Descer ao ‘Básico’: nada cai do céu

Quando oiço que se tende a criar facilitismo no Ensino Básico, retirando componentes analíticas e sociais, o que me parece é que se está a caminhar num sentido de criar um maior fosso social e económico.

Quantos de nós com filhos não referimos já a frase “pensas que cai do céu”? Tudo porque a evolução humana e as diversas transformações industriais, e agora digitais, têm permitido agilizar processos e aceder de uma forma muito mais eficiente a bens e serviços nunca antes alcançados.

Hoje, à distância de um clique, chegam-nos batatas e alfaces a casa, ao invés de as plantar e apanhar no quintal à beira de casa. É comum ouvir a conversa de que as crianças pensam que os ovos nascem no supermercado. Mas será isso mau?

Como alguém conhecido em Portugal diria: sim e não.

Começo pelo não, não é mau termos a vida mais facilitada no nosso dia a dia. Ainda bem que há evolução e somos mais eficientes. A evolução traz-nos capacidade de fazer mais tarefas em menos tempo, empregando menos esforço na produção de um bem ou entrega de um serviço.

E fecho com o sim, é mau termos a vida mais facilitada no nosso dia a dia. Isto porque para qualquer pessoa dar valor a um bem ou serviço, desde o computador com que estou a escrever este artigo ou o pão que tenho à minha frente no pequeno-almoço, deve compreender o que envolve para o ter disponível. Quantas pessoas ou quais os materiais estiveram envolvidos na produção ou entrega de serviço? Não necessitamos de saber detalhes, mas entender o custo económico e social do que está na génese do processo produtivo é essencial para lhe podermos dar o valor devido.

Quando oiço que se tende a criar facilitismo no Ensino Básico, retirando componentes analíticas e sociais, eliminando o uso de contas e cálculos pela direta substituição da máquina de calcular ou eliminando conceitos históricos e de sustentabilidade humana, o que me parece é que se está a caminhar num sentido de criar um maior fosso social e económico.

O facilitismo traz-nos impreparação para enfrentarmos dificuldades individuais ou coletivas, pelas quais todos passamos ao longo da nossa vida. Dar não é ensinar a crescer.

Quem é ou foi atleta de um qualquer desporto, entende que, para se ultrapassar um desafio, importa treinar. E o treino, com os seus altos e baixos, é essencial para vencer, para participar, para compreender as nossas derrotas, dando valor a quem venceu.

Criar uma cultura no Ensino Básico de realismo das dificuldades e das facilidades, mas acima de tudo do como fazer, é essencial para criarmos futuros profissionais motivados e resilientes.

Sendo um privilegiado do mundo digital, com acesso e facilidade de adquirir com um clique um produto ou serviço, estou certo que a exigência da minha professora Celeste, na escola primária, com as suas lengalengas matemáticas, histórias de reis e enquadramento da roda alimentar, ou os meses de verão na quinta da minha avó Ester, em contacto direto com a natureza pura, me permitem hoje apreciar melhor a vida, procurar otimizar os processos na empresa, partilhar conhecimento com alunos ou, muito simplesmente, agradecer um café num restaurante.

Nada cai do céu! Descer ao básico, compreendendo o que é feito e como é feito, é essencial para garantir uma cultura de ambição, humildade e foco em qualquer país.

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