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Democracia e Inteligência Artificial: Perceções e Desafios na Europa e em Portugal

Um novo estudo intitulado “Democracia na Era da IA”, realizado pela Kantar para o Vodafone Institute for Society and Communications, que envolveu mais de 12 mil participantes, em 12 países europeus – incluindo Portugal — traça um retrato dos desafios, expetativas e preocupações dos cidadãos face ao impacto da transformação digital nas sociedades democráticas.
9 Dezembro 2025, 19h36

A inteligência artificial (IA) está a transformar profundamente a economia e a sociedade, oferecendo oportunidades para aumentar a produtividade, inovar e reforçar a resiliência democrática. No entanto, também gera riscos, sobretudo ao nível da desinformação, da segurança online e da influência sobre como os cidadãos acedem à informação e participam na vida democrática.

A Europa procura integrar valores democráticos na tecnologia com regulamentos pioneiros, caso do Digital Services Act (DSA) e o AI Act, que promovem transparência, equidade e responsabilização. Contudo, a aplicação das regras é desigual entre os Estados-Membros, o que fragiliza a confiança pública e permite que ameaças como a desinformação persistam.

Um novo estudo intitulado “Democracia na Era da IA”, realizado pela Kantar para o Vodafone Institute for Society and Communications, que envolveu mais de 12 mil participantes, em 12 países europeus – incluindo Portugal — traça um retrato dos desafios, expetativas e preocupações dos cidadãos face ao impacto da transformação digital nas sociedades democráticas. Apesar dos resultados positivos, a satisfação dos portugueses com o funcionamento da democracia permanece modesta, alinhada com a média europeia de apenas 22% de cidadãos “muito” ou “extremamente satisfeitos”.

O estudo citado acima mostra, contudo que o tema da democracia é muito valorizado. Os portugueses consideram que viver em democracia é “muito” ou “extremamente importante”. 84% dos inquiridos neste estudo fizeram esta avaliação, resultando numa das percentagens mais elevadas da Europa e que contrasta com a média europeia de 75%. Além disso, Portugal também se destaca no apoio à liberdade de expressão na internet, sendo o país que mais a defende (64%), um valor também acima da média europeia (52%). Os portugueses (73%) veem o diálogo digital como uma oportunidade para fortalecer a democracia, reforçando a importância de espaços abertos e regulados para o debate político.

 

Media tradicionais apontados como “arma” para combater a desinformação

Portugal e Espanha são os países que mais reconhecem a relevância dos media tradicionais no combate à manipulação de informação. 63% dos portugueses salientam a importância do jornalismo editorial devido à ameaça da desinformação, um número significativamente acima da média europeia (53%), sendo que a televisão e a rádio (69%) continuam a ser os principais meios para verificar a veracidade de conteúdos políticos. Este aumento é especialmente forte entre os 25-34 anos (57%), mas também relevante noutras faixas etárias. Esta confiança nos media clássicos contrasta com a crescente preocupação com os conteúdos políticos gerados por IA, que 39% dos europeus já identificam como uma ameaça à democracia.

Quanto às fake news, 28% dos inquiridos portugueses afirmam ter encontrado notícias falsas com frequência nos últimos meses, ligeiramente acima da média europeia (27%). Embora a sua disseminação seja atribuída a diferentes grupos, os motivos presumidos para tal são semelhantes em todos os países: cerca de metade das pessoas acredita que estas visam enfraquecer adversários políticos e influenciar o resultado das eleições. No entanto, os inquiridos admitem que reconhecer os conteúdos gerados por IA está cada vez mais difícil. Só 24% acreditam ser capazes de identificar imagens criadas por IA num contexto político (31% para imagens gerais). Entre os maiores de 65 anos, apenas cerca de 10% se consideram capazes.

A realidade é que segundo o estudo, as ferramentas de inteligência artificial ainda não são um canal de massas para a informação política. Apenas 11% utilizam regularmente ferramentas como o ChatGPT para se informar politicamente. No entanto, 49% dos inquiridos já usaram uma ferramenta de IA pelo menos uma vez para temas políticos. A utilização varia entre países: Itália lidera (60%), enquanto a Finlândia está no fundo da tabela (39%). Alemanha situa-se perto da média europeia (48%). O ChatGPT é a ferramenta mais usada (35%), seguida por Google Gemini, Meta AI, Copilot, DeepSeek, entre outras.

Os portugueses mantêm uma visão positiva sobre a tecnologia: 38% acreditam que os benefícios da IA superam os riscos, comparado com 30% na média europeia. Ainda assim, 39% dos europeus veem a IA como uma ameaça à democracia, enquanto 32% acreditam que oferece mais oportunidades do que perigos. A ambivalência é clara, 29% permanecem indecisos.

O estudo revela ainda que a maioria dos cidadãos europeus apoia medidas regulatórias como o Digital Services Act (DSA) e o AI Act, com destaque para Portugal, onde cerca de 70% dos cidadãos apoiam a identificação de conteúdos gerados por IA e a atuação das autoridades nacionais para combater discurso de ódio e notícias falsas no mundo digital.

 

O estudo completo está disponível aqui.


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