As fortes chuvadas de janeiro e as descargas em quase todas as barragens do país deveriam provocar maior reflexão sobre a importância estratégica de um maior armazenamento de água num país tantas vezes em seca. Neste inverno há água a mais ou não temos barragens suficientes para criar reservas para verões secos? Mais do que uma tensão entre agricultores e ambientalistas, a questão hídrica e energética é também um tema de soberania e segurança nacional, mas só nos lembramos disso quando há apagões ou secas.
Esta semana, o jornal “Público” noticiava que “até a barragem da Bravura, afetada por seca extrema, tem agora água em excesso”. E acrescentava: “Quem poderia prever que a barragem da Bravura, em Lagos, que chegou a estar com níveis críticos de armazenamento entre 2023 e 2024, com apenas 10%, situando-se frequentemente entre as barragens com menor percentagem de água a nível nacional, esteja neste momento a proceder a descargas por ter atingido o seu volume máximo de armazenamento.”
As seis principais barragens do Algarve estão cheias e “cinco já fizeram descargas preventivas para não ultrapassarem o nível que possa pôr em causa a segurança das barragens”, explicou José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente. Segundo esta notícia, “há 20 anos que o Algarve não tinha as barragens tão cheias, o que garante água para todos os fins durante os próximos dois anos. Cerca de 30 milhões de metros cúbicos foram acumulados em 11 dias de precipitação forte, que equivale a cerca de 40% do consumo urbano anual da região. Esta recuperação significativa contrasta com a situação registada há apenas um ano, quando as reservas garantiam água apenas por alguns meses.”
Se olharmos para o panorama nacional e tendo por base a mesma fonte, “sucessivas depressões atmosféricas (o Instituto Português do Mar e da Atmosfera / IPMA designou a Joseph como a décima grande tempestade da época 2025-2026, e agora chegou a Kristin) elevaram as cotas de 61 das 80 albufeiras públicas nacionais, monitorizadas pelo Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos, para valores entre os 80 e os 100%.”
Assistir às imagens das descargas das barragens de Alqueva ou Castelo de Bode pode criar a ilusão da fartura de água, mas nunca é demais recordar que a água e um bem cada vez mais escasso e que as perdas da água (captada nas albufeiras e transportada até às torneiras das nossas casas) chegam a ser superiores a 50% em vários concelhos do país, segundo dados públicos da ERSAR, entidade reguladora da água.
Em suma, nem a água da chuva ou das albufeiras estamos a gerir bem, se pensarmos além do muito curto prazo. Portugal não terá petróleo ou gás em quantidade suficiente para exploração comercial – ou não há vontade política para apostar nessa pesquisa. Temos oceano, mas pouco aproveitamos o seu potencial. Temos apostado no sol e vento, nos últimos anos, mas continuamos a não saber aproveitar devidamente os recursos hídricos para garantir a segurança e aprovisionamento energéticos no verão. Afinal, somos ricos e os portugueses não sabem?



