Descobertas: património único com valor global

Milhões e milhões de pessoas conhecem Portugal por esse período da história da humanidade e milhões fazem peregrinação aos locais de onde partiram esses guerreiros-comerciantes-evangelizadores de conveniência.

O debate sobre o projeto anunciado pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa de criação de um museu dedicado às Descobertas tem decorrido sobre a valoração para a definição da identidade portuguesa de factos ou de supostos factos que sucederam e decorreram da inovadora política comercial dos reis de Portugal no século XV. Mas, tão importante quanto à reflexão que os portugueses possam fazer sobre si mesmos a propósito das Descobertas, é o valor imediato que estas assumem na percepção global da imagem de Portugal e dos portugueses pelos estrangeiros. As Descobertas são uma componente insubstituível da identidade exterior de Portugal.

Um artigo recente no The Guardian revelou que o assunto tem impacto no estrangeiro. Não é para admirar: o facto histórico porque Portugal é mais conhecido no mundo inteiro está a ser posto em causa por portugueses a propósito de um futuro museu dedicado à Descobertas poque consideram que aquele período histórico deveria ser celebrado por um monumento às vítimas da escravatura. Não vejo como uma coisa pode ou deve impedir a outra.

Portugal sem as “Discoveries” é uma praia. O contributo tangível e intangível das Descobertas para o brand Portugal é gigantesco, sem par, inimitável. Está feito. Enfrenta a concorrência de Espanha e de um suposto italiano que viveu (nasceu?) em Portugal. Aqui nasceram e viveram quatro dos maiores nomes da história da expansão europeia e as suas casas são conhecidas e podem ser visitadas: Gama em Sines, Magalhães em Sabrosa, Colombo em Porto Santo e Cabral em Belmonte, em cuja casa reside um Museu das Descobertas. Há outros museus e sítios que abordam o tema Descobertas, como o Museu de Marinha em Lisboa, a Alfândega Régia – Museu de Construção Naval em Vila do Conde e o Núcleo Museológico Rota da Escravatura em Lagos, a principal praça do comércio de pessoas.

Milhões e milhões de pessoas conhecem Portugal por esse período da história da humanidade e milhões fazem peregrinação aos locais de onde partiram esses guerreiros-comerciantes-evangelizadores de conveniência.

O Infante D. Henrique não terá sido a figura taciturna supostamente representado pelo bigodaças no tríptico de Nuno Gonçalves ou aquele que perscruta o futuro no Padrão dos Descobrimentos. Foi um guerreiro, um malandro, um ganancioso que abandonou o seu irmão Fernando numa prisão marroquina depois de prometer que o iria resgatar. Beneficiou muito do comércio de escravos. Mas ninguém pode mudar quem foram esses homens, o que terão feito, nem as consequências do que fizeram ou promoveram.

Os descobridores eram homens duríssimos, guerreiros ferozes e sem piedade. Magalhães foi um homem brutal, como de resto Gama e Albuquerque, que praticaram crimes que hoje seriam provavelmente julgados no Tribunal Penal Internacional. Todavia, Magalhães é um herói nos EUA, o epítome do aventureiro desbravador, e é um traidor em Portugal e em Espanha. O seu nome está numa cratera na Lua, numa sonda espacial, num fundo de investimento, num GPS, etc. Enquanto em Portugal Magalhães é ignorado, os espanhóis têm um herói para celebrar. Foi há dias evocado mais um aniversário da chegada da nau Victoria (de que existem várias réplicas) a San Lucar de Barrameda, comandada pelo basco Sebastian del Cano, o vice de Magalhães que sobreviveu e completou a viagem de circum navegação iniciada pelo almirante português. Compreende-se que os espanhóis ignorem Magalhaes e com razão. De facto, ele apunhalou o almirante espanhol numa baía na costa argentina. Para além de poder ser, afinal, um agente português.

Magalhães é um enorme exemplo do potencial inesgotável das Descobertas para a promoção de Portugal. Magalhães foi na Índia e em Marrocos um guerreiro destemido e navegador intercontinental de um rigor astronómico impressionante apenas com os toscos instrumentos da época. O seu nome foi dado ao estreito entre o Atlântico e oceano a que ele mesmo deu o nome Pacífico, e também à Patagónia e às ilhas dos Ladrões (atual Guam, EUA). Descartá-lo como lesa pátria porque há mais de 500 anos roubou os preciosos mapas, segredo de Estado, que utilizou para também ele tentar ficar rico com o comércio das especiarias nas Molucas onde queria estabelecer-se, é um desperdício inexplicável de uma história policial espantosa. Tendo sido condenado à morte pelo tribunal real em Sintra presidido por Vasco da Gama, Fernão de Magalhães, e depois Sebastian del Cano, foram perseguidos pelos navios portugueses por todo o mundo.

O objetivo da nobreza portuguesa quinhentista era simples: queriam ficar ricos, mas a propaganda oficial ungida e disseminada pela Igreja converteu o empreendimento comercial em cruzada evangelizadora e a propaganda real em empreitada científica: “novos mundos ao mundo”. A verdade tantas vezes inconveniente foi sendo sacrificada, deturpada e falsificada por sucessivas dinastias e repúblicas.

Há agora a oportunidade de abordar aquele período sem ignorar o que já se sabe e o muito que ainda há por descobrir, desde logo a questão da escravatura que não pode de modo algum ser escamoteada. É um facto muito importante, cujo fim é recente, e com um significado para a economia de Portugal e para a maneira de ser dos portugueses ainda não estudados.

Mas não será por essa circunstância da história que poderá ser colocado em causa o valor patrimonial das Descobertas para a definição da identidade portuguesa ensinada aos portugueses e para o brand Portugal. A investigação deve ir até ao fim. Para que haja valor acrescido é preciso garantir que haja rigor científico na investigação histórica e em interpretação desafeta a facções e ideologias. A intervenção de historiadores americanos e britânicos, que não têm uma visão apaixonada e comprometida da história de Portugal, poderá ser uma ajuda a considerar.

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