Dias de Abril e maio

Agora que os donos da democracia recolheram as bandeiras dos dias que julgam deles, talvez já se possa falar de forma substantiva do que se passou.

1. O 25 de Abril tem de crescer. Mais do que celebrar uma data, com uma liturgia desfasada dos novos portugueses, das suas necessidades e ambições, deveria ser um dia para fazer o balanço da Democracia existente. Esse deveria ser o mote da reunião anual no Parlamento. A liturgia oficial, repetitiva, não acrescenta nada e este ano foi particularmente mau. Ferro Rodrigues como uma das imagens da República tornou-se uma máscara terrível, por obrigatória. E o PS faz mal em não estar, hoje, por cálculo político, à altura da coragem de Mário Soares.

Gostem ou não os comunistas (do PCP e do BE) e os ignorantes, a recuperação da Democracia teve dois tempos. Um, com os capitães de Abril e o seu golpe de Estado que, a reboque de reivindicações corporativas, acabou com o Estado Novo. O segundo, tão importante quanto este, com a coragem política (e física) de Mário Soares e Sá Carneiro, que forneceram o respaldo popular à ação de Ramalho Eanes, Vasco Lourenço e Melo Antunes no 25 de Novembro de 1975.

Sem todos estes homens, e outros, Portugal teria sido empurrado para uma guerra civil entre os democratas e os defensores de uma outra ditadura. Quem viveu aqueles tempos sabe disso. Quem não viveu deveria ler mais. O percurso de Otelo Saraiva de Carvalho, responsável por crimes de sangue, e condenado por eles, explica como os vencidos ainda tentaram a desforra pelas armas. A História nunca se faz de um dia parado no tempo.

2. O 1 de maio trouxe-nos a coreografia da CGTP na Alameda. Uma vergonha para o Estado de Direito. Resumindo: o Presidente da República e o Governo não quiseram problemas com o PCP. Sabiam que, neste tempo de emergência de saúde, os comunistas nunca abdicariam da desobediência para assinalarem o Dia do Trabalhador. Isso traria uma situação difícil para as forças de segurança. O PCP não é a Igreja Católica. Assim sendo, o terceiro período de estado de emergência foi decretado à medida e já trazia a exceção, permitindo à novel líder sindical o seu primeiro comício, que ainda assim desrespeitou a lei com as deslocações.

Bem pode agora Marcelo Rebelo de Sousa tentar sacudir a água do capote. Fica-lhe mal. O melhor é fazer como António Costa: conseguiu o que queria (satisfazer uma parte da antiga geringonça), assobiou e seguiu em frente. Evitou problemas, reconheço. Mas o Estado mostrou que tem um peso e duas medidas. Pior: que quem está ao leme tem sempre um forte poder discricionário. Há uns e há os outros.

3. Rui Rio disse recentemente que as empresas de comunicação social são iguais às de sapatos. Quem segue o percurso político de Rui Rio não pode ficar surpreendido. Eu percebo a lógica, e como tenho o homem em bastante respeito, pela obstinada coerência e idoneidade pessoal, não dou grande importância ao azedume que ele mantém com, e contra, a comunicação social.

Mas, admito: ao ver os telejornais do dia 1 de maio e ao constatar a normalidade com que o assunto da “celebração” da CGTP foi tratado, ao arrepio de qualquer inquietação jornalística, confesso que naquela noite mais depressa dava subsídios à indústria do calçado. Espero que tenha sido apenas uma noite má e que os 15 milhões do Estado em publicidade, que são justos, não anestesiem o jornalismo.

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