A Europa vive hoje uma curiosa dissonância cognitiva. Apresenta-se como guardiã dos valores democráticos universais, mas enfrenta, internamente, uma crise profunda de eficácia política, fragmentação institucional e incapacidade crescente de planejamento estratégico. Ainda assim, insiste em olhar para a China não com curiosidade analítica, mas com superioridade moral — como se a virtude do processo fosse suficiente para compensar a pobreza dos resultados.
O debate europeu sobre democracia tornou-se excessivamente normativo e perigosamente autorreferente. Defende-se a democracia como um fim em si mesmo, raramente como um instrumento de governança eficaz. Quando políticas falham, economias estagnam ou sociedades se polarizam, a resposta não é autocrítica institucional, mas retórica: mais valores, mais discursos, menos entrega. A culpa, quase sempre, recai sobre o eleitor ou sobre forças “externas”.
O problema, contudo, não está no povo, mas nos intermediários. Os partidos políticos europeus — outrora centros de formulação estratégica e formação de lideranças — transformaram-se em estruturas burocráticas frágeis, frequentemente capturadas por lógicas de curto prazo e personalismos. A política passou a responder a ciclos eleitorais, não a ciclos históricos. O planeamento tornou-se suspeito; a continuidade, quase um tabu.
É neste contexto que a China surge como um paradoxo desconfortável. Não por ser um modelo liberal, mas por demonstrar algo que a Europa parece ter desaprendido: governar exige estratégia, metas e execução. A liderança chinesa opera dentro de regras rígidas, métricas de desempenho e uma lógica de responsabilização interna que contrasta com a indulgência política observada em muitas democracias europeias.
A reação europeia a esse contraste tem sido previsível: moralizar o debate. Em vez de perguntar por que razão a China planeia a longo prazo enquanto a Europa hesita, prefere-se enquadrar a discussão em termos de valores abstratos, como se isso anulasse a evidência empírica. A crítica à China tornou-se, assim, um exercício de auto conforto moral — útil para preservar narrativas, pouco eficaz para enfrentar desafios reais.
A lição chinesa não é ideológica, nem exportável como modelo institucional. É funcional. Democracia sem capacidade de entrega transforma-se em ritual vazio. Valores sem estratégia não produzem soberania, nem prosperidade. E a Europa, se quiser continuar relevante num mundo cada vez mais competitivo e multipolar, terá de substituir a cruzada moral pela reflexão estratégica. Afinal, a história raramente é severa com quem governa de forma diferente. Ela é implacável com quem insiste em não governar.
Feliz Natal e um 2026 repleto de grandes alegrias, sucessos, prosperidade e saúde!



