Da liberdade e do exemplo

O Estado deve ser responsável, pedagógico e eficaz. Deve contrariar onde o interesse comum o justifique, deve abster-se de seguir a corrente mais fácil.

O ser humano nasceu para a liberdade, valoriza a liberdade aspira por liberdade. Foram muitos os pensadores que teorizaram sobre o homem perante a sua liberdade; Hobbes, More, Adam Smith, Stuart Mill, Rosseau, Kant, Burke, Nietzsche e muitos outros dedicaram-se a interpretar o homem na sua relação com a liberdade, e esta relação com o próximo e com um todo social que se pretende organizado e viável. Os mais conservadores, como Hobbes, viriam a revelar-se os mais prudentes e realistas, afirmando a necessidade de um Estado forte, regulador e de regras claras para a conformação da liberdade individual numa liberdade de todos, numa sociedade organizada e próspera.

O estado de quarentena ou confinamento é absolutamente anti-natural para o homem. O homem é ser em relação, é o ser social da criação, só se realiza e faz sentido em sociedade. Robinson Crusoe ou Tarzan aspiram à recuperação da partilha da existência com outros semelhantes, Frankenstein assume a humanidade na frustração de um amor não correspondido, o homem invisível queria ser visto, Deus mandou Simeão do deserto descer da sua torre ao encontro dos homens.

A reclusão, voluntária ou não, é sempre uma provação e uma privação. Excepção feita, obviamente, à reclusão voluntária de religiosos e religiosas, que encerra uma faceta relacional intensa, mais uma vez, em completude e elevação do humano. Não admira que cada dia, cada semana, cada quinzena, cada mês de confinamento fossem sentidos como uma privação e uma provação. Os encontros naturais, os programas combinados, o café rápido, o jantar prolongado, o fim de semana partilhado, tudo isto faz parte de uma vida normal; tudo isto foi repentinamente roubado por um vírus.

O homem encarcerado só sonha com a liberdade, é bom que assim seja, é este sentimento profundo que acaba com as piores ditaduras e alicerça regimes mais justos. Mas, o vírus, estando dependente no seu impacto das decisões políticas, não é uma criação ou decisão política. O vírus não é uma maquinação do Estado de direito democrático, como alguns fanáticos de certas seitas querem fazer crer. O homem é posto perante a difícil escolha entre a liberdade ou a vida. A porta desta prisão pode abrir-se para um precipício.

O papel do Estado, na concepção de Hobbes, que enquanto conservador partilho, será a da procura e gestão do equilíbrio entre a liberdade e a vida. Se há, como felizmente há, a previsão do regresso à liberdade num espaço de tempo, apesar de tudo, aceitável, o Estado deve preocupar-se com a preservação da ordem e da vida, para que todos cheguem à liberdade desejada.

O Estado deve ser responsável, pedagógico e eficaz. Deve contrariar onde o interesse comum o justifique, deve abster-se de seguir a corrente mais fácil, se esta é lesiva do interesse comum. Em palavras de hoje, em tempos de crise profunda, o Estado prevarica se se deixa seduzir pela via do populismo irresponsável, pela leviandade do facilitismo simpático, pelo baixar da guarda perante o inimigo primeiro.

Na história da privação e provação que vivemos, é natural, ainda que não racional ou responsável, o sentimento alargado de “V-Day” a que assistimos no final do estado de emergência. As pessoas saíram para a rua, festejaram, abraçaram-se, tentaram resgatar rotinas proibidas na véspera, acreditaram que a guerra tinha acabado. Toldadas pelo sentimento de prisão, esqueceram-se que o vírus não é um parceiro controlável com quem se assina um armistício.

Se o primeiro-ministro e o Presidente vão para uma raia lotada, toda a gente reforça a convicção de que está tudo bem. Se manifestações políticas são permitidas, as coisas não são tão más quanto se pintam. Se as curvas comunicadas parecem descer, assumem-se como planas. Se a mensagem de quem representa o Estado é de sucesso na batalha, de vitória e até de milagre, quem é o homem sedento de liberdade que a põe em causa?

É esta a história do trágico desconfinamento português. Uma vontade imensa de liberdade e os piores sinais possíveis dados pelo Estado e por quem o representa. Costa e Marcelo abriram a porta sem cuidar que a seguir havia a probabilidade de um abismo. A embriaguez de um milagre português, que nunca existiu, trouxe o pior dos nossos governantes à superfície. Se na gestão do estado emergência, fizeram um esforço sério para imitar Merkel e Frederiksen, na abertura confundiram-se com Trump e Bolsonaro, deixando vir ao de cima um populismo incompatível com a crise em curso.

Sim estamos mal, muitíssimo pior do que seria de esperar no fim do estado de emergência que tanto nos custou. Sim, a grande responsabilidade política é de António Costa, do seu Governo, de Marcelo Rebelo de Sousa e de todos os políticos que, através de manifestações, ajuntamentos e festas, enviam o pior sinal possível à sociedade. A oposição que não se deixou enredar nesta leviandade, não só já não se encontra presa ao pacto de colaboração responsável do confinamento, como tem o dever estrito de criticar, condenar e contrariar estes comportamentos.

Os exemplos vêm quase sempre de cima, se os empossados e outros não estão à altura de os dar, que assuma a dignidade quem a soube conservar.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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