dirão que se batem pela liberdade, mas resultou assim? Cancelar perguntas não é mais do que outra expressão de cancelamento cultural, talvez mais arreigado do que se esperaria distraidamente. Pelas perguntas ostracizadas, pela própria inibição de uma relação sem constrangimentos com a prática da pergunta.

Um modo de estar com a cultura que não faz perguntas ou as permite de modo selectivo rigidifica respostas, transforma a cultura num culto, com os seus ministros, as suas prédicas, muito eruditos, performativos, a fazer da cultura uma paixão, em continuidade com um certo nacionalismo da língua, mas, realmente, um lugar pouco permeável à interpretação crítica, segundo regras de discussão argumentada, aberta. Ou que lhes resiste, com intolerância, até com violência simbólica. É este o caso da nossa cultura?

Talvez a cultura portuguesa deva questionar-se sobre a maneira como se relaciona com os estudos que a inquirem e assim dela também participam. Enquanto certas perguntas forem anatemizadas a ponto de não poderem ser debatidas com tranquilidade, temos um problema, que é cultural. Não é apenas a pergunta “Serão «Os Maias» um romance racista?”. É qualquer questionação crítica sobre feridas narcísicas nacionais recebida com exorbitante e anómala intolerância.

Percebe-se que doam feridas narcísicas a respeito do passado quando tocadas. Mas não se pode continuar a aceitar que quando isso suceda se reaja desproporcionadamente, seja uma pergunta sobre “Os Maias” ou, como há um par de anos, um grafitti de protesto político contra uma estátua a retratar o Padre António Vieira. Ou ainda quando, recorrentemente, se pede que se conte a história do país com menos paternalismo.

Não é da história do país e da sua cultura que devemos ter vergonha, mas de não ganharmos capacidade de a avaliar criticamente, sem intolerância. O que distingue a consciência histórica da mera tradição é esse trabalho crítico. Fazê-lo não é abrir feridas, mas lavá-las e cicatrizá-las. A história continua.

Não caracterizo levianamente a reactividade à palestra da polémica, que teve lugar num seminário, em contexto de formação, ao tomá-la como violenta. Não foi o que de mais parecido aconteceu em Portugal com as práticas de vigilância de aulas que vimos defendidas por exemplo no Brasil, a garantir que não há docentes a tocar em assuntos que não podem ser inquiridos?

Decerto não é isso que queremos para o estudo da cultura em Portugal quando está em causa a representação que o país faz de si e do seu passado. Nem é essa a defesa que devemos querer para as Humanidades já de tantas formas ameaçadas numa época que as estranha.

2/ Jogo de espelhos

É certo que, hoje em dia, recrudesce uma lógica de polarização que radicaliza e esquematiza posições. Questão que se coloca a respeito do tema do “lugar de fala” e recentemente exemplificado com a polémica sobre quem devemos desejar que traduza uma poeta negra. Mas é indispensável que não se ceda à tentação de fazer equivaler tudo, outro esquematismo, prescindindo das pequenas diferenças. Pode o diabo estar nos detalhes. Mas seguramente é também nos detalhes que se articula o cuidado e a virtude.

Um “lugar de fala” que deixasse de servir o propósito de incluir vozes para, com esse pretexto, contraditoriamente, excluir vozes não é aceitável. O “lugar de fala” não pode falhar a compreensão de que incluir o excluído é sempre também incluir-se. Por isso, um “lugar de fala” que se converte num dispositivo burocrático de reconhecimento de uma exclusividade não é aceitável.

Falha o convívio das diferenças, a contaminação entre elas, com o que pode ter de apropriador (desde que não seja uma apropriação que oprima a diferença, como na miscigenação do lusotropicalismo, ou dela faça uma mercadoria, como se tornou tendência global).

O entendimento de lugar de fala em que acredito é simples: eu que falo ou escrevo sobre quem foi socialmente alterizado tenho o dever de olhar em volta e perguntar pela sua voz.  Se não, devo perguntar-me se não faço mal e dispor-me a ser criticado. Mas dar a vez em caso nenhum pode ser responder à segregação com segregação por outros meios.

De modo semelhante, restrições à liberdade criativa que doravante forçassem o trabalho criativo a recortar temas “aceitáveis” de temas proibidos são um crime contra a liberdade criativa e contra a sua vocação para transgredir limites e dessa maneira questionar-nos a condição. Até à data, não houve humanidades sem humanos que as cultivassem, mas, não menos, só houve uma ideia de humano porque houve humanidades que a pensassem e exprimissem.

Mas tal como não deve haver direito a prescrever temas aceitáveis e a proscrever outros, também não deve haver direito a prescrever perguntas aceitáveis e a proscrever as restantes. Nem comissários culturais a educar o povo, nem comissários culturais a vigiar as perguntas que se fazem. Importaria muito que se percebesse que o debate fica perdido quando cai neste jogo de espelhos perigoso.

3/ Liberdade de contextualizar

O ponto de vista razoável tem de não prescindir de nenhuma liberdade, tomando-as a sério. A liberdade criativa, como a liberdade de investigação e a liberdade de crítica são valores não relativizáveis imprescindíveis para articularmos sentido (o que não significa que sejam valores ilimitados, até porque de outro modo acabariam por colidir uns com os outros). E nestas dimensões da liberdade, tem de se encontrar espaço para a liberdade de contextualizar.

Sugerir-se sacrificar a liberdade de contextualizar porque há maus usos dela é como sugerir que se mate um corpo porque está ferido. Contextualizar, mesmo retextualizar não é destextualizar. É conhecer o passado, ou a obra, tanto faz. É interpretá-los até recriá-los, mas sempre vivê-los e não apagá-los ou editá-los. O que nos exige menos desconfiança, vigilância, caminhos estreitos. Para que coisas novas possam acontecer e nos surpreender. O sentido nunca é uma obra fechada.

E justamente a propósito, não deixo de fazer uma observação um tanto perplexa sobre a maneira como neste debate se apontou o desconhecimento e incompreensão do sentido alegadamente inequívoco do uso que Eça faz da ironia a propósito do racismo. Estão tão seguros da unicidade da interpretação? Não serão ironias tão resolvidas apenas um desdobramento da literalidade a que precisamente a boa literatura resiste?

A ironia convive bem com a ambivalência que transporta o leitor para a experiência de uma tensão irónica, sem a resolver, cabendo isso a cada leitor. E se se aponta desconhecimento e incompreensão, não importaria particular cuidado no estudo de “Os Maias”, que integra o currículo de uma disciplina do ensino obrigatório em Portugal, em dar conta deste tratamento irónico do racismo e explicar o quadro de crenças em que o racismo lavrava nesse tempo finissecular? Pode ser um prefácio ou uma alínea do programa da disciplina, alguma coisa teria de ser. Para uma cultura sem tabus. Mas, antes, é imperativo que o país cultural comece a lidar melhor com perguntas.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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