De Costa a Costa, agora por mares mais turbulentos

A jornada eleitoral estava a ser solarenga, mas Marcelo Rebelo de Sousa decidiu tirar do bolso algumas nuvens escuras logo a seguir a ter votado em Celorico de Basto. O Presidente da República referiu que os próximos quatro anos não vão ser fáceis, e que todos sabemos isso. No entanto, achou que era ainda necessário dizer nos que estava na nossas mãos demonstrar que estamos atentos ao mundo, à Europa, ao que se passa e que não votar seria um erro.

Qual tio chato no jantar de Natal, Marcelo gosta de nos tratar como crianças. Às vezes parece ser por feitio, outras vezes para nos lembrar da importância central (que acha que tem) nas nossas vidas, que sem ele seriam desastres permanentes. Mas desta vez vamos esquecer isso, até porque o tio Marcelo tem razão.

Os próximos anos não vão ser fáceis para ninguém e a noite eleitoral acabou por demonstrar isso. Para António Costa e o PS, a noite foi, claro, de vitória, de subida significativa, de uma legitimação (finalmente) daquilo que tem vindo a fazer enquanto Governo após ter ‘perdido’ as eleições há quatro anos. Mas a tão desejada maioria absoluta acabou por ser apenas uma miragem e os socialistas vão ter de fazer uma nova ‘geringonça’ com os mesmos parceiros (e talvez o PAN e o Livre). Não deve ser grande problema imediatamente, mas as nuvens económicas de que Marcelo falou já são visíveis e deverão tornar mais tensas as negociações entre os socialistas e os parceiros à esquerda.

Para esses parceiros não vão ser tempos fáceis. O Bloco de Esquerda afirmou-se, sim, como terceira força política, mas perdeu votos face a 2015. O caso do PCP é mais grave, não só perdeu votos, mas também lugares parlamentares. Tanto Catarina Martins como Jerónimo de Sousa foram rápidos a anunciar o apoio a um novo governo do PS. Mas vão enfrentar um PS mais cheio de si próprio, mais duro nas negociações, pois vem de uma vitória folgada nas eleições.

À direita, no PSD e no CDS-PP, dois cenários diferentes. O dos sociais-democratas é o de alívio. O desastre total foi evitado, a ideia de um resultado na ordem dos 20% ficou para trás. Rui Rio sobrevive, pode fazer oposição a um PS que vai enfrentar mais ventos desfavoráveis. O líder do PSD conta a partir de agora com uma bancada parlamentar ‘própria’ e pode olhar para as próximas autárquicas como um alvo apetecível. No entanto, fazer oposição a António Costa não é fácil e Rio vai deixar de ter duas das grandes armas que a direita tem disparado contra o Governo: o PS ‘roubou’ as eleições em 2015 e desde aí teve muita sorte no contexto externo. Além disso, o discurso absurdo que Rio fez na noite eleitoral pode vir a sair caro. Dizer que não houve grande derrota é arriscado. Na sombra de um resultado pior previsto pelas sondagens há meras semanas, até pode nem parecer grande derrota, mas à luz do dia, especialmente o dia no qual alguém quiser atacar a liderança, vai ser fácil pintar como uma derrota grande.

Quanto ao CDS-PP, não há muito a dizer. Foi uma derrota previsível, fruto do desgaste sofrida pela própria Assunção Cristas depois de quatro anos de governação e quatro de oposição dura. O resultado das autárquicas em Lisboa foi, afinal, fogo de vista iluminado pelo contexto. Vamos ver o que uma nova liderança poderá fazer com o partido do ‘Táxi +1’. A primeira tarefa deverá ser analisar as causas do desastre, incluindo a perda de terreno para novos atores da direita – a Iniciativa Liberal e o Chega.

O PAN conseguiu um resultado estrondoso ao quadruplicar o número de deputados. Já não pode ser visto como um fait divers. Tem de se portar como partido adulto, quer seja na negociação para uma nova geringonça, quer seja na tomada de posição sobre diversos temas fora da esfera dos animais e da natureza. Não ter opinião sobre temas como a dívida pública não é desculpável.

Para os estreantes em São Bento – Livre, IL e Chega – a aventura começa agora. Não deve ser fácil sendo tão poucos, mas espero que façam bom uso da oportunidade, para o bem de todos os portugueses e portuguesas, e não só de alguns. Como diria o tio que mora em Belém, seria um erro não o fazer.

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