Em Portugal, quando alguém fala de defesa, de segurança, de serviços de informações ou de indústria de defesa, há uma fracção considerável do espectro político que se agita. Não por razões estratégicas, por razões reflexas. Como se o tema fosse, por natureza, suspeito. Como se um país pudesse existir no mundo sem se preocupar com a sua própria protecção.
Vivemos durante décadas convencidos de que a redoma era eterna, a combinação rara de geografia favorável, ausência de ameaças imediatas e pertença a alianças que outros tratavam por nós. Essa redoma começou a rachar, na Ucrânia, no Médio Oriente, no Mar Vermelho, no Báltico. Talvez valha a pena, antes que rache de vez, aprender com quem nunca teve o luxo de a habitar.
Numa coluna anterior neste jornal abordei a economia israelita. Aqui uso Israel não como modelo normativo, mas como espelho funcional das escolhas que um país pequeno pode ou não fazer.
Portugal tem noventa e dois mil quilómetros quadrados. Israel tem vinte e dois mil. Portugal tem cerca de dez milhões de habitantes; Israel, um pouco menos. São dois países de dimensão comparável. Mas a comparação, para ser útil, tem de ir mais fundo do que a geografia e mais longe do que o caso extremo do Médio Oriente. Várias democracias europeias de dimensão semelhante mostram, em tempo de paz, que a prioridade dada à segurança e às informações não é um produto da guerra: é uma escolha política continuada.
O PIB per capita israelita ronda os cinquenta e quatro mil dólares. O português situa-se nos vinte e nove mil. A dívida pública israelita, em plena guerra de alta intensidade, está em cerca de sessenta e sete por cento do PIB. A portuguesa ultrapassa os noventa por cento, sem guerra, com orçamento de defesa residual. O desemprego israelita está abaixo dos três por cento, em mínimos históricos. As projecções de crescimento para 2026 apontam para cinco vírgula cinco por cento do PIB. O mercado de capitais mantém-se resiliente e continua a atrair investimento externo. As estimativas podem variar consoante a fonte, mas a ordem de grandeza é estável, e é isso que importa para o argumento.
Estes números não caíram do céu. Israel não tem petróleo, não tem recursos naturais assinaláveis, não tem profundidade territorial nem sequer paz. Tem guerra, tem ameaças existenciais permanentes e tem divisões internas profundas. O que tem também é a capacidade de transformar a insegurança em motor de inovação, de converter o investimento em defesa e informações em tecnologia de duplo uso, em empresas, em universidades que lideram áreas inteiras do conhecimento global. A economia israelita é vibrante não apesar da pressão. É em parte por causa do que essa pressão obrigou o país a construir. A ordem de grandeza é esta: uma economia cerca de duas vezes maior consegue gastar dez vezes mais em defesa e cinquenta vezes mais em informações. Não falta capacidade. Falta decisão.
Em 2025, Israel gastou cerca de trinta e quatro mil milhões de dólares em defesa. Portugal aprovou um orçamento de defesa de três mil e trezentos milhões de euros. A proporção é de dez para um. As forças armadas israelitas contam com mais de cento e setenta mil efectivos permanentes; as portuguesas rondam os trinta mil.
Aqui é necessário fazer uma distinção honesta. A comparação militar directa tem limites que seria desonesto ignorar. Israel está inserido num conflito de alta intensidade, com ameaças existenciais imediatas, sem profundidade estratégica e sem aliados terrestres contíguos. Portugal não está nessa situação, não está em vias de estar e não deveria calibrar o seu esforço de defesa convencional por esse referencial. As circunstâncias são diferentes. As ameaças são diferentes. E uma potência média europeia, com alianças sólidas, com o enquadramento da NATO e com uma posição geográfica que é activo e não vulnerabilidade, tem um perfil de segurança que não se mede pelos mesmos critérios de Telavive. O que está em causa aqui não é replicar a sua máquina militar, é perceber o que significa levar a sério as informações num ambiente de risco.
Mas há uma dimensão desta equação que não admite essa relativização. E são os serviços de informações.
Considerando apenas o Mossad e o Shin Bet, os dois serviços civis, excluindo a inteligência militar, Israel alocou cerca de quatro mil milhões de dólares. Portugal mantém o SIED e o SIS com um total aproximado de menos de quinhentas pessoas e um orçamento que não ultrapassa os setenta milhões de euros. A diferença é de cinquenta para um. Não é uma metáfora. É o diagnóstico de um país que decidiu, ao longo de décadas, que conhecer as ameaças que o rodeiam era um luxo que não podia pagar. Quando falo em serviços de informações robustos, não falo de estruturas omnipotentes: falo de três coisas simples, capacidade de recolha, capacidade de análise, capacidade de influenciar discretamente a decisão política com base em pesquisa e análise diferenciadas.
A questão não é Israel. A questão é Portugal. O problema não está em Telavive. Está em Lisboa, na forma como, legislatura após legislatura, se tratou as informações ou inteligência como nota de rodapé do Estado. Serviços de informações sérios num Estado de direito não significam mais opacidade: significam mais profissionalização e melhor enquadramento legal sob escrutínio democrático claro, parlamentar, judicial e financeiro.
Portugal tem uma das maiores zonas económicas exclusivas do mundo, uma diáspora de vários milhões de pessoas espalhada por todos os continentes e uma história que o liga, com laços activos, a África, ao Brasil, à América do Norte e ao Médio Oriente. Tem uma posição atlântica que lhe confere relevância estratégica desproporcionada à sua dimensão. É membro fundador da NATO, tem assento em instituições multilaterais onde a sua voz conta e projecta presença militar em missões internacionais que o expõem a dinâmicas complexas e a actores hostis. Isto não é um detalhe estatístico: é um perfil de risco.
Este é exactamente o perfil de um país que precisa de serviços de informações robustos. Não para fazer guerra. Para antecipar ameaças. Para proteger os seus cidadãos no estrangeiro. Para detectar redes de influência que operam no seu território. Para defender as suas infra-estruturas críticas de ataques que não chegam com uniforme, mas por cabos de dados, cadeias de abastecimento, fluxos financeiros e campanhas de desinformação. Para negociar com informações, em vez de negociar com ignorância.
O processo de desinvestimento foi longo e bipartidário. Não foi um acidente, foi uma política. Uma política cómoda, porque os seus custos raramente são visíveis em tempo real. Os serviços de informações falham em silêncio. As lacunas de conhecimento não aparecem nos noticiários enquanto não se transformam em crises. E, quando se transformam, já é tarde para debater o orçamento.
Há ainda uma dimensão que o debate sobre defesa e segurança raramente contempla. A defesa e a segurança são também elementos de coesão nacional. Em Israel, essa coesão é forjada sob pressão existencial, na trincheira, no serviço militar obrigatório, na consciência permanente da ameaça. É uma coesão eficaz. Tem um preço que nenhuma democracia deveria querer pagar.
Portugal, como os demais países europeus, precisa de uma coesão de outra natureza. Não a coesão da guerra, não a solidariedade forçada pelo medo, mas a coesão que nasce da partilha consciente de um destino comum, da convicção de que a segurança colectiva é uma responsabilidade colectiva e de que um país só é tão forte quanto a seriedade com que trata a sua própria protecção. Essa coesão não se decreta. Constrói-se com políticas, com investimento, com debate honesto e com lideranças que não adiem o que é urgente porque é também desconfortável. Constrói-se, também, com instrumentos concretos: reservas qualificadas, incentivos ao serviço, literacia de segurança nas escolas e universidades, um discurso político que trate a protecção do país como função básica do Estado, não como capricho securitário.
A lição israelita não é a da militarização. É a da seriedade. Um país pequeno não compensa a assimetria de meios pela força bruta, compensa-a pelas informações. E essas informações, quando levadas a sério, não ficam nos quartéis. Tornam-se infra-estrutura nacional. Tornam-se inovação. Tornam-se economia. Mais do que criar novas estruturas, Portugal precisa de tomar duas decisões simples: dar escala e mandato sério aos serviços que já tem. O resto é retórica.
Menos de quinhentas pessoas com menos de setenta milhões de euros não são, hoje, o sistema de informações que este país diz precisar de ter. São uma declaração de intenções mínimas. E essa declaração diz, com clareza, que este país ainda não decidiu a sério proteger-se.
O espelho não mente. Só incomoda.



