Diz-me quem sai, dir-te-ei quem entra

O nosso ex-ministro conseguiu, com a sua demissão, um facto inaudito neste Portugal moderno: deixar o Presidente Marcelo sem palavras.

Esta foi a semana da remodelação do Governo. Começou com a saída do ministro da Defesa, sem que se saiba bem porquê: se por causa de um roubo de armas, se por não ter contado a história toda ou por qualquer outra coisa.

Mas as saídas de ministros não foram sempre coisa bem explicada: um exemplo disso é Patrick Jenkin, o ministro inglês tory que tinha azar, de quem se disse ser o bode expiatório ideal de qualquer primeiro-ministro. Contava-se que os colegas do parlamento, perante uma casca de banana, deixavam-no passar à frente. Nomeado Minister for Energy em janeiro de 1974, em plena crise energética, pediu aos ingleses que lavassem os dentes às escuras para poupar eletricidade; veio-se então a descobrir que usava uma máquina de barbear elétrica e fotografaram-lhe a casa à noite com as luzes todas acesas. Não foi por esta que saiu; não teve sorte, o governo caiu poucas semanas depois de tomar posse.

Ora, quando ministro de Thatcher, que não o considerava “one of us”, ela pô-lo fora do governo em 1985 por uma razão menor: as dificuldades em acabar com o Greater London Council. Outro exemplo foi quando Mick Young foi forçado a demitir-se em 1984 por a mulher levar na bagagem um urso paddington não declarado à alfândega.

Casos houve mais justificados, como em 1982 o de MacKellan: comprou um televisor a cores que declarou à alfândega ser a preto e branco, poupando nos impostos; saiu-lhe cara a poupança, pois foi demitido e levou consigo o Custom Minister John Moore. Já este ano a primeira-ministra Jacinda Ardern da Nova Zelândia demitiu o Custom Minister, que na sequência de uma ‘altercação física’ com o seu (dela) novo press secretary. Ou o do ministro galês Alen Davis, que pediu aos seus funcionários informação sobre os subsídios atribuídos aos seus rivais políticos. Ou ainda do ministro da Saúde da Guiana, Behri Ramsaran, demitido por ter chamado a uma ativista – e está gravado – “little piece of shit”, tendo depois comentado com os jornalistas que ela merecia uma palmada no rabo e que a mandava despir.

Outros houve que pecaram por excesso de zelo. Andrew Peacock, ministro australiano nos anos 70, pediu a demissão por a mulher ter participado nos anúncios televisivos dos Lençóis Sheridan, coisa que o primeiro-ministro John Gorton não aceitou, recomendando-lhe que deixasse de ser um “bloody fool”. Para evitar estas confusões, o governo australiano fez elaborar um código de conduta. Só que, comentou Grahame Morris, nem a Madre Teresa teria vivido bem com ele.

Seja lá como for, e sejam lá quais forem as razões, com código de conduta ou sem ele, o nosso ex-ministro conseguiu, com a sua demissão, um facto inaudito neste Portugal moderno: deixar o Presidente Marcelo sem palavras!

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