Desinvestimento e desacompanhamento: como se explica a tragédia de Borba

Portugal vive hoje “um período de estagnação no desenvolvimento das infraestruturas rodoviárias”, defende docente do Instituto Superior Técnico em declarações ao Jornal Económico. “Devem ser retirados ensinamentos ao nível da predição do risco”, realça o especialista.

“Há claramente um desacompanhamento das infraestruturas rodoviárias municipais. Isso sucede tanto no interior como nos grandes centros urbanos (basta ver o viaduto de Pedrouços em Lisboa e os casos de aluimento de estradas na capital)”, realça Miguel Moreira da Silva, docente no Instituto Superior Técnico, em declarações ao Jornal Económico a propósito da tragédia de Borba.

Na sequência do aluimento de terras, um troço da Estrada Nacional (EN) 255 abateu para dentro de duas pedreiras, que ficam contíguas à via, uma ativada e outra desativada.

No entender do docente do Instituto Superior Técnico, e em contraponto ao “período de forte expansão rodoviária nas últimas três décadas”, Portugal vive hoje “um período de estagnação no desenvolvimento das infraestruturas rodoviárias, uma vez que já se atingiu uma elevada capilaridade deste tipo de vias de comunicação”.

Questionado sobre se o desafio está na infraestruturação, Miguel Moreira da Silva nega que esse seja o caminho, considerando que a solução passa pela “gestão dos ativos existentes”: “há, contudo, uma certa opacidade na governance das responsabilidades da gestão destes ativos, entre administração central, local e empresas públicas”.

Para este professor do Instituto Superior Técnico, “temos também assistido ao desinvestimento do Estado nas áreas da manutenção preventiva e conservação da integridade das vias públicas. Não se conhece o modelo de risco associado à gestão destas infraestruturas, nomeadamente a metodologia de avaliação do estado e criticidade de cada rodovia. Numa era do BigData e da Inteligência Artificial, é fundamental o Estado investir em modelos preditivos, de forma a garantir a segurança de pessoas e bens, e promover a otimização dos custos de operação e manutenção”.

No caso particular de Borba, este especialista recorda o facto da Ordem dos Engenheiros já ter referido que a estrada estava mapeada em termos de risco para a segurança de pessoas e bens e, apesar de desconhecer os aspetos particulares desta infraestrutura, “defendo que devem ser retirados ensinamentos, designadamente em termos de governance, políticas e estratégias de manutenção, e modelos analíticos para predição do risco”.

A Proteção Civil já confirmou a existência de duas vítimas mortais que trabalhavam na empresa de exploração da pedreira localizada entre Borba e Vila Viçosa. Há ainda pelo menos quatro pessoas desaparecidas, numa operação de resgate das vítimas considerada de “grande complexidade” que pode demorar “dias ou semanas”, afirma o comandante distrital de Operações de Socorro CODIS de Évora, José Ribeiro.

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