A sucessão de tempestades funcionou como um teste de esforço ao sistema económico e institucional, revelando fragilidades estruturais que não são novas, mas cada vez mais evidentes. As falhas nas infraestruturas, nas comunicações e na coordenação entre entidades não resultaram apenas da intensidade dos fenómenos meteorológicos, mas de decisões acumuladas ao longo do tempo. Durante décadas, privilegiou-se a resposta à emergência em detrimento do investimento em prevenção e do planeamento de longo prazo. O resultado é uma economia que reage quando o impacto já é inevitável, mas continua a antecipar pouco.
Os custos destes eventos vão muito além do visível. À destruição material somam-se perdas de rendimento, interrupções na atividade económica, pressão acrescida sobre serviços públicos fragilizados e um aumento persistente da incerteza. Quando o risco climático não é claramente sinalizado pelas políticas públicas, tende a ser subavaliado pelos agentes económicos, aumentando a vulnerabilidade agregada e os custos futuros.
É precisamente esta repetição de impactos que obriga a reconhecer uma mudança de fundo. Estes episódios deixaram de ser excecionais e os fenómenos extremos tornaram-se parte da nossa experiência regular. Não estamos perante cenários distantes dignos de filmes apocalípticos. Estamos a viver, no quotidiano, uma nova normalidade climática. A diferença é que, fora do cinema, não há um twist na história nem um herói que resolva tudo no último minuto. Esta realidade implica responsabilidade. Do Estado às autarquias, das empresas às famílias, pensar antes, planear e investir em prevenção deixou de ser uma opção técnica para se tornar uma exigência económica e social. Agir apenas depois do impacto é escolher pagar mais no futuro.
É neste contexto que a fragilidade da resposta política se torna evidente. A Lei de Bases do Clima reconhece a emergência e define metas relevantes, mas permanece essencialmente declarativa. A ausência de instrumentos operacionais vinculativos e de calendários claros cria um vazio de governação que compromete a previsibilidade regulatória. Sem essa previsibilidade, o investimento em adaptação, resiliência e transição energética continuará a ser adiado. Depois de tudo limpo e arrumado, a questão central não é apenas reconstruir. É decidir se continuamos a aceitar um modelo económico estruturalmente vulnerável ou se integramos, finalmente, o risco climático no centro da política económica. Investir em prevenção, adaptação e resiliência não é um luxo.



