Desenvolvimento, fastio e/ou portento?

Que desenvolvimento é este em que “o número de desaparecimentos cresce prodigiosamente, sem ser compensado pelos aparecimentos” de espécies vivas?

“O desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos do que sobreviventes” (Eduardo Galeano).

A propósito do «Dia Mundial da Informação sobre o Desenvolvimento» (24/10), reflito nesta temática sustendo-me no livro chancelado pela Gradiva Publicações: «Onde cresce o Perigo surge também a Salvação», de Hubert Reeves.

Curioso é notar a relevância expressa noutros dias mundiais/internacionais (e aninhado com outros valores): do «Desporto para o Desenvolvimento e a Paz» (6/04), da «Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento» (21/05), da «Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento» (10/11) e dos «Voluntários para o Desenvolvimento Económico e Social» (5/12). Mesmo não expressa, tantas das celebrações de dias decretados pela ONU demonstram um envolvimento claro no desenvolvimento de tantas causas – agora defendidas, outrora desprotegidas – e que marcam as sociedades à esfera global.

Abordar a questão desenvolvimental é bordar a espécie humana, no seu melhor e no seu pior, na tela da humanidade. E constatar que todos os dias tresanda com as “notícias deprimentes sobre o comportamento da nossa espécie”, neste universo que se prevê ser «multiverso», ainda especulativo cientificamente. Entre a “bela história” e a “história menos bela”, Reeves conta-nos que o aparecimento da inteligência “nos conduz à actual crise ecológica”. De que serve esta capacidade esplêndida dada ao ser humano, que ao não querer estar dela munido acaba o planeta por ser punido? De que serve tanta tentativa de desenvolvimento, quando na verdade imperam – a rodos – séries de distraimento e pungimento, destroçamento e derruimento?

Tais como: “deterioração do planeta provocada pela poluição generalizada, aquecimento do clima, erosão da biodiversidade”, eliminação das espécies com “fragmentação de habitats, espécies invasivas, caça e pesca excessivas” – com as extinções (para alimentação e coleções) derivadas aos múltiplos saques feitos à fauna e à flora –, e “esgotamento de recursos naturais”, etc.. “Quando as espécies se encontram em condições impróprias para o seu desenvolvimento (…), importa que elas possam migrar para zonas onde se adaptem melhor” e se construam, amplamente, mais “túneis e viadutos para migrações animais”. Que desenvolvimento é este em que “o número de desaparecimentos cresce prodigiosamente, sem ser compensado pelos aparecimentos” de (novas/renovadas) espécies vivas?

Ora, “numa natureza em equilíbrio, as espécies são, simultaneamente, presas e consumidoras”. O problema geral do ser humano é não querer/prover o meio-termo, no contrabalançar ponderado das dualidades que o compõem: domina e é dominado, é senhor e escravo (das suas paixões), é “juiz em causa própria” e réu, etc.. Tudo se resume a ser-se bom ou mau, estar-se correto ou errado; e tudo se sumirá, não se sabendo sê-lo, devidamente, bem quando e como fazê-lo. “Nunca nenhuma espécie [como a nossa] teve uma interacção tão desastrosa com o seu meio envolvente natural”. De que serve se, no desenvolvimento humano, falta um presciente amadurecimento (vagante entre o paralisante e o periclitante)? Tudo isso é ser inteligente? Não, obviamente! Mas, sim, negligente…

Infelizmente, a intelectualidade não se desenvolve enquanto se mantém cercada e cerrada, refém ao mecanismo do materialismo (custoso de se desapegar), pelo facto de “quanto mais rara se torna uma espécie, mais caça furtiva e lucrativa ela gera”. Não esqueçamos que “somos os únicos sobreviventes” da grande ‘família hominídea’, “os únicos depositários da inteligência ao mais alto nível”. Temos de fazer mais e melhor do que aqueles que nos precederam e que, na Pré-História, inventaram o fogo e armas rudes para lutar. “Primeiro, contra a hostilidade do meio envolvente natural; depois, também, contra os seus congéneres”. Que adianta a inteligência na “potência inédita” da arma nuclear, colocando assim “a humanidade à beira do seu próprio extermínio”?!

Enfim, como bem escreveu Platão, “do estatuto precário de seres fracos e ameaçados, os seres humanos tornaram-se a espécie mais poderosa e dominadora da natureza”. Por isso ela é má como as cobras, sempre, mesmo quando ninguém se mete com elas ou connosco. É igual. Por isso temos tanto de besta – ao privarmo-nos do intelecto que nos distingue dos demais animais – como de bestial! Quando provamos e aprovamos de que, afinal, a nossa inteligência quer-se natural ao invés da artificial. Ela “é intimada a encarar as consequências do seu próprio sucesso” (Reeves).

Para o autor, “não basta tentar salvaguardar ou restabelecer as populações em perigo. A natureza está perpetuamente em evolução”. Se continuarmos, todos e cada um/a, com tiques de (pseudo) desenvolvimento – que agitam mais no fastio do esbanjamento e não cogitam no portento do sábio crescimento – agonizaremos incrédulos em maior sofrimento.

O apelo, incisivo e conclusivo, está na via da «cosmoética», um “espaço de liberdade criado pelo duo acaso e necessidade”, baseado na criatividade e na “consciência da dimensão da responsabilidade que isso representa” neste «reino dos genes» (trunfo da reprodução e da míngua de «comer e não ser comido»). Como apostar e alastrar esta «cosmoética»? Pelos canais da ‘compaixão’ ou ‘empatia’: “faculdade de não ser indiferente aos sentimentos dos outros”. Eis o “caminho para o sucesso no exame de saída da crise”!

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