Da sala de aula para o ensino a distância: três exemplos de adaptação em tempo recorde

Jorge Conde, presidente do Politécnico de Coimbra, Jorge Lopes, Diretor da Rumos Formação, e Manuel Fontaine, Diretor da Escola do Porto da Faculdade de Direito da Universidade Católica, contam como as suas instituições enfrentaram e venceram a pandemia da Covid-19. Foi esta sexta-feira, 30 de julho, na mesa redonda Os Desafios da Formação em Portugal, promovida pelo Jornal Económico.

Em meados de 2020, de um dia para o outro, Portugal entrou em confinamento devido à crise sanitária provocada pelo novo coronavírus e as instituições de ensino e formação suspenderam as aulas presenciais. Alunos e professores, formandos e formadores trocaram a sala de aula pelas suas casas e a partir daí continuaram o trabalho. Esta sexta-feira, 30 de julho, Jorge Conde, presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, Jorge Lopes, Director da Rumos Formação, e Manuel Fontaine, Diretor da Escola do Porto da Faculdade de Direito da Universidade Católica, contaram, na mesa redonda do Jornal Económico sobre Os Desafios da Formação em Portugal, como as suas instituições enfrentaram o mundo que lhes caiu em cima.

Como foi a adaptação? – lançou o moderador Ricardo Santos Ferreira.

“O Politécnico de Coimbra teve que, de um dia para o outro, aprender a trabalhar à distância, aprender a ensinar à distância. A primeira vaga da pandemia foi de aprendizagem hora a hora do que é que devíamos fazer, desde logo, porque não estávamos preparados tecnologicamente  para o efeito”, explicou Jorge Conde, presidente do Instituto Politécnico de Coimbra.

Faltavam câmaras para as salas de aula, faltava largura de banda, havia estudantes que não tinham computador pessoal para assistirem às aulas em casa… Do lado dos professores não havia a certeza de estarem a fazer bem aquilo que tinham que fazer e sabem fazer, que é ensinar. Se os equipamentos podiam ser comprados, aqui, salienta Jorge Conde, houve a necessidade de criar um espírito de confiança, de entreajuda no sentido de tentar perceber as dificuldades e que as dificuldades de uns antecipassem as dificuldades de outros.

Em setembro, pensava-se, “tudo voltaria à normalidade”. Aquilo era, no fundo, um intervalo e esse intervalo correu bem. “Para aquilo que era, como alguém já definiu, um ensino remoto de emergência, correu bem”, afirma Jorge Conde.

Para uma realidade de ensino a distância havia muito para fazer e continua a haver muito. “É esta diferença que acho importante que todos tenhamos a noção: uma coisa é este momento de emergência, outra coisa diferente é fazer ensino a distância – e aí estamos longe”. Esse é o caminho que falta percorrer.

 

Na Católica Porto

Na Escola do Porto da Faculdade de Direito da Universidade Católica, “a  adaptação foi surpreendentemente fácil”, salienta Manuel Fontaine, o diretor. “Hoje, olhando para trás, ainda fico perplexo como conseguimos de uma forma tão rápida, apesar de tudo, adaptar um ensino que era 100% presencial a um ensino 100% online”.

E como conseguiram? “Tivemos a sorte de ter uma infraestrutura tecnológica já preparada, que curiosamente não usávamos. De repente, a totalidade dos docentes passaram a ser competentes para usar esta tecnologia, que é relativamente intuitiva”, explica, acrescentando que em termos da eficácia do processo de aprendizagem, pelo menos, em Direito, um domínio completamente diferente de outras áreas onde se exige uma passagem à prática muito mais intensiva, “funcionou”.

No fim do semestre seguiram-se os exames, exatamente iguais aos dos anos anteriores e até presenciais e os resultados não pioraram. “Isso levou-nos a crer que, de facto,  e apesar de tudo, esta geração não está menos bem preparada do que as gerações anteriores”, salienta, admitindo que, se calhar está é preparada com mais competências e sobretudo resiliência.

Quando a Escola do Porto da Faculdade de Direito da Universidade Católica reiniciou as aulas em setembro fê-lo já num contexto diferente, adotando um sistema de ensino combinado em que parte das aulas eram online e parte eram presenciais. Também as salas de aula foram adaptadas de forma a aumentar o espaço entre os alunos, o que fez diminuir a  capacidade drasticamente.

Na visão de Manuel Fontaine, o ensino online tem muitas virtualidades e a faculdade vai aproveitá-las. Por exemplo, levar as pós-graduações 100% online a um público alvo muito mais vasto do que o da região do Porto. As oportunidades multiplicam-se dentro e fora do país, salienta: “temos o potencial em língua portuguesa de chegar a todo o mundo lusófono e se apostarmos no inglês, aí é o mundo inteiro”. Contas feitas, “há um alargamento do público alvo com consequências positivas nas inscrições”. Não só. “Torna-se muito mais fácil convidar uma estrela internacional para dar uma aula numa licenciatura ou no mestrado”.

 

O impacto na Rumos

O Grupo Rumos integra, entre outras, as marcas de referência na área da formação Rumos, Galileu, Flag. Jorge Lopes, Diretor da Rumos Formação, explica as consequências da crise sanitária que obrigou ao confinamento do país e à suspensão da formação presencial: “o impacto imediato foi grande. A nossa atividade baseia-se essencialmente em formação para empresas e a primeira reação que as empresas tiveram em março do ano passado, na altura quando tivemos o primeiro confinamento, foi suspender os planos de formação”. Os particulares mantiveram-se e foram um pequeno balão de oxigénio. Na semana de 16 de março, as empresas do grupo mudaram toda a operação para ambiente remoto.

No caso concreto da Rumos, a formação profissional é dada em Lisboa, Porto, Coimbra e Aveiro. Fora destes centros urbanos, a oferta acaba por ser muito escassa. Desde há muitos anos, porém, a empresa desenvolveu o modelo da formação remota – uma plataforma semelhante ao Zoom que permitia ter sempre em cada grupo /turma, um ou dois formandos que não tinham acesso geográfico aos polos da empresa. “Foi sempre uma forma que tivemos de poder chegar a mais pessoas ou de podermos juntar pessoas numa mesma turma por razões de quorum”, explica Jorge Lopes. “Esta realidade já existia, não existia era com a dimensão de 14, ou 15 formandos em simultâneo. Tivemos de adaptar toda a operação a esta realidade”, conta Jorge Lopes, salientando a capacidade de resposta dada pelas diferentes equipas.

Conta também que, por exemplo, na Flag houve conteúdos que não se conseguiram pura e simplesmente entregar em formação remota, pelo que foi necessário desenvolver novos conteúdos, desenvolver programas que fosse possível entregar em remoto. Aspeto positivo? “Trouxe-nos uma nova situação: a de pensar, a partir de agora, conteúdos que tenham sempre que existir com este modelo híbrido do presencial e do remoto”. Ou seja, o modelo do futuro.

 

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