Desafios da economia da partilha

Quando os consumidores têm como alternativa o “pay-per-use”, recorrendo à disponibilidade dos bens e serviços, sem terem como solução a sua posse, o paradigma dos serviços financeiros muda. E muito.

Domingo, poucos minutos passavam do meio-dia. Ouço uma conversa entre dois “generation Z”. Ligados em linha, desde a hora em que acordaram. Um, a partilhar fotos com Luna, a sua amiga italiana, sobre a sua mais recente visita a Londres. Outro, a combinar com Denis e Roger, dois amigos franceses, o seu próximo encontro em Lisboa.

E, nos próximos dias, meses, anos, as suas vidas serão marcadas por contactos diretos, de partilhas de conhecimento e de experiência que decorrem da sua mobilidade global proporcionada pela tecnologia e por programas de estímulo de partilha como o Erasmus. Estará o mindset destes jovens adultos focados nas prioridades que os “baby boomers” ou os “generation X” tinham na mesma idade?

Há um conjunto de fatores que convergem para uma alteração de paradigma na saciação de necessidades dos consumidores. Em primeiro lugar, as significativas alterações demográficas. Há menos jovens. E, portanto, cada jovem é mais “valioso” no contexto da sociedade. Indiretamente, este tem essa perceção, pelo que se faz valer ainda mais.

Em segundo lugar, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação: estar em contacto com o vizinho do lado numa comunidade local é hoje um conceito demasiado restrito. A comunidade é muito mais vasta do que o local ou o país. E, em terceiro lugar, a capacidade instalada de infraestruturas, de bens e serviços. O que me atrevo a apelidar de “economia da abundância”. As coisas, os serviços existem, estão disponíveis e prontos a utilizar. A evolução tecnológica permite uma maior disponibilidade de soluções que passam o sentido da propriedade para segundo plano. Para quê comprar, possuir, se posso pagar para utilizar apenas quando preciso?

É a economia dos consumidores descomprometidos, dos que não se prendem pela posse e que desvalorizam a propriedade porque cresceram num contexto de disponibilidade geral, mas ao mesmo tempo, de incerteza quanto à capacidade de gerarem rendimento e de se fixarem num local. Portanto, pagam para utilizar com base nas suas necessidades, mas sem compromisso, numa atitude ditada pela gestão do agora.

O desenvolvimento dos serviços financeiros foi marcado, ao longo de séculos, pela necessidade de fazer encontrar as partes que poupam com as partes que necessitam de financiamento, remunerando os aforradores e fazendo-se ressarcir do serviço de intermediação através de uma taxa de juro aplicada aos mutuários de financiamento.

Para os consumidores, tornou-se na única forma de poderem aceder à posse de uma habitação, de um automóvel, ou de tantas outras necessidades do seu ciclo de vida. O sentido do financiamento com o objetivo da posse e a propriedade de um bem de valor como garantia dessa disponibilidade de crédito dominam os serviços financeiros até aos nossos dias. Aliás, não é difícil imaginar porque razão uma deficiente legislação sobre arrendamento provocou um boom no crédito à construção e à habitação no final do século XX.

Agora, quando os consumidores têm como alternativa o “pay-per-use”, recorrendo à disponibilidade dos bens e serviços, sem terem como solução a sua posse, o paradigma dos serviços financeiros muda. E muito. Estará cada vez menos focado no valor da propriedade, transformando significativamente a sua cadeia de valor. Estará mais próximo dos providers de bens e serviços, das soluções que se perfilam para satisfazer as necessidades dos consumidores numa lógica de utilização, mais do que numa lógica de posse.

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