“D” de Draghi, Donald e Depressão

Trump e Draghi, cada um no seu campo, têm uma capacidade destrutiva que nunca ninguém teve. Os investidores começam a aperceber-se disso e procuram refúgio.

A volatilidade regressou aos mercados, após mais uma tentativa falhada nas negociações comerciais entre a China e os EUA. Os receios de que as negociações não são mais do que um campo para medir forças, onde os danos colaterais não importam, estão a materializar-se na falta de confiança por parte dos investidores.

Após uma época de resultados fraca, caracterizada pela incerteza e pela recompra de acções, o aumento de tarifas sobre produtos chineses é a desculpa perfeita para a venda de activos com risco.

Donald Trump insiste em pressionar a Reserva Federal (Fed) num caminho que não tem retorno, uma guerra cambial à escala mundial. Por outro lado, Mario Draghi, através do Banco Central Europeu (BCE), também não se coíbe de lanças mais lenha para a fogueira, anunciando mais estímulos, seja através da compra de títulos, seja de juros negativos.

Com as taxas na Alemanha a aproximarem-se dos -1%, será o BCE a pagar o tão aguardado plano de estímulos à economia comprando estes títulos e aceitando perder dinheiro. O problema está nos aforradores, visto a maior parte estar na idade da reforma e, como tal, contar com algum tipo de rendimento e não no inverso, i.e. no delapidar do património construído.

As taxas negativas são um imposto sobre o património e um entrave à passagem de riqueza de uma geração para outra, dado que sem rendimento há a necessidade de gastar o capital acumulado.

Draghi consegue, no entanto, que o euro seja a cola que move as nações, que continuam sem projecto político e económico para a zona euro, agora que passou a aflição das eleições europeias. A desresponsabilização do poder político e a continuada burocratização da zona euro, traduzida nos inúmeros regulamentos e directivas, anulou o efeito da política monetária de juros negativos.

Após ter sido condecorado e elogiado pela maior parte dos políticos mundiais, por ter feito o trabalho deles, Draghi ficará para a história como o presidente do BCE que deixou um sector financeiro à beira do colapso. Não só o crédito malparado não foi resolvido, como o trabalho que tem sido desenvolvido o foi à custa do aumento das comissões bancárias e das provisões feitas, na ausência da rentabilidade dos depósitos no BCE. Por outro lado, ao seguir os passos do Japão, Draghi alimentou o início de uma guerra cambial à escala global que poderá resultar numa depressão.

Trump e Draghi, cada um no seu campo, têm uma capacidade destrutiva que nunca ninguém teve. Os investidores começam a aperceber-se disso e procuram refúgio no ouro, nas moedas digitais e nas obrigações, esperando não tanto ser remunerados, mas perder o mínimo possível naquela que parece uma crise anunciada e sem retorno.

Donald e Draghi não têm apenas em comum a letra “D”, mas também o poder de provocar aquilo que ninguém quer, uma verdadeira Depressão.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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