
Numa década, muita coisa pode mudar. E no caso da economia portuguesa, o jogo mudou mesmo. Podemos condensar a década em cinco grandes movimentos estruturais e, assim, acompanhar a história de um país que recupera de uma economia fragilizada no âmbito do pós-troika até chegar a um ponto não só de consolidação, mas de crescimento acima da média europeia, conquistando reconhecimento internacional. O futuro da história, porém, continua incerto.
O legado da austeridade
Estávamos em 2011 e o programa de resgate internacional da troika, que durou até 2014, impôs cortes que reduziram drasticamente a procura interna. O efeito colateral, não planeado, foi forçar a economia a virar-se para o exterior. Nos anos seguintes, assistiu-se a um aumento das exportações de bens e serviços, que passaram de cerca de 27% do PIB em 2010, para valores próximos dos 49% em 2023, segundo dados do INE e do Banco de Portugal.

A recuperação e os seus motores
Entre 2015 e 2019, Portugal cresceu a um ritmo médio de 2,6% ao ano, de acordo com dados do INE/PORDATA. Neste período, e sobretudo a partir de 2017, o turismo funcionou como um dos principais motores da economia, a par das exportações. Ao mesmo tempo, Portugal vê as agências de rating melhorar a avaliação da dívida pública. Em 2019, o défice orçamental encontrava-se perto do equilíbrio (0,1% do PIB) e a taxa de desemprego caía para mínimos da década (6,5%), segundo o INE.
Ao mesmo tempo, Portugal passou a ser um destino escolhido para fixar centros de competências e serviços partilhados de mais de 450 empresas multinacionais, segundo o AICEP.
O choque da pandemia
Portugal entra em 2020 com estabilidade orçamental e crescimento moderado, mas foi um ano de rutura. A pandemia da COVID-19 provoca uma queda do PIB histórica, de 8,2%, segundo dados do INE/PORDATA, a maior da série estatística recente. O setor do turismo foi fortemente impactado, bem como o dos serviços e o consumo.

A dívida pública aumentou para 134,1% do PIB, segundo dados do INE/PORTADA, refletindo o impacto das medidas extraordinárias de apoio às empresas e ao emprego. Tal como o resto da Europa, Portugal beneficiou da suspensão temporária das regras orçamentais e de uma resposta coordenada da União Europeia.
Recuperação acelerada
Depois do choque, a recuperação. Portugal registou em 2021 uma recuperação expressiva, mais rápida do que o esperado por várias instituições internacionais. Nesse ano, a economia cresceu 5,6% e, em 2022, 7%, uma subida acima da média da zona euro, segundo dados do INE e Eurostat, impulsionada pela retoma da atividade, do consumo e, claro, pelo regresso do turismo.
Mas é nessa altura que o contexto internacional se altera de forma abrupta, com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Os preços da energia aumentam e a inflação atinge níveis históricos na zona euro, levando o Banco Central a iniciar um ciclo de subida das taxas de juro. Ainda assim, Portugal consegue estabilizar a taxa de desemprego, em torno de 6%, segundo dados do INE e Eurostat.

Em 2023 e 2024, a economia portuguesa entrava numa fase de maior moderação. O crescimento abrandou para valores próximos de 2%, persistindo um panorama de incerteza geopolítica. Ainda assim, a dívida pública continua a sua trajetória descendente, abaixo dos 100% do PIB, segundo o Banco de Portugal.
PRR e a ambição de transformação económica
A 22 de abril de 2021, Portugal submeteu à Comissão Europeia o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Foi um dos primeiros Estados-membros a fazê-lo e garantiu 16,6 mil milhões de euros em subvenções e empréstimos, montante depois revisto para 22,2 mil milhões de euros. O plano concentra-se na transição climática, digitalização, qualificações e coesão social, com execução prevista até este ano, 2026.

O Banco de Portugal tem assinalado que o PRR deverá impulsionar temporariamente o investimento e o crescimento nos próximos anos, num contexto em que o investimento privado tem mostrado sinais de abrandamento. Ao mesmo tempo, a aposta em I&D permanece em 1,75%, segundo dados do INE, abaixo da meta europeia de 3% para 2030. O verdadeiro teste estrutural começará quando este instrumento europeu acabar.
Os próximos dez anos
Portugal prepara-se para entrar num período determinante para a sua economia, em que os desafios são, sobretudo, estruturais. O relatório Foresight Portugal 2030, da Agência para o Desenvolvimento e Coesão, alerta para o impacto do envelhecimento da população e a redução da população ativa, sublinhando que estas tendências condicionam o “potencial de crescimento da economia” e aumentam a pressão sobre a sustentabilidade da Segurança Social. Ao mesmo tempo, destaca a necessidade de reforçar qualificações e produtividade, defendendo uma “transformação estrutural do tecido produtivo” que permita a maior adoção de tecnologias por parte das empresas.
Por outro lado, o relatório Megatendências 2050, elaborado pela Rede de Serviços de Planeamento e Prospetiva da Administração Pública (REPLAN), enquadra estes desafios num contexto global de “transformações profundas e interdependentes”. A transição digital, a difusão da inteligência artificial e a transição climática são apontadas como forças que irão reconfigurar modelos produtivos e cadeias de valor.

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