Da Web Summit a muSEAum: transformação digital em museus

A aplicação de tecnologias digitais pode ajudar os museus a contrariar os efeitos da falta de autonomia financeira e operacional.

Na mesma semana em que decorre a Web Summit, tem lugar uma iniciativa bem mais modesta. Não é um parallel event, mas poderia ser. Não se trata de um summit mas de um plateau que aborda um tema relevante e premente a nível local, regional e nacional. A iniciativa é totalmente dedicada à aplicação das tecnologias digitais no turismo cultural, em particular no branding e marketing de museus com o objetivo de aumentar o número de visitantes nacionais e estrangeiros.

O branding e o marketing digital em museus é uma disciplina de gestão pouco aplicada, com poucos exemplos de melhores práticas. Vive-se um momento em que museus a todos os níveis – nacionais, regionais, locais – sofrem os efeitos da redução de investimento em recursos de todos os tipos, o que é agravado pela generalizada falta de autonomia financeira e operacional, uma situação que não permite e desencoraja iniciativa por parte dos responsáveis diretos dos museus.

A 1ª Conferência & Workshops muSEAum – Branding dos Museus de Mar de Portugal é um projeto de investigação da FCT (2018-2021) desenvolvido por CICANT, uma unidade de investigação da Universidade Lusófona (ULHT). A investigação orientada por Isabel Duarte (ULHT) incide sobre os recursos humanos, tecnológicos e práticas de gestão nas áreas da experiência de visitante, do branding e do marketing digital e avalia a eventual criação de uma rede de Museus de Mar de Portugal (www.museaum.pt). O evento decorre na ULHT e no Museu Bordalo Pinheiro.

Com o título “Transformação Digital em Museus – Impactos na Experiência de Visitante e no Alcance do Brand”, a iniciativa congrega cerca de 50 profissionais de museus de todo o país, a maior parte dos quais museus marítimos ou de algum modo relacionados com o mar. A designação museu de mar reflete um conceito novo. Aplica-se a qualquer museu, instituição, monumento ou sítio com alguma relação direta, indireta ou apenas parcial com o mar. São muitos os museus portugueses aos quais aquela designação se pode aplicar.

A abertura da conferência está a cargo de Mário Moutinho (arquiteto, antropólogo, sociomuseólogo, Reitor da ULHT) e tem início com duas palestras. Mónica Mendes Ferreira, professora no ISCTE – IUL, aborda o tema “Estratégias de Comunicação no Turismo” e António Filipe Pimentel, antigo diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, o tema “Sequeira e Crowdfunding” que versa a experiência de angariação de doações para a compra do quadro de Domingos Sequeira através de recursos de comunicação digital.

Mais de uma dezena de representantes de museus de todo o país, a maior parte dos quais pequenos museus com elevada relevância local ou regional, irão responder à questão colocada pela investigadora Rute Muchacho: qual o principal desafio que o respetivo museu enfrenta e como planeia enfrentá-lo?

Os resultados preliminares de dois estudos por inquéritos online realizados no âmbito de muSEAum serão apresentados por investigadores do projeto (Nuno Cintra Torres e Rita Grácio). O primeiro inquérito foi respondido por dezenas de administradores, diretores e coordenadores de museus de mar e focou na capacidade e práticas digitais dos museus nas áreas do branding e de marketing.

Os resultados revelam que as tecnologias de comunicação e marketing digital estão subaproveitadas e são em muitos casos negligenciadas, com reflexos negativos na expansão do brand (quando este existe) e no seu potencial contributo para o aumento do número de visitantes para vá para além do confinamento geográfico do museu. O segundo estudo ainda decorre junto dos públicos de museus e pretende avaliar, em particular, o impacto da comunicação e marketing digital e a experiência de visitante de museu.

O evento inclui seis workshops. No primeiro será apresentado o mais recente estudo da ACEPI sobre a economia digital em Portugal e aborda a prática do marketing digital em museus (Mário Alcântara, Paulo Ferreira). A relação imemorial arte-gastronomia como elemento de atração de públicos é ilustrada através de dois projetos, um em Portimão (José Gameiro, Adriana Boto) e outro de âmbito europeu, o projeto In_Nova MusEUm (Alessandra Capezzuoli Ranchi, Célia Quico).

Outro tema é a experiência do Museu do Dinheiro na mediação cultural e virtualização da visita (Daniela Viela, com moderação de Eduardo Sarmento). A aplicação de tecnologias digitais aos conteúdos através de realidade aumentada (RA) e realidade virtual (RV) para uma nova experiência de visitante é ilustrada com exemplos recentes em museus na Alemanha (Marina Oliveto, Rafael Antunes). A demonstração da aplicação de tecnologias de comunicação para estudo de fluxos de públicos em museus (Manuel Pita) como contributo para melhorar os roteiros das visitas nos museus encerra os workshops.

Segundo Artur Pimenta Alves, Professor Emérito da Universidade do Porto, a conferência aborda um tema “muito interessante e um caminho que todos os museus deviam estar a explorar.”

Recomendadas

A idade sem razão

Insistir no uso da idade cronológica, ou a ausência de preocupação com o que representa a desvalorização social de se ser mais velho, é reveladora de uma enorme insensibilidade à mudança social. O resultado é o desperdício de capital humano para as sociedades que envelhecem.

Polígrafo de maçons

Como Rui Rio, considero importante saber se um homem público, que se propõe liderar um grande partido e, por extensão, arriscar-se a governar um país, é verdadeiramente livre, dono da sua ação

O psíquico de Trump

Trump conseguiu o que nenhum dos seus antecessores conseguiu. Pôr os europeus a gastar mais com a defesa, e reduzir significativamente a contribuição americana para o orçamento da NATO.
Comentários