Do “suspense” político

Como se tem visto pelas sondagens, o país não acredita que o OE não seja aprovado na generalidade pelo que resta da geringonça. Seria uma irresponsabilidade.

1. As negociações à esquerda pela viabilização do Orçamento do Estado para 2021 parecem testar a capacidade negocial de António Costa com os partidos da quase defunta geringonça.

A geometria dos votos é conhecida: tendo 108 deputados, o PS tem de garantir o apoio de, no mínimo, mais oito votos ou a abstenção de 15 para o documento seguir caminho e passar à discussão na especialidade. Significa isso que o Governo precisa de uma de duas coisas: ou a abstenção do BE (19 deputados) ou a abstenção conjunta do PCP (10) com o seu satélite PEV (2) mais o PAN (4). Com a verificação de, pelo menos, uma dessas conjugações, o Governo do PS estará a salvo dos votos contra já anunciados do PSD (79), CDS (5), Chega (1) e Iniciativa Liberal (1). O desvario chamado Joacine já é irrelevante até para estas contas.

2. Como se tem visto pelas sondagens, o país não acredita que o documento não seja aprovado. Pessoalmente, também não. Portugal a viver em duodécimos, ou a caminhar para uma crise que gerasse eleições antecipadas, seria, neste momento, em plena segunda vaga de pandemia devida à Covid-19, um exercício de suprema irresponsabilidade política por parte dos partidos que desde 2015 caminham mais ou menos juntos. Mesmo assim, é possível perceber, pelas declarações que se vão sucedendo às rondas negociais, que tudo é feito sempre com sentido tático a pensar no pior cenário possível. Na cabeça de quem negoceia está sempre presente a questão: qual o partido que ganharia ou perderia mais (em intenções de voto) se PS e extrema-esquerda não fossem capazes de encontrar um denominador comum para mais este momento de evidente sacrifício?

E, não se esqueça, dentro da extrema-esquerda, ainda há um cálculo mais específico entre PCP e BE sobre as consequências do voto contra, a favor ou da abstenção, e da relação entre as diversas opções.

3. Rui Rio, desta vez, quem sabe se não contra a sua própria vontade, não conseguiu ajudar o Governo. O PSD foi liminarmente afastado da solução por António Costa quando este afirmou, em entrevista: “no dia em que a sua subsistência depender do PSD, este Governo acabou”. Morais Sarmento, vice-presidente social-democrata, lembrou estas palavras há não muito tempo. E terá sido assim, por ação exterior, que o partido encontrou finalmente o caminho dos serviços mínimos de oposição. Vai votar contra e Rui Rio explicou-o em 45 minutos, para grande desgosto do Presidente da República.

Nunca saberemos, por isso, se o presidente do PSD, caso tivesse sido solicitado para um entendimento específico, não teria sido tentado a acabar com o que resta da geringonça a meio da legislatura que ainda, apesar de tudo, a prolonga.

4. Os resultados das eleições nos Açores serão interpretados, já no domingo, à luz de todas estas movimentações e o PS, com nova maioria absoluta à beira da revalidação, não falhará, com certeza, em focar os resultados regionais nas suas necessidades nacionais. Recordo que o OE será votado na generalidade na quarta-feira seguinte, dia 28 (a votação final global está agendada para 27 de novembro).

Os Açores, no entanto, não vão testar nada de importante sobre o OE. Seria esperar de mais que a região, sucessivamente domesticada pelo orçamento local, feito à medida do prolongamento do poder, reagisse a esse estímulo nacional.

Se alguma coisa merece a atenção nas eleições de domingo, para além da incapacidade do PSD de voltar a discutir o governo da região, é avaliar os resultados dos restantes partidos, os emergentes e os decadentes. É a única curiosidade que tenho.

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