Da velhice à morte: uma louquice de sorte?

Somos um país muito envelhecido não somente no seu tecido substancial, as pessoas, mas também na perceção e gestão de como lidar com esta realidade crescente.

“A velhice o que é senão a morte estagiando em nosso corpo?” (Mia Couto).

Dia após dia, semana após semana, a questão dos idosos e dos lares tem tido algum barulhar. E provoca-nos muito baralhar. Como é possível tanto desleixo, ainda mais em ocasião pandémica, nos descuidados para com os seniores, anciães da vida? Leio um pensamento de Lin Yutang, acutilante, e não encontro aí a tal resposta aspirante: “Amamos as catedrais antigas, os móveis antigos, as moedas antigas, as pinturas antigas e os livros antigos, mas esquecemo-nos por completo  do enorme valor moral e espiritual dos anciãos”.

Sinto que este tem sido um eco oco, quando há dois anos se noticiou em massa que Portugal é um dos cinco piores países europeus no trato para com os idosos, no seu não investimento na saúde dos mesmos. E, ainda por cima, somos o 4.º da UE ora em maior proporção de idosos ora em rácio de dependência de idosos (subida em flecha daqueles com mais de 80 anos)! Ou seja, somos um país muito envelhecido não somente no seu tecido substancial, as pessoas, mas também na perceção e gestão de como lidar com esta realidade crescente.

Passam os anos e o nosso país continua a assobiar para o lado, como se nada fosse. Os idosos continuam a ser maltratados, tanto pelo Estado como por certos lares para onde são despachados. Como se fossem um estorvo. A senilidade não está em alguns dos visados, mas na insensibilidade de quem não sabe nem quer cuidar deles. Assim como “a arte de envelhecer consiste em conservar a esperança” (A. Maurois), também a arte de acompanhar e estar com os que envelhecem consiste em reforçar a bonança da temperança.

E já nem alego a existência de tantos lares ilegais ou de condições trogloditas, e outros por descobrir, que conseguem manter os subsídios da Segurança Social, impávidos e isentos de quaisquer fiscalizações… É inegável que os países onde os idosos são valorizados na sua velhice – meta para a qual todos caminhamos – sofrem menos em termos de depressão e em risco de demência. De que esperamos?!

Consta que tantos idosos têm morrido, no nosso país, devido à Covid e não a outros problemas de saúde ou da idade, já que impossibilitados – todos nós – de acorrer naturalmente ao hospital ou centro de saúde quando necessitados. Por isso, será mesmo assim? E por que não choramos coletivamente os nossos mortos?

Noutros países europeus são divulgados – nos noticiários dos media – os nomes das pessoas que falecem devido ao vírus, para conhecimento geral. E, tantas vezes, sem o brio duma cerimónia fúnebre. Não são estranhos nem desconhecidos. São evocados, ou não fossem heróis – à sua medida – que sucumbiram nesta tamanha fragilidade da vida afeta à saúde pública. Por isso, merecem essa saudação publicada face à saudade antecipada. Independentemente da idade. Mas por uma questão de princípio, de comoção, de verticalidade.

Cá não se faz nada disso, como se a dignidade da velhice fosse surripiada… Transviada… Onde está o sentido comum e o dever de consciência cívica? Não está – pelo menos cá –, porque vivemos numa prosápia de apatia. É forte como a morte, matando a tão singela empatia! Mais uma vez se comprova que, nem sempre, o ser ou fazer diferente é melhor. Nada disso.

Neste âmbito, recordo um agradável debate com o cientista M. Sobrinho Simões, que considera estarmos perante um triplo problema atual: 1. há mais um “vazio de empatia”, do que a falta dele; 2. “as pessoas têm mais ansiedade do que medo”, infelizmente; 3. e perdemos, no mundo em geral, a “hierarquia de saberes”. Todos sabem tudo, assim julgam, achando que na internet está toda a informação necessária, retirando ou diminuindo a capacidade de reflexão e de conhecimento. Isto sucede com a aceleração e o consumismo constantes na nossa vida, espoletados pela globalização tecnológica.

Além das vantagens da mesma, estamos a ter “uma invasão total” de várias matérias e materiais, gerando a «imunopolítica», fazendo com que sejamos mais números do que pessoas – com identidade própria. Pois, atualmente, opera-se e funciona-se muito, por códigos e dígitos, no entender de Clara Ferreira Alves. Porque há máquinas assustadoras, e de guerra, que mexem com as células humanas. Abramos os olhos, a mente e o horizonte: antes que seja tarde… E ao jeito descritivo de Victor Hugo: “Nos olhos dos jovens vemos chamas, mas é nos olhos dos mais velhos onde vemos luz”.

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