Direita à deriva em Rio manso

“Na política, o que parece é”. Como já devem ter percebido, não sou exatamente dado a citar Salazar, mas lembrei-me da frase porque é apropriada no atual momento político.

“Na política, o que parece é”. Como já devem ter percebido, não sou exatamente dado a citar Salazar, mas lembrei-me da frase porque é apropriada no atual momento político.

A meras três semanas das legislativas, os principais partidos do lado direito do espectro político têm estado numa espécie de negação. Segundo Rui Rio, não se pode ter fé em nenhuma das sondagens que fazem prever um mau resultado para o PSD, porque algumas são feitas para produzir certos resultados. “Essas são como as bruxas, eu não acredito nelas mas que as há, há”, afirma. Assunção Cristas diz que o CDS-PP tem “uma vacina contra sondagens”.

As sondagens sobre intenções de voto por vezes falham – os casos do referendo ao Brexit e a eleição de Donald Trump são exemplos recentes. Mas a maior parte das vezes, com graus variados de precisão, conseguem identificar os vencedores e os vencidos.

No caso das eleições de 6 de outubro, há duas tendências claras patentes em todas as sondagens, incluindo na que publicamos na edição de hoje do Jornal Económico. O PS lidera com uma grande vantagem face aos partidos principais de centro-direita (mesmo combinados) e, segundo, esse fosso está a aumentar.

Dado este cenário, enterrar a cabeça na areia não será certamente a estratégia acertada para PSD e CDS-PP. Afirmar que há sondagens encomendadas não é exatamente convincente. Serão todas encomendadas?

Dizer que os dois partidos costumam ter resultados finais acima dos projetados nas sondagens pode até ser mais realista, mas não serve de grande incentivo aos eleitores que já votaram neles e que ponderam mudar a preferência.

A mensagem que está a ser transmitida é que está tudo bem, as sondagens é que estão mal. Visto de fora, aparenta ser o contrário, os líderes dos dois partidos estão perdidos nestas eleições e caminham para resultados desastrosos. Em eleições essa máxima torna-se ainda mais verdadeira. As aparências são tudo – o que parece estar mal, normalmente acaba mal.

A tarefa não é fácil, claro. António Costa é um político ‘habilidoso’, no bom e no mau sentido, e deixou poucos flancos abertos, especialmente no campo dos resultados económicos. Parte do problema do PSD e do CDS-PP é que não estão a conseguir acertar nos alvos mais fáceis sequer, como a degradação dos serviços públicos (especialmente a saúde e os transportes), ou a má gestão de vários assuntos sensíveis como as tragédias dos incêndios e a greve dos motoristas.

A avaliação que os sondados fazem em relação a Cristas poderá estar a sofrer por desgaste e memória da participação no anterior governo. O ex-autarca do Porto, por seu lado, parece incapaz de afastar a imagem cinzenta e austera de um político sério, mas cujo défice de carisma afasta vários segmentos do eleitorado.

Nas redes sociais há sinais claros deste desencanto. Os apoiantes do PSD e do CDS-PP parecem vibrar mais com a gaffe de Catarina Martins sobre as barragens do que com qualquer intervenção de Rio ou Cristas. O fenómeno PAN provoca mais posts e comentários do que qualquer discussão sobre os grandes temas que afetam o país.

Para Costa, isso é ouro. Enquanto os principais opositores estão em negação e distraídos com sideshows, vai avançando incólume, quiçá em direção a uma maioria absoluta.

Se o resultado dessa caminhada será bom ou mau para o país só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa, com a falta de comparência do PSD e do CDS-PP, a campanha parece, e é, um logro, uma oportunidade perdida para analisar bem o passado e debater a estratégia para o futuro.

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