Parar no tempo pode ser o desejo de muitos. Seguramente, alguns quereriam ter parado o relógio no momento de anunciar o próximo Presidente dos Estados Unidos. Outros adorariam que o relógio do marcador do Benfica parasse realmente aos noventa minutos. Outros, ainda, rejubilariam se se congelasse o momento que antecedeu a vitória constitucional do atual Governo.

Estes entusiastas de petrificação temporal desenvolveram um desafio que tem mumificado as, até agora dinâmicas, redes sociais. Os habituais vídeos enérgicos do YouTube e afins, deram lugar a imagens estáticas e imobilizadas em que o esforço dos intervenientes não está relacionado com a ação, mas com a total ausência de movimentos, muitas vezes em percetível esforço muscular. Apesar de não conseguirmos perceber a utilidade do “Mannequin Challenge” – tanto quanto sabemos, este desafio não está sequer associado a qualquer causa social para a qual se pretenda chamar a atenção ou fazer reverter receitas – reconhecemos que este pode vir a ser muito importante para a afirmação de Portugal.

Com efeito, atletas portugueses não federados há muito que treinam afincadamente para a consagração desta modalidade da moda. Há muitos portugueses com créditos firmados na cadeira de “nada fazer” e da estanquidade. A génese deste novo desporto, pode mesmo ter estado no caso “Casa Pia”, em que durante anos os arguidos foram “entorpecidos” e estagnados perante a sociedade como pedófilos repugnantes sem que houvesse uma qualquer decisão final.

É, aliás, na justiça onde se encontram os melhores atletas “manequins”. Atualmente, o juiz Carlos Alexandre é um dos que granjeia melhores resultados. O modo exímio como conseguiu “imobilizar” a acusação de José Sócrates tem batido todos os recordes, levando mesmo os espetadores a bocejar com real vontade em face do ritmo imprimido pela “(in)operação Marquês”.

Também o caso BES nos embalou até à quase total estagnação. No governo, as medalhas de ouro e prata têm sido todos os anos atribuídas ao congelamento dos concursos de acesso à função pública e das pensões, respetivamente. No campo da segurança, a PSP lançou um vídeo com alguns agentes a simularem uma operação stop em modo “freeze”, numa tentativa de rivalizar com a “atuação” da GNR na caça a Pedro Dias. Este movimento, que tem a particularidade de não ter movimento, já foi replicado pela Seleção Nacional de Futebol, por equipas de basquetebol, praticantes de golfe, o Exército dos EUA, Michelle Obama, Adele, entre tantos outros.

Em Portugal, porém, há um exímio praticante que se tem destacado na inação: Pedro Passos Coelho. É certo que a performance do indivíduo que congela é tanto mais exponenciada quanto o movimento que se observa à sua volta é maior. Perante os surpreendentes dados do INE que revelaram o PIB português a crescer 1,6%, Passos Coelho estancou. O “diabo” que o ex-primeiro-ministro havia profetizado não chegou a aparecer e, assim, saíram na fotografia paralisados, não só Pedro, mas toda a oposição.

Leva, assim, a medalha para melhor “Mannequin Challenge Performer”, Pedro Passos Coelho – não só pela notável forma como se estacionou perante as novidades do INE e de Bruxelas, mas por ter conseguido empurrar para a exibição do desafio todos os oponentes do Governo. Apanhados de surpresa com os números que demonstram que Portugal é o país da Zona Euro que mais cresce no terceiro trimestre de 2016, os social-democratas ficaram mudos e quedos.

Não somos de aderir a modas, mas também nós não conseguimos deixar de ficar bloqueados – em modo de “selfie-mannequin challenge” – perante a condenação de Ana Nicolau a seis meses de prisão, que pode ser substituída pelo pagamento de uma multa de 1.440 euros. O espanto perante a condenação da ativista dos “Precários Inflexíveis” pelo crime de perturbação de funcionamento de órgão constitucional, por esta ter interrompido na Assembleia da República Pedro Passos Coelho para lhe pedir que se demitisse devido às dívidas por este acumuladas entre 1999 e 2004 na Segurança Social, imobilizou-nos instantaneamente parte do corpo. A que ainda mexia ficou paralisada no momento em que o juiz enalteceu Ana Nicolau dizendo que esta deveria ser elogiada por ser uma cidadã empenhada, ao mesmo tempo que afirmava haver “falta dessas pessoas” e que apenas não poderia permitir que ela fosse assim tão cívica no interior da Casa do Povo… Congelamos!