Munique teve um papel transformador na política do século XX. Foi o local onde o movimento nazi ganhou apoio popular e onde se deu o famoso “Putsch”, iniciado numa cervejaria, entre discursos inflamados, e que juntou milhares de simpatizantes deste populismo de extrema-direita. Hitler foi detido e o movimento controlado, para depois ressurgir com mais força.
Foi, também, nesta cidade alemã que se realizou a Conferência que, em 1938, reuniu as maiores potências europeias de então para decidir o destino da Checoslováquia, após a crise nos Sudetos, com a ausência do estado visado na mesa de negociações. Numa perspetiva de apaziguamento e crendo que a expansão da Alemanha se daria sempre no sentido leste, o Reino Unido, a França e a Itália concordaram em manter a paz em troca do reconhecimento dos direitos da minoria alemã dos Sudetos, como adotar a ideologia nazi e juntar-se à pátria alemã.
Em 1972, a cidade destacou-se pela organização dos Jogos Olímpicos, manchada pelo assassinato de atletas israelitas, mas que deixou uma marca no urbanismo da cidade, ainda hoje visível no parque que daí resultou. É uma cidade agradável, com espaços verdes belíssimos e com uma coleção de arte invejável, reunida em museus públicos de fácil acesso.
Para além deste peso político, hoje visto de forma negativa, Munique é também a sede da BMW, símbolo da indústria automóvel que trouxe bem-estar à sociedade, contribuindo para tornar a Alemanha no motor económico da Europa. Acresce a este facto ser uma cidade de topo no que concerne ao empreendedorismo e startups com sucesso. Situa-se na Baviera, o estado mais rico da maior economia da Europa.
É indubitável a abertura de Munique ao mundo, o seu cosmopolitismo e também a sua história de relação estreita com o Império Austro-Húngaro, que terminou com o posicionamento da Prússia face a esse tradicional alinhamento e com a fundação do que veio a ser a Alemanha.
Uma Conferência de Segurança em Munique
Fundada em 1963, a Conferência de Segurança de Munique é realizada pela primeira vez na cidade de Munique, tendo sido fundada por um antigo resistente ao nazismo, Ewald-Heinrich von Kleist-Schmenzin. A página da história do nazismo virava-se, mas o cosmopolitismo de Munique assegurava que aí se continuava a realizar o encontre das elites das potências europeias e norte-americanas no âmbito da NATO. Volvidas mais de seis décadas, a conferência mantém a sua relevância no panorama da esfera pública internacional, sobretudo, nos países ocidentais.
Temas como a economia global, a segurança do continente europeu e, mais recentemente, do denominado Indo-Pacífico têm sido debatidos neste fórum. O ano de 2025 representou uma reviravolta nos discursos mais tradicionais e de circunstância, típicos destes encontros.
Pela primeira vez, o maior fomentador da NATO e aliado estratégico da segurança europeia de cariz ocidental, apresentava um discurso duro, incisivo e, sobretudo, desconectado das expetativas e da tradição deste encontro. J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos da América, fora a voz dessa assertividade negativa relativamente ao continente europeu, responsabilizando as lideranças pela sua incapacidade de assegurar a segurança e defesa do continente.
Este ano e no seguimento de temas fraturantes como a ocupação da Gronelândia, a ação na Venezuela e as provocações ao Canadá, o clima, paradoxalmente, amenizou. A presença de Marco Rubio, Secretário de Estado do Governo de Donald Trump, trouxe alguma serenidade à conferência, apesar da manutenção de algumas discordâncias.
O aplauso generalizado a Rubio escondeu o facto de a mensagem ser a mesma que fora pronunciada anteriormente por Vance, a decadência dos países ocidentais só se combate adotando o caminho apontado pelos Estados Unidos. O que isto quer dizer? Decerto, campanhas anti-imigração agressivas, perspetivas transacionais da política externa, a afirmação pela força e as parcerias adaptativas.
Retórica ou realidade?
De certa forma, muitos países ocidentais já assumiram que o mundo mudou, mas insistem em manter o discurso. E este vai-se afastando cada vez mais da realidade.
Recentemente, vimos uma sequência de visitas de alto nível prestadas à República Popular da China, em que se elencam países como a França, o Reino Unido, a Espanha, a Irlanda, o Canadá e a Finlândia, que demonstram um renovado interesse no estreitamento de laços comerciais com o gigante asiático. A Alemanha planeia a sua visita para breve, seguindo esta mesma tendência.
No meio dos discursos subsiste uma mensagem de esperança. A Ucrânia poderá aguentar mais três anos, tempo de duração da administração em exercício, os países europeus e a União Europeia poderão continuar a insistir numa política de manter os laços existentes com os Estados Unidos, aguardando uma mudança, fruto da alternância democrática na superpotência.
A grande questão é a reincidência numa abordagem que conduziu à impreparação da Europa para a receção da liderança de Trump 2.0. Os europeus não conduzem a política interna dos Estados Unidos, nem podem influenciar reformas estruturais às políticas decididas na Casa Branca. Para além disso, nenhum dado aponta que uma mudança de liderança, seja com base na alternância partidária ou de líder, mude estruturalmente o comportamento da política externa dos Estados Unidos como um todo.
A próxima administração herdará, para o bem e para o mal, o que esta deixar e não terá as mãos tão livres quanto possa parecer, sem que com isso não cause impacto no interesse nacional dos Estados Unidos. A superpotência quer continuar a liderar, criou atrito para o fazer e para evitar que outras economias a ultrapassem. Esse interesse manter-se-á.
Assim, os desejos e esperanças do lado europeu devem acautelar este princípio de uma política externa norte-americana que não quer deixar de liderar o mundo. Os discursos em Munique só reforçaram essa perspetiva.
Entre os aplausos e a rejeição, sobretudo por parte da União Europeia, de que o mundo se alterou definitivamente, pode estar o pulso que a administração liderada por Trump veio auscultar. Aos europeus resta perceber até onde conseguem manter o discurso e a prática, a retórica e a realidade, num futuro que oferece poucas alternativas ao que existe agora.



