Ainda só passaram duas semanas ao início do ano e já assistimos a uma invasão, logo ao terceiro dia, à ameaça de outras, à confirmação de que o direito internacional deixou de valer sobre quem devia valer acima de tudo, e de que as alianças deixaram de ter outra utilidade senão a verificação da obediência dos mais fracos diante dos mais fortes.

E ao sétimo dia, assistimos ao assassinato de uma cidadã norte-americana por um agente que lhe faz pontaria à cabeça e a atinge mortalmente com três tiros enquanto diz “fucking bitch”, segundos depois de ela ter dito as suas últimas palavras – “I’m not mad at you”. Depois do assassinato, a Secretária de Estado Kristi Noem reage classificando a vítima, Renée Nicole Good, mãe de três filhos, como fazendo “terrorismo doméstico”, apesar de apenas estar a participar de uma acção de protesto e que até se preparava para se afastar do lugar do protesto. Assim caucionado pela governante, o assassínio tornou-se de Estado. E contra todas as evidências, Donald Trump tuíta na rede social de que é dono que lhe custava acreditar que o agente tivesse sobrevivido – “It is hard to believe he is alive, but is now recovering in the hospital.” Tudo mentiras escabrosamente ditas no mesmo exacto instante em que são expostas e é como se nada disso importasse.

O direito a regular-nos pelas evidências, ser assim usurpado, escandalosamente desprezado, é o sinal de um regime político demencial, onde as funções do senso-comum mais elementar deixam de ser garantia para uma comunidade se entender e se fazer entender. Não se poder ver e dizer, em seguida, o que se viu com certeza é como não poder pensar, é como o pensamento e o juízo não poderem respirar, não é digno.

Mas este regime demencial que se apoderou do governo do Estados Unidos é também o regime que se arroga a posição de império global. O aviso de que a Gronelândia será dominada a bem ou a mal (‘whether they like it or not’, disse ele) lembra o tempo dos ultimatos do império britânico no final do século XIX e de que o império colonial português de então foi alvo. As razões apresentadas eram também de segurança e geoestratégia. O mapa cor-de-rosa ligando por terra Angola a Moçambique não era compatível com o corredor britânico do Egipto à África do Sul. O tom de ultimato das declarações de Trump é reforçado ao serem proferidas imediatamente depois do bem-sucedido bombardeio da Venezuela para a subjugar e para capturar o respectivo Presidente da República e sua mulher, sem que tivessem sido emitidos pela justiça internacional quaisquer mandados de captura.

Se restassem dúvidas, Trump tira-as todas do caminho quando diz “My own morality. My own mind. It’s the only thing that can stop me.” E ainda acrescenta – “I don’t need international law”. Um soberano acima das leis, delas liberto, legibus solutus, é o traço distintivo de um regime absolutista. Para Trump, e de forma muito consequente, a sua vontade tem força de lei e de verdade.

Além da agressão concretizada à Venezuela, foram feitas nestes dias no continente americano ameaças à Colômbia e a Cuba. E como à Dinamarca, outro país da NATO, o território soberano do Canadá tem sido visado. Diante deste cenário, decerto nenhuma garantia nos protegerá se o arquipélago dos Açores, ou pelo menos parte dele, for tomado por esta cobiça. Há que ver nisto, contudo, que a novidade trazida pela Administração de Trump está apenas na queda do filtro que separava o Norte global do Sul. Tudo agora está sob a ameaça da vontade absoluta, hobbesiana, de Trump.

Este é o estado em que chegamos: um regime imperial que só compara com o império britânico no auge do seu poder global, um regime que progride em direcção ao absolutismo e que é, cumulativamente, ainda um regime demencial a merecer ser comparado com uma orwelliana versão do 1984 em 2026, um regime que não se inibe de desmentir os factos mais gritantemente evidentes, impondo como verdadeiro o que quer que valha como verdade, e que não se inibe de desprezar líderes aliados, democraticamente eleitos, como é o caso de Emmanuel Macron, sujeitado há dias a um exercício de imbecil sarcasmo de Trump à volta da pronúncia do seu primeiro nome.

A realidade tornou-se tão adulterada que sentimos necessidade de confirmar que não foi fabricada por IA. Dispensar-se da lei, da verdade e da própria realidade é a forma radical do legibus solutus que caracteriza a república absolutista e que Trump está a impor no seu país contra a arquitectura constitucional de pesos e contrapesos.  A sua inusitada imunidade na esfera da acção governativa começou no plano doméstico e, agora, transborda para a cena internacional.

E diante de tudo isto, o governo português submete-se. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, toma posição quando não toma uma posição inequívoca, quando, incapaz de criticar a acção de Trump, ainda consegue uma expressão para lhe conferir um grão de legitimidade – “aspectos benignos”, diz ele –, mau grado o Presidente dos EUA mais depressa se ter referido aos recursos petrolíferos da Venezuela do que a uma devolução do futuro deste país ao seu povo através da realização de eleições gerais e livres. E alinhados com esta tibieza quase cúmplice do governo, há candidatos presidenciais que dizem coisas que não querem dizer nada e, por isso, querem dizer tudo.

É o caso de Marques Mendes quando diz que as Nações Unidas não funcionam – ineficazes, impotentes, irrelevantes – e que assim “legitimam na prática” (eis a palavra mágica) intervenções como a da Venezuela, que já ocorreu, “concorde-se ou não com ela” (pasme-se a conformação ao facto consumado). Como se as Nações Unidas não estivessem a ser descapacitadas precisamente pela potência agressora. Como se não fosse essa descapacitação também efeito e não causa da acção de Trump, que ignora e desautoriza as Nações Unidas, além de as descapitalizar.

Ou o caso de Ventura que acha muito bem a captura de Maduro, mesmo se feita à margem da lei internacional, mas, ao mesmo tempo, consegue achar muito mal que o nosso país, ou a Europa, possam vir a ser ameaçados sem nunca fazer a operação mental elementar de tirar consequências do facto de que é o mesmo Trump que está por detrás de todas as acções.  Saberia fazê-lo, mas não lhe convém expor a fraca defesa que faz do interesse nacional. Portanto, é certo que há Trump, mas não faltam cúmplices e lacaios pelo mundo fora, nem sendo preciso sair do país para encontrar muitos.

O grande cineasta húngaro Bela Tarr morreu há dias e parece prenúncio desta aceleração algo apocalíptica de tudo o que é pior, que está a acontecer quando dobramos o quarto de século e entramos no seu miolo como num abismo. Mostramo-nos surpreendidos, mas a parte maior da surpresa devia estar em como previmos realmente o que está a acontecer e como tudo está a acontecer tal como previsto.

A pensar neste nosso país a dias de eleger o seu mais alto magistrado e chefe de Estado, lembro a peça de Tiago Rodrigues, Catarina e a beleza de matar fascistas, que voltou aos palcos no Centro Cultural de Belém por estes dias, escrita há meia dúzia de anos, mas que podia ter sido escrita hoje, com muito menos criatividade tanto se esforça esta realidade por lhe fazer jus. Vivemos tempos de aflição.