E depois do congresso

O congresso do PS, além de projetar uma família feliz, teve um outro efeito: anunciar-nos que o poder do Estado vai continuar a gerir este pequeno país de órfãos e subsídio-dependentes.

1. O congresso do PS, naturalmente, não teve história. António Costa reina sobre o partido. É ele quem coloca os nomes nas cadeiras. É ele quem define as posições na sala. É, ao mesmo tempo, protagonista, realizador, produtor. Há quem, entusiasmado, descortine ali Woody Allen. Há quem, agoniado, assegure que é apenas Steven Seagal. A maioria, acredito, terá feito ‘zapping’.

Nem José Sócrates, o autor da única maioria absoluta do PS (em 2005), alguma vez teve um ascendente igual no partido – talvez porque Sócrates se impunha pelo medo e Costa vai buscar a sua força à astúcia, à inteligência política – e a uma conjuntura social, económica e internacional, que convocam a ‘estabilidade’, o ‘consenso’, a ‘segurança’. Se os portugueses já gostam pouco de mudanças, a pandemia, com os seus ‘apoios’, as ‘ajudas’, os subsídios, criou um caldo propício à manutenção do poder. É isso que se comunica ao partido. Foi isso que se viu em Portimão.

Claro que a sucessão vem longe – e, aos dias de hoje, virá no ‘timing’ que António Costa definir, de acordo com as suas expectativas e ambições pessoais. Isto não é bom nem é mau. É assim. O PS já sabia. O país ficou a saber.

2. O problema de Portugal não é o PS. O problema está na oposição, na qual (dando por adquirido que PCP e BE, com maiores ou menores arrufos orçamentais, fazem parte da ‘situação’) apenas a Iniciativa Liberal combate por ideias.

Num Portugal esmagado por impostos, por um Estado omnipresente que agora quer fazer obras à conta do PRR, os partidos da direita tradicional, PSD e CDS, parecem terem entregue as chaves da alternativa. Desapareceram da arena. Não apontam nem os erros nem os sucessivos escândalos. Não apresentam propostas para remendar o tecido social. Obviamente, do ponto de vista da intenção de voto reduzem-se. O Chega, com o seu discurso inflamado e que inflaciona problemas reais, que existem, também se aproveita disso para fazer crescer a mensagem populista.

3. Quando António Costa, mais uma vez, aponta a corrupção como um dos males do país que o PS tem de combater, está a fazer a sua obrigação, mas, sobretudo, a chamar-nos a atenção para o que vale uma oposição que não tem querido, nem sabido, colocar este gravíssimo problema nacional no centro das atenções do discurso político.

Sim, a corrupção corrói Portugal há décadas.

Mas não sendo o PS o único responsável pela situação que temos, a verdade é que é o maior desses responsáveis, porque governou mais tempo (19 dos últimos 25 anos). Os meios da investigação, a sua autonomia, a circulação dos fundos europeus, a importância das diversas famílias rosa, nacional e locais, tudo isso tem tido a marca da governação socialista.

4. O caso da investigação ao acidente no qual o automóvel do ministro Eduardo Cabrita matou uma pessoa [António Costa também se referiu ao caso; como sempre tentando minimizar a gravidade do que se passou e ainda se desconhece] é, noutro plano, um grande exemplo de como as coisas por aqui se fazem, e arrastam, ao serviço dos interesses de quem manda.

Perante tudo isto, a oposição, com o PSD à cabeça, encolhe-se, fica em silêncio, não vê nada de grave.

O congresso do PS, além de projetar uma família feliz, teve um outro efeito: anunciar-nos que o poder do Estado vai continuar a gerir este pequeno país de órfãos e subsídio-dependentes em que os melhores abandonaram a política aos profissionais. Iremos melhorando, sim, mas sempre a reboque da Europa, com atraso, reagindo. Triste sina.

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