E depois do adeus

O grande desafio do centro político europeísta passa por conseguir ligar-se de novo às preocupações de crescimento económico, na condição de o fazer propondo também um novo contrato de valor para os cidadãos europeus.

A saída do Reino Unido da União Europeia é hoje um facto consumado, e os restantes países começam agora a discutir as bases da próxima fase do projeto europeu, com o objetivo de fortalecer os laços da integração e evitar novas réplicas do Brexit, que podem ter consequências incontornáveis, sobretudo se estivermos a falar de um país com elevada dimensão económica e integrante da moeda única – como, por exemplo, a Itália.

Este é por isso, o momento de os países da União Europeia providenciarem uma resposta conclusiva e imediata, ao nível do que Mario Draghi fez através do Banco Central Europeu, em 2012. Contudo, os primeiros sinais mostram elevadas dificuldades de entendimento para gerir o ajustamento necessário – no que diz respeito, nomeadamente, a como cobrir a fatia de 75 mil milhões de euros que caberia ao Reino Unido no orçamento da União Europeia nos próximos sete anos. Mas, acima de tudo, o contexto de apoio às populações é diferente daquele que havia apenas há uma década atrás. Atualmente, existe uma ensurdecedora pressão sobre as estruturas tradicionais políticas pró-europeias, em detrimento de movimentos antissistema e eurocéticos, que fazem com que o caminho de uma maior integração europeia seja mais complexo de percorrer nos próximos anos.

A erosão do centro político tem raízes profundas e difíceis de ignorar

A realidade é que os primeiros sinais de desapontamento com os partidos do centro político começaram a emergir no princípio do século XX, embora tenham aumentado significativamente no pós-crise mundial, e sobretudo na Europa.

Até ao princípio do século, os partidos moderados (centro-esquerda e centro-direita) recolhiam mais de dois terços dos votos expressos dos eleitores, que situavam as suas linhas ideológicas nos termos tradicionais de mais Estado ou menos Estado – mas onde as conquistas sociais, integração, internacionalização e os chamados valores europeus criavam uma identidade e os alicerces necessários para assegurar o consenso político alargado em torno de um statu quo europeísta.

Atualmente, o peso do centro político europeu recuou significativamente para cerca de metade das preferências de voto, e em algumas situações (como Itália) ficam abaixo desse limiar. O que está alimentar esta espécie de rebelião dos eleitores subjacentes fatores políticos ligados à necessidade de recuperar a soberania dos países, à limitação da representatividade dos eleitores (como a Comissão Europeia), ao controlo das fronteiras e dos imigrantes que entram nos países europeus em virtude das preocupações com o aumento do terrorismo internacional, ou com os choques culturais das populações locais, decorrentes da entrada massiva de refugiados nalguns países.

Sem dúvida que estes fatores ajudaram a alimentar as narrativas políticas dos partidos antissistema e eurocéticos, que nos últimos anos têm vindo a conquistar terreno no espaço europeu, alimentando a fragmentação do sistema partidário na União Europeia.

As condições socioeconómicas continuam na base do descontentamento

As ramificações da grande crise do euro, e a complexa estrutura da União Europeia em resposta à crise, criaram obstáculos difíceis de gerir numa zona monetária que se encontra numa encruzilhada e dispõe de pouco espaço de resposta.

Tudo começa com a própria desilusão das pessoas face ao processo de globalização, associado quer às condições de rendimento e estabilidade dos seus empregos, quer às condições de mobilidade social e sobretudo económica. Afinal, no entendimento comum generalizado sobre a criação de riqueza e melhoria da qualidade de vida das famílias, o aumento da integração europeia e a liberalização dos mercados desempenha um papel fundamental.

Nas últimas décadas, mas sobretudo depois da crise de 2008, tem ganho terreno a perceção de que as premissas europeístas não têm trazido os benefícios que eram esperados, e que num mundo cada vez mais globalizado, as empresas têm sido, efetivamente, capazes de criar cadeias de valor para uma oferta global de produtos, mas à custa da transferência dos custos da força de trabalho para outras localizações, destruindo postos de trabalho nas economias mais avançadas (vítimas de deslocalização da produção). Situação que tem sido acompanhada pelo aumento de desigualdade nos rendimentos, assim como pela perda de ímpeto na produtividade.

O sentimento de injustiça é sobretudo patente nas classes de rendimentos baixos e médios, descontentes com a redução de perspetivas de mobilidade económica, sentimento agravado pela interiorização de que as elites políticas não têm sido capazes de contornar a letargia económica em que os governos dos países da União Europeia se encontram, o que tem minado a confiança dos eleitores nas instituições, designadamente a Comissão Europeia.

A gestão de equilíbrios dificulta uma solução reformista

A União Europeia necessita proceder a reformas estruturais importantes para gerir a agenda da próxima década. Mais que organizar um novo orçamento à luz dos valores de coesão, mas sem os fundos do Reino Unido, importa reorganizar a economia para que esta possa fazer chegar aos europeus um novo compromisso de crescimento económico que seja também um compromisso de valor para as famílias de baixos e médios rendimentos.

Por um lado, o atual espectro político europeu transforma esta tarefa reformista numa encruzilhada de difíceis equilíbrios. As configurações políticas atuais tornaram bastante complexas as possibilidades de executar reformas a nível europeu, uma vez que isso exige colocar uma agenda europeia à frente das agendas nacionais – um risco que, perante eleitorados mais eurocéticos, se torna uma variável difícil de ultrapassar, sobretudo para os Estados-membros contribuintes líquidos.

Por outro lado, a imposição de reformas estruturais – tal como foi feita nas economias da periferia, com destaque para a Grécia, também parece pouco provável, dadas as fraturas que provocou dentro dos países da UE, para além da impopularidade política institucional que alimentou o euroceticismo, encaminhando os eleitores para os partidos nacionalistas e populistas.

‘Bottoms up’: reformas estruturais dos discursos e instituições para mobilizar

O grande desafio do centro político europeísta passa por conseguir ligar-se de novo às preocupações de crescimento económico, na condição de o fazer propondo também um novo contrato de valor para os cidadãos europeus. Que consiga mobilizar de novo os eleitores para as reformas necessárias na União Europeia, que seja consistente para enfrentar os desafios crescentes de um mundo cada vez mais protecionista e comercialmente competitivo. Isso passa igualmente por um debate renovado sobre a Europa, que politicamente deixe evidente as vantagens do projeto europeu como forma de trazer maior prosperidade e, também, maior transparência no campo das instituições europeias e dos partidos. A expetativa dos eleitores europeus perante o pós-Brexit já se faz sentir, e o tempo de lidar com o futuro do euro chegou.

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