A ordem baseada em regras que Davos tanto almeja representa um mundo que não existe mais face a um Donald Trump que virou do avesso os ideais do principal encontro informal entre governos, empresas e organizações internacionais. Trump é protecionista, não defensor do livre comércio. Acha que a crise climática é “a maior farsa já perpetrada contra o mundo” e desconfia de organizações multilaterais. Prefere jogos de poder ao diálogo que moldam o futuro do mundo e despreza os temas woke, acarinhados pelo WEF – como igualdade de género, investimento ético, diversidade ou clima, que Davos tanto se esforçou para promover. Exigiu mesmo que fossem retirados da agenda, como condição para marcar presença na pequena estância nos Alpes suíços.

O presidente francês não filtrou as palavras e alertou para a transição para um mundo sem regras, onde o direito internacional é ignorado e o único princípio que parece importante é o do mais poderoso. Macron completou o discurso anterior de Ursula von der Leyen que soou em Davos como um grito de independência da Europa contra a visão do mundo de Trump com a presidente da Comissão Europeia a prometer uma UE inflexível face às ameaças norte-americanas.

Enquanto von der Leyen afirmou que o mundo está a entrar numa “nova ordem mundial” e Macron disse que “não é hora para imperialismos”, o primeiro-ministro canadiano falou sobre uma “rutura” na ordem mundial e o dever das nações de se unirem para o benefício de todos num hino ao multilateralismo, reconhecendo que os EUA não serão mais o elo que manterá as alianças unidas. Um discurso inspirador, com forte impacto político, que levou Trump a retirar o convite ao Canadá para integrar o Conselho de Paz pelas farpas dirigidas às grandes potências de usarem a integração económica como arma e as tarifas como instrumento de pressão.

Tem razão. Vive-se o “faz de conta” num mundo submisso à coerção económica de Trump. Dói menos aceitar o golpe de misericórdia na ordem internacional liberal que o Fórum Económico Mundial tanto se orgulha de defender e que quando esvaziada de regras, os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem. Fica o recado de Carney: é necessário calibrar as relações na economia global e a importância de outros países e blocos económicos emergentes, incluindo a China, Índia, Tailândia e o Mercosul. As outras potências devem ser pragmáticas, sem subverterem os seus valores perante bullies sem escrúpulos.

Após os alertas deixados em Davos, o que acontecerá a seguir? Não será fácil construir uma ordem internacional que funcione bem, preferível à lei da selva e da força de Trump. Exige que a Europa – criticada pelo presidente norte-americano por estar a ir na direção errada – faça mais para financiar sua própria defesa e não se coloque de joelhos perante os EUA. Urge um plano E de Europa forte por si própria, que mostre os dentes e jogue duro para lidar com as novas ameaças, para ser mais independente e ultrapassar as fragilidades de liderança.

A estratégia de apaziguamento falhou. É hora de ganhar respeito aos rufias. Como disse Carney, “se não estamos à mesa, estamos no cardápio”, numa mensagem que ecoou junto dos líderes ocidentais pela voz de um líder que assumiu a postura de estadista em Davos. Não foi Donald Trump, que aos ziguezagues apregoou aos sete ventos a América, manteve a mira na Gronelândia e enxovalhou e humilhou a Europa.