Democracias perfeitas

Os portugueses devem saber mentir se querem ser considerados patriotas e não repugnantes traidores. Um país de dirigentes pequenos define-se assim.

1. Há já uns dias, a chamada elite nacional acordou sobressaltada: Portugal tinha descido de categoria no Índice de Democracia elaborado anualmente pela revista “The Economist”. A reboque das medidas impostas pela tentativa de controlo da pandemia, tinha deixado de ser um “país totalmente democrático” para regressar à categoria de “democracia com falhas”. Na nossa companhia descera também a França, pelas mesmas razões. E passavam agora a sete os países da União Europeia assim classificados. Os outros são Bélgica, Chipre, Grécia, Itália e Malta.

2. As razões para a baixa portuguesa são explicadas pelas medidas decorrentes do estado de emergência em vigor e que levam à óbvia limitação da liberdade individual, seja pela obrigatoriedade do confinamento seja pela proibição de deslocações entre distritos e para o estrangeiro fora das exceções consideradas na lei. Além destas consequências da pandemia, outras questões que contribuíram para a quebra da pontuação média de Portugal no Índice foram a redução dos debates parlamentares (proposta por Rui Rio, recorde-se) e a falta de transparência no processo de nomeação do presidente do Tribunal de Contas.

3. O caso deu origem a alguns lamentos. Os governantes nacionais gostam de considerar a democracia portuguesa como perfeita, mesmo depois do roubo nos bancos debaixo de uma tutela incapaz ou subjugada; de um emigrante ser morto por agentes do SEF; do roubo de armas a militares depois devolvidas pelos meliantes em amenas conversas com responsáveis; do saque em grandes empresas; da ministra da Justiça assinar documentos para a União com mentiras, perdão, erros; da ex-PGR ser atirada fora depois de um mandato longo e extremamente valorizado pela maioria dos portugueses; e de outros acontecimentos que mesmo só revisitando o último ano impediriam este texto de caber dentro dos limites estabelecidos.

4. Nas ruas, agora desertas, não terá havido qualquer inquietação pelo exercício da destacada revista. Uma grande parte dos nossos compatriotas está absorvida na simples subsistência, infelizmente. Nos canais habituais é verdade que se sussurrou um poucochinho, mas o respeito pelo poder e influência da “The Economist” também não permitiu grandes revoltas perante os critérios aplicados que, aliás, afetaram 116 países num universo de 167. Mesmo a nossa esquerda, aquela que fecha os olhos às arbitrariedades de Putin, se calou, como é hábito desde que aderiu ao sistema no poder. A geringonça está triste mas ainda existe.

5. Aliás, é interessante comparar a desistência da esquerda portuguesa com o exemplo de Pablo Iglésias, vice do governo do PSOE em Espanha. Perguntado sobre o mesmíssimo estudo (no qual Espanha aparece, sem mácula, como “democracia plena”), o líder do Unidas Podemos insistiu em críticas anteriores que muito irritam os colegas do governo: “Isto não tem a ver com rankings. O debate tem de ser como melhorar a Democracia. Defendê-la não é dizer que é perfeita. Isso é mentir”.

Em contraponto, os portugueses devem saber mentir se querem ser considerados patriotas e não repugnantes traidores. Um país de dirigentes pequenos define-se assim.

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