IV Fórum Abrigo: Defesa das crianças tem ainda caminho para percorrer

No âmbito do IV Fórum Abrigo foi feita uma radiografia dos desafios que ainda enfrentam as crianças no mundo. Apesar dos progressos, ainda há muito para fazer.

Durante o IV Fórum Abrigo, associação que se dedica ao apoio às crianças, foi traçado um retrato do caminho que a defesa dos direitos das crianças em todo o mundo ainda tem a percorrer. Os progressos existem, como dá conta Rosa Coutinho, do Comité Português para a UNICEF, nomeadamente no que respeita à redução da mortalidade infantil em todo o mundo, à vacinação de mais de 13,8 milhões de crianças entre 2000 e 2012; mas também no que respeita ao acesso à escolaridade, à diminuição da subnutrição e baixo peso e também na proibição de castigos corporais nas escolas.

Mas Rosa Coutinho dá conta também dos grandes obstáculos identificados pela UNICEF na defesa dos direitos das crianças, pois atualmente, cerca de 17 mil crianças com menos de cinco anos de idade morrem todos os dias de circunstâncias evitáveis.

As crianças constituem cerca de metade dos quase 900 milhões de pessoas que vivem com menos de 1,9 dólares por dia, não tendo acesso a cuidados básicos de saúde nem mesmo ao mais básico dos seus direitos, o de ter uma identidade. Como diz Rosa Coutinho, todas as crianças têm direito a um nome e identidade, mas cerca de 230 milhões de crianças com menos de cinco anos nunca foram registadas, ou seja, 1 em cada 3 crianças não existe, oficialmente. outro problema identificado por esta membro do Comité Português para a UNICEF é o de que, apesar do que foi conseguido no acesso à escolaridade, ainda existirem 31 milhões de meninas que não vão à escola.

A crise dos refugiados está na ordem do dia, e Manuel Ramalho Eanes, na sua intervenção, recorda, além dos perigos da viagem em si, as crianças não ficam a salvo quando chegam à Europa. A presidente honorária do Instituto de Apoio à Criança aponta dados da Europol, que indicam que, no último ano, pelo menos 10 mil crianças não acompanhadas desapareceram depois de chegar à União Europeia, revela a Europol. Temendo-se que muitas sejam vítimas de exploração laboral, sexual ou de tráfego de órgãos.

Javier Urra, professor espanhol, lembra o problema da depressão infantil, que em 60% dos casos não é identificada, por não ter os mesmos sintomas do que na idade adulta. Exemplo disso é o facto de, em Espanha, as raparigas entre os 15 e os 17 anos terem no suicídio a maior causa de morte, cenário semelhante ao que se passa nos países nórdicos. Para o espanhol, os jovens cometem este ato irreversível na tentativa de chamar a atenção, muitas vezes sem quererem, na verdade, suicidar-se.

Urra lembra ainda que o trabalho infantil continua a existir e que há países onde se pensa que o trabalho infantil impede a delinquência e/ou a prostituição, sendo, por isso incentivado. Por outro lado, Urra, aponta ainda à sobreproteção das crianças, que também impede o seu desenvolvimento, e lhes esconde a realidade do mundo, não as preparando para o futuro, o que também é um dos seus direitos. Por isso, nas palavras de Javier Urra, as crianças não podem ser o futuro, têm de ser o presente, há que atuar já hoje, apoiando, mas também educando, as crianças e os jovens.

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