Diplomacia e bom senso

Um político não é um diplomata, mas muita da diplomacia dos nossos dias é executada por políticos, que se envolvem diretamente nos processos negociais, curto-circuitando as estruturas de mediação diplomática.

Deixando os créditos da mais velha profissão do mundo para outras artes, pode dizer-se que a vetusta gestão dos “rituais de entendimento” coletivo à escala internacional que é a diplomacia, como lhe chamou Paulouro das Neves, se tem constituído, ao longo dos séculos, como um eficaz instrumento na prevenção e resolução de conflitos, sendo que, quando em absoluto os não consegue evitar, é da sua natureza e missão procurar manter abertos, por cima de todas as dificuldades, os canais de contacto e diálogo.

A evolução da prática diplomática, como se tornou flagrante nas últimas décadas, acabou por simplificar muita da “coreografia” que, historicamente, envolvia a ação dos seus profissionais. Contudo, alguma da “liturgia” da profissão é ainda preservada, porque isso constitui um relativo suporte para o mútuo respeito por procedimentos que, no fundo, padronizam e regulam o exercício de uma mesma atividade por cidadãos oriundos de culturas muito diversas.

Pela introdução de fórmulas comportamentais e de tratamento muito próprias, foi possível estruturar, e ver basicamente praticada, uma “linguagem” que muito facilita a interlocução. Algumas regras de bom senso e, vá lá, de educação, são, no fundo, esse terreno comum que as escolas diplomáticas procuram ensinar.

Um político não é um diplomata, mas muita da diplomacia dos nossos dias é executada por políticos, que se envolvem diretamente nos processos negociais, curto-circuitando, muitas vezes com grande vantagem, as estruturas de mediação diplomática. Essa cada vez maior tendência para a interlocução internacional por parte dos atores políticos coloca, porém, na sua mão parte da responsabilidade da preservação dos relacionamento entre os Estados.

Há que ter a noção de que estes vão sobreviver para além de quem ocasionalmente os representa, pelo que essas pessoas devem ter consciência de que não podem, na sua ação conjuntural, titular atos ou atitudes que possam condicionar negativamente, de forma duradoura, o caminho futuro que caberá aos seus sucessores percorrer.

Quero com isto dizer que me parece de alguma gravidade o que começa a ser visível, um pouco por todo o mundo, ao assistir-se a uma inédita escalada de comentários depreciativos, ou mesmo insultos, entre titulares de órgãos de soberania de diferentes Estados, adotando uma inédita linguagem que pode fechar “portas” a diálogos futuros e, muito em especial, reduzindo a sua própria margem de recuo, para compromissos que a vida pode tornar necessários.

Tudo aponta para que é a circunstância de os políticos gerirem cada vez mais a sua agenda com o olhar voltado para o efeito mediático das suas declarações que está a levar as coisas por este caminho. A comunidade internacional pode, por esta forma, estar a encaminhar-se para um tempo em que a diplomacia tradicional acabará por ter de fazer “damage control” da inépcia de quem, afinal, tem a legitimidade política para a orientar. Há que convir que é uma imensa ironia.

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