Dividir Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft: o Oriente agradece

Atualmente, quando se pensa na divisão das megaempresas para ganhar terreno no plano concorrencial, não se pode pensar apenas no plano económico, também importa pensar no plano geopolítico.

Um dos debates cada vez mais recorrente no mundo dos negócios é o de considerar-se que empresas como a Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft (GAFAM) devem ser divididas, dada a sua dimensão, a bem da concorrência e da liberdade individual dos cidadãos e consumidores. Recentemente, a comissária da Concorrência Margrethe Vestager e a candidata à Casa Branca Elizabeth Warren reforçaram essa discussão.

Se vivêssemos num mundo onde o panorama geopolítico não interessasse e apenas prevalecesse o paradigma empresarial, onde a concorrência e a liberalização do mercado fossem sãs e as variáveis saudáveis, concordaríamos que para bem do consumidor a divisão traria benefícios diretos, uma vez que permitiria mais empresas no mercado e assim maior diversidade de escolha e competitividade. Recorde-se o efeito positivo que houve no mercado em Portugal da televisão por cabo, quando a TV Cabo foi obrigada a sair da alçada da Portugal Telecom.

Contudo, o mundo digital mudou o mundo económico. As multinacionais GAFAM não estão circunscritas a um conjunto físico de países de atuação. Os modelos de negócio são integrais e transversais a todo o planeta. Acresce que de há umas décadas para cá, existe uma nova superpotência económica chamada China, que alia a sua dimensão populacional a uma estratégia económica de longo prazo. Ou seja, o equilíbrio mundial do século passado, centrado nos EUA e na Rússia e com uma Europa titubiante sem estratégia definida, reformulou-se com o emergir da China.

Os primeiros resultados dessa estratégia económica, que visam criar um desequilíbrio silencioso, isto é, sem mudanças abruptas e radicais mas com entradas nos mercados de forma subtil, começam a sentir-se diretamente no conjunto de empresas com relevo mundial hoje conhecidas como “Digital Dragons”, como a Huawei, a Tencent, a Alibaba, entre muitas outras. Se considerarmos que esta estratégia económica tem uma estratégia política a sustentá-la diretamente, então talvez tenha chegado a hora de o mundo ocidental rever a forma como, tradicionalmente, fazia frente aos desafios económicos.

Atualmente, quando se pensa na divisão das megaempresas para ganhar terreno no plano concorrencial, não se pode pensar apenas no plano económico, também importa pensar no plano geopolítico. A divisão das GAFAM pode ter um impgeopolíticaacto direto e desequilibrar os “pratos da balança” a favor do Oriente. Não sejamos ingénuos – a China nunca aceitaria a interferência de autoridades da concorrência americanas ou europeias para que também se dividam os “Digital Dragons”, sem qualquer retaliação. Veja-se a atual “guerra comercial” entre os EUA e a China.

O mundo atual encontra-se em grande aceleração devido à transformação digital da própria economia e dos poderes instituídos globalmente, e deve ser analisado à luz de modelos económicos de hoje e não dos “simples” modelos económicos do passado em que simplesmente se desintegravam empresas. Estas ações podem criar um desequilíbrio económico e político abrupto e, em última instância, podem abrir caminho a desequilíbrios na própria ordem mundial.

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