Após o ataque militar sem precedentes dos EUA à Venezuela, que levou à captura do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, governos de todo o mundo reagiram de imediato entre críticas à ação militar, apoio incondicional à prisão do chavista e posições mais cautelosas, como a UE. Talvez pela incerteza dos dias que estão por vir, o bloco europeu ficou-se pelo pedido de transição pacífica e democrática e apelo ao respeito pelo direito internacional e Carta das Nações Unidas. Uma posição que não falou a uma só voz, com a França a condenar explicitamente a operação norte-americana e Espanha a sinalizar que não irá reconhecer a intervenção.
Na América Latina predomina a crítica aos EUA. A China junta-se à Rússia, acusando os EUA de violarem o direito internacional. Já Guterres alertou para o “precedente perigoso” num ataque camuflado com o pretexto de combate ao narcotráfico – a justificação legal da captura de Maduro que revela incoerência com a explicação de Trump, centrada na recuperação de petróleo, e que denuncia um argumento fraudulento após o perdão presidencial ao ex-presidente das Honduras condenado nos EUA por tráfico de droga.
É nesta mescla de reações que se centra a ofensiva militar na Venezuela. Marcou um ponto de viragem na presidência de Trump ao anunciar a captura de Maduro e a intenção de Washington assumir o controlo do país até existir uma transição de poder. Algo que permanece pouco claro após a ação desencadeada a 3 de janeiro, que levanta mais dúvidas do que certezas sobre os desdobramentos políticos e diplomáticos na Venezuela. Desde logo, o sequestro de Maduro reduz, mas não elimina a força do chavismo. A situação evolui para uma potencial crise prolongada e conflito, com a presidente interina Delcy Rodríguez a desafiar a intervenção de Trump que pré-anunciou uma transição sem rota nem protagonistas definidos. Depois de ter criticado duramente operações de mudança de regime, coloca agora o foco do seu mandato num país sul-americano devastado por décadas de ditadura e colapso económico. E na reconstrução da debilitada infraestrutura petrolífera da Venezuela, que detém as maiores reservas de petróleo do mundo e vastos depósitos de minerais críticos essenciais às tecnologias de energia limpa e defesa.
Esta ação em Caracas expõe que não se trata da defesa da democracia ou de uma intervenção humanitária. O verdadeiro objetivo foi revelado pelo próprio Trump: “Muito dinheiro vai sair daquele solo e nós vamos ser reembolsados pelo que gastámos ali”. É oficialmente o fim do globalismo, que atava o poder militar dos EUA ao respeito pela soberania nacional da carta da ONU. As repercussões regionais desta ação são perigosas e demonstram que as ameaças de Trump não são mera retórica. Cuba, Nicarágua e Colômbia são os alvos mais prováveis. México, Brasil e Canadá também não se encontram a salvo com a Dinamarca em alerta máximo, após a insistência no interesse pela anexação da Gronelândia, que levaria ao fim da NATO.
Os dados estão lançados. Trump escancarou o interesse americano no subsolo da Venezuela que agora, na era pós-Maduro, navega na incerteza. É a sede de controlo sobre recursos com valor estratégico e económico, onde o direito da força se impõe à força do direito internacional. James Carville, assessor de Clinton, diria: “É o petróleo, estúpido!”. O século XXI ficará marcado pelo ressurgimento do imperialismo militar predatório?




