Dono da Prebuild investiu no GES com crédito e Salgado disse-lhe que “a família nunca esquece quem a ajuda”

O dono da Prebuild contou o seu percurso profissional desde Angola até Portugal, altura em que foi convidado pelo BES a investir da ESI com dinheiro do BES garantido pelo BESA. Relatou que “o momento alto da sua carreira” foi almoçar com Ricardo Salgado. Concluiu que “a queda do meu grupo é responsabilidade do Novo Banco”, por não ter sido recebido pelo banco em 2014 e com isso ter estrangulado a liquidez do seu grupo.

A Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução tem esta quinta-feira em audição João Gama Leão, presidente do conselho de administração da Prebuild.

O grupo de construção, com uma dívida incobrável de 334 milhões de euros, é um dos maiores devedores do Novo Banco, a par com a Sogema – grupo Moniz da Maia –, e a Ongoing. João Gama Leão “aceita o rótulo de grande devedor”, mas não quer “ser comparado com uma elite podre que pediu crédito para comprar ações, nem para servir Ricardo Salgado”, numa alusão a Bernardo Moniz da Maia do grupo Sogema. “Endividei-me para comprar empresas, para expandir negócios”, disse.

Recorde-se que os créditos incobráveis da Sogema – grupo Moniz da Maia –, da Ongoing e da construtora Prebuild são responsáveis pela maioria das imparidades para créditos detetadas na auditoria especial da Deloitte ao Novo Banco.

O empresário que era dono da Prebuild explicou que o grupo precisava de apoio de liquidez do principal “parceiro financeiro” e que ficaram sem apoio de liquidez depois da resolução do BES, entre agosto de 2014 e dezembro desse ano, porque “o Novo Banco não me recebeu, apesar dos pedidos insistentes” referindo-se à gestão de Vítor Bento e início da liderança de Eduardo Stock da Cunha.

“As tentativas que o Novo Banco fez de recuperar a dívida da Prebuild foram zero, ao contrário do que disse aqui o ex-presidente, Eduardo Stock da Cunha”, disse.

Relatou que em reunião em dezembro de 2014, com o administrador Vítor Fernandes, tentou negociar com o banco a sua dívida, mas que este administrador queria que a Prebuild “devolvesse as cerâmicas”. “O grosso da dívida era do trade finance” das operações exportadoras, disse.

Mais tarde, o Novo Banco disse a João Gama Leão que “aprovamos o PER [Processo Especial de Revitalização] se nos derem as cerâmicas” e demos a Aleluia Cerâmicas e o PER do grupo foi aprovado. Mas depois “o Novo Banco pede a minha insolvência pessoal [em 2017]. O que eu considero ter sido um acto de má fé”.

João Gama Leão disse que ainda está disponível para negociar com o banco para “limpar o seu nome”, lembrando que a sua dívida pessoal “acaba daqui a cinco anos”.

O empresário disse que o Novo Banco “tirou-me as cerâmicas e deixou-me a dívida, garantida por avais pessoais”, lamentou-se o empresário que antes tinha dito que o património pessoal foi gasto nas empresas.

Dos 334 milhões de euros de dívida do grupo Prebuild, cerca de 50 a 60 milhões de euros era dívida da Aleluia, explicou o empresário que adiantou que essa dívida vinha do tempo do Grupo Espírito Santo.

Sobre a Aleluia Cerâmicas, contou que foi o BES, mais uma vez Bernardo Espírito Santo, que disse a João Gama Leão “tens de ficar com as fábricas”, porque o Grupo Espírito Santo não conseguia salvar a empresa e era mau para a imagem do grupo pedir a falência de uma empresa. “O problema das empresas começa quando se preocupam mais com a imagem do que com a gestão”, referiu.

O grupo de João Gama Leão ficou com a empresa de cerâmica do GES pelo valor da dívida, com a promessa de o banco reestruturar a dívida.

A Aleluia foi assim parar às mãos do grupo Prebuild depois de a adquirir à Rioforte, sociedade de investimentos que integrava os ativos não financeiros do Grupo Espírito Santo. Mais tarde, em 2016, a Aleluia Cerâmicas foi comprada pela Oxy Capital (vendida pelo Novo Banco).

A Aleluia Cerâmicas nasceu da fusão, em 2006, de várias empresas portuguesas detentoras das marcas Aleluia, Ceramic, Apolo, Viúva Lamego e Keratec.

“Os bancos servem para dar a apoio a empresas exportadoras”, disse Gama Leão que contou aos deputados que “meses depois da primeira reunião de dezembro de 2014 começamos a negociação de um Processo Especial de Revitalização (PER). O meu grupo precisava de uma reorganização e a dívida também, porque a minha operação tinha morrido naquele momento”.

Sobre o seu percurso contou que a sua estratégia “era entrar em empresas em dificuldades com capacidade exportadora. Tínhamos empresas que exportavam para mais de 50 países  e estávamos em fase de expansão, precisávamos de apoio financeiro”, explicou, admitindo que a atividade exportadora era suportada “com trade finance”. Segundo os deputados, o rating interno do BES atribuído ao grupo era mau, mas ainda assim a dívida da Prebuild disparou em quatro anos de forma exponencial. Ao longo da audição percebe-se a dívida avoluma-se por comprar dívidas que vinham com elevadas dívidas.

Mais tarde, em resposta ao deputado do PCP, Duarte Alves, confessou que o Banco Espírito Santo lhe deu um cartão de crédito com plafond ilimitado (que hoje faz parte do crédito malparado do Novo Banco) e que na altura disse que só aceitava o cartão com o colateral, e o banco lhe disse que investisse em ações do BES e que essas serviam de colateral ao crédito do cartão. O valor desse colateral rondava os 200 a 300 mil euros, confessou.

“Queda do grupo Prebuild é responsabilidade do Novo Banco”

“A queda do meu grupo é responsabilidade do Novo Banco”, considera João Gama Leão que a certa altura admitiu que assumiu riscos porque “quem não nasceu com o apelido Espírito Santo tem de ir à luta e não há outra maneira de crescer sem risco”, disse o empresário.

“O Novo Banco teve uma postura de vamos liquidar”, disse aos deputados referindo-se aos anos 2014 e 2015.

Frisando sempre a sua condição de self made man, “que veio de baixo para cima”, João Gama Leão contou que regressou de Angola, onde tinha obras públicas, para Portugal em 2011 porque tinha ganho uma obra de construção de 40 hotéis para um grupo segurador que o deputado do PSD desvendou, tratando-se de uma empresa seguradora (AAA Seguros) que pertencia à Sonangol, disse o deputado Hugo Carneiro do PSD.

A Prebuild tinha quase seis mil empregados, disse João Gama Leão. “Um dos erros da minha gestão foi ter o grupo muito centrado em mim”, admitiu.

Na resposta aos deputados disse que “o meu património eram as empresas” ao mesmo tempo que admitiu que “vendeu os bens pessoais para tentar salvar as empresas”, depois admitiu ter obtido com essas vendas “um montante de cinco milhões de euros, no mínimo”.

Sobre o impacto público da sua dívida incobrável ao BES/Novo Banco respondeu “não fui eu que transformei o BES num problema público”.

O empresário construiu um conglomerado industrial ligado à área da construção, com empresas como a Levira, a Aleluia Cerâmicas (que comprou ao Grupo Espírito Santo) – detentoras das marcas Aleluia, Ceramic, Apolo, Viúva Lamego e Keratec –, a Kind ou a Porama, a que juntou a rede de lojas de bricolage Izibuild (ex-Mestre Maco), entre muitas outras.

Investimento de mais de 20 milhões no aumento de capital da Espírito Santo International (ESI)

A queda do grupo Prebuild foi precipitada pela forte ligação financeira ao Grupo Espírito Santo. O empresário aplicara mais de 20 milhões de euros no aumento de capital da Espírito Santo International (em 2011), a pedido do diretor Bernardo Espírito Santo. Na sequência desse investimento feito com uma “stand by letter”. Isto é, o BESA garantiu o empréstimo do BES para esse investimento do capital da ESI. O Novo Banco terá executado essa garantia ao BESA (e recuperado esse dinheiro), admitiu.

Segundo relatou, Bernardo Espírito Santo, responsável no BES pela área das empresas, “disse-me que precisava de gente amiga que invista no grupo”. Na sequência do investimento da ESI foi convidado para almoçar por Ricardo Salgado, ex-presidente do BES.

“Quando regressei a Portugal, eu tinha 35 ou 36 anos, tive a oportunidade de investir no GES, na altura em que investi no Grupo Espírito Santo foi talvez o momento alto da minha carreira. Tive um almoço com Ricardo Salgado, depois de ter investido na ESI, que me sentou à cabeceira e me disse que a família nunca esquece quem ajuda a família”, disse João Gama Leão.

“Era absolutamente estratégico para o um grupo como o meu ter uma posição no melhor banco e melhor grupo do país”, referiu João Gama Leão que admitiu ter depois ficado “com boas relações com a família Espírito Santo”, mas “não com Ricardo Salgado” frisou, admitindo que apenas se encontrou com o banqueiro duas ou três vezes .

A certa altura o empresário revela que relação com o banco começa quando adquire a metalúrgica Levira que já vinha com dívida do passado.

Na conversa com os deputados contou também que foi chamado, a certa altura, pelo general Kopelipa, Hélder Vieira Dias, para servir de intermediário com Ricardo Salgado para lhe dizer que “era preciso fazer alguma coisa com o BESA”, porque era difícil “lidar com Álvaro Sobrinho”. João Gama Leão disse contou a Ricardo Salgado que corria em Luanda “em fontes abertas” que “havia um autêntico saque ao BESA”, mas que o ex-presidente do BES manteve uma “poker face”, disse acrescentando “provavelmente porque ele era dos saqueadores”.

A Prebuild é um dos maiores devedores ao Novo Banco tendo deixado dívidas 334 milhões de euros ao banco, que tinha 85% dos créditos. O empresário português foi, entretanto, para o Brasil.

A dívida do grupo Prebuild, em 2019, ascendia a 475 milhões de euros e foi entregue ao tribunal pelo Novo Banco, pedindo assim, a insolvência da Goldenpar do grupo, depois de não ter cumprido o Processo Especial de Revitalização aprovado em 2017. Outra empresa do grupo que está em insolvência é a Tglobal Supply. Já a Porama, empresa fabricante de portas para roupeiros, acabou por ir para insolvência também.

João Gama Leão disse que 90% das suas empresas continua a operar com outros donos. “O grupo cai porque não tivémos oportunidades de nos reinventar, durante a transição do BES para o Novo Banco.

O Grupo Prebuild também avançou para a Colômbia que chegou a ser o seu eldorado. Mas foi envolvido num diferendo judicial  com o seu anterior parceiro no país, o fundo de investimento Terranum, empresa do Grupo Santo Domingo.

Segundo noticiou o Expresso, em abril de 2017, quando o Novo Banco avançou com o pedido de insolvência do empresário, Gama Leão já tinha vendido a sua casa na Beloura e feito as partilhas com o irmão Martinho, que ficou dono das operações em Angola. O empresário diz que os seus bens pessoais e do seu irmão foram todos vendidos e investidos no grupo para tentar salvar as empresas.

 

Recomendadas

Novo Banco: PSD contraria Mourinho Félix quanto à retransmissão de obrigações de 2015

Acusando o antigo governante socialista de dizer “coisas que contradizem os factos”, Hugo Carneiro contrariou a versão de Mourinho Félix quanto à subida dos juros após a retransmissão de obrigações em 2015, dizendo que esta aconteceu sim após a apresentação do Orçamento do Estado de 2016.

Resolução do BES seria sempre preferível à liquidação, defende Vítor Constâncio

Vítor Constâncio reiterou que “naquela circunstância, naquele momento, com aqueles dados finais do final de julho, não havia outra alternativa melhor do que encaminhar-se para um processo de resolução”.

António Horta-Osório condecorado pela rainha Isabel II com título de ‘Sir’

O antigo presidente-executivo do banco Lloyds foi reconhecido pela monarca pelo “serviço importante para os contribuintes do Reino Unido nos últimos 10 anos, liderando o Lloyds Banking Group da beira do colapso de volta à lucratividade”. 
Comentários