E se deixássemos de espremer o mundo?

Como fazer vingar a ideia de que é necessária uma orientação diferente na evolução da tecnologia, que não é, no curto prazo, a que mais retorno dá?

O economista britânico William Stanley Jevons (1835-1882) foi um dos criadores da muito influente teoria da utilidade marginal, mas também do paradoxo que leva o seu nome, hoje especialmente relevante. O paradoxo de Jevons diz-nos que os ganhos de eficiência energética podem resultar, contrariamente ao esperado, num aumento acumulado de consumo energético. Por exemplo, aproveitarmos a poupança de combustível de um carro para fazer mais viagens. Num tempo em que as exortações à eficiência energética se multiplicam, este efeito de ricochete não passa despercebido aos ecologistas. Relativizar desta maneira as vantagens da eficiência energética não significa, claro, descartá-la. Os ganhos de eficiência permitiram, de facto, que uma série de usufrutos se alargasse a uma vasta maioria de pessoas.

O problema é quando a preocupação com a eficiência energética não se coloca como uma mudança de perspectiva, mas apenas como mais uma expressão do mesmo paradigma que nos tem trazido à situação actual: o incremento da produtividade e do extrativismo, só que aplicados à produção energética. O ponto deve ser outro. É altura de nos perguntarmos o que nos empurra colectivamente para um crescimento desenfreado, assumindo que, se o sistema capitalista não se sustenta de outra forma, talvez seja preciso mexer nele. Porque é urgente abrandar e tentar estabilizar num ponto de equilíbrio. Não é só estarmos a levar ao limite a capacidade do planeta. É que a necessidade permanente de crescimento é em si mesma anti-ecológica.

Será que precisamos do capitalismo a este ponto? Não, definitivamente não nos interessa que uma tecnologia verde, mais eficiente no que respeita à energia e aos recursos, sirva de álibi para alimentar o sistema crescentista, que continua a alargar a pegada ecológica.

 

A técnica antiga e a técnica moderna

Já em 1952, Martin Heidegger – a quem, apesar do imperdoável nazismo, não faltavam qualidades filosóficas – antecipou este imbróglio em que nos encontramos. Na sua conferência “A Questão da Técnica”, perguntava-se pela essência desta, contrapondo dois entendimentos opostos. Num, a técnica consiste em fazer surgir algo, como uma potência trazida à nossa presença. Este é o seu sentido antigo, a téchne dos gregos, não longe talvez do que hoje reconhecemos a um artesão, que faz uma obra singular com o material que trabalha, aproveitando as suas características singulares – como um marceneiro que decide o que fazer com um pedaço de madeira em função dos seus aparentes defeitos.

Aqui, a técnica define-se, primeiro, como uma produção não reprodutiva, aquilo a que os gregos chamavam poiesis e de que resultaram palavras como poesia. Segundo, como uma actividade que envolve quem a ela se dedica como se fosse o próprio a ser produzido – em suma, o fazer criativo do artesão ou do artista. Terceiro, neste sentido, técnica até na natureza se encontra, independentemente de qualquer acção humana: uma flor florir, dizia Heidegger, é já uma possibilidade produtiva/poiética que a flor tem em si mesma. Quarto, a intervenção humana por meio da técnica deve convergir com a natureza, pois nada obsta a que a técnica humana procure ser como e com a natureza. Por exemplo, um moinho que aproveita o vento para funcionar.

A este entendimento antigo, Heidegger contrapôs a técnica moderna, que, por oposição à compreensão dos equilíbrios e ritmos da natureza, antes os provoca e os explora como recursos disponíveis, através de dispositivos de extracção e de acumulação. Isto sucede porque se permitiu uma visão redutora do mundo, e das coisas que nele encontramos, como recursos ou entidades consumíveis – apenas não consumidas se acontecer serem esgotáveis, o que tornaria impossível continuar o seu consumo. Mesmo quando se diz “recursos inesgotáveis” já se perdeu o essencial: o cerne não está em algo ser inesgotável, mas em não dever ser reduzido à condição de recurso.

Compare-se uma exploração mineira a céu aberto ou uma extracção petrolífera com o moinho de vento de que falava Heidegger. Aqueles consomem, mas o vento é só o vento, a quem se pede uma boleia. Ou então, em termos de trabalho agrícola, como escreve o filósofo alemão: “O trabalho do agricultor não provoca a terra cultivável. Quando ele semeia o grão, confia a semente às forças do crescimento”, forças espontâneas que dão uma boleia à produção humana levando-a nas costas do seu próprio movimento de produção.

A situação, claro, muda inteiramente quando se juntam fertilizantes químicos que exploram a natureza obrigando-a a produzir em esforço. É assim com as terras, com os animais, com a exploração de recursos nas indústrias extractivas – e com os “recursos humanos”. Tudo posto em esforço.

Ao confrontamo-nos com a realidade, é fácil verificar como o desenvolvimento tecnológico tem estado muito mais ao serviço desta técnica que força e explora. Uma mudança de paradigma exige que restauremos o outro entendimento de técnico. Se a tecnologia tem sido parte do problema, deve passar a ser parte da solução. Sem desenvolvimento tecnológico estamos condenados, enquanto espécie, a um downsizing, um suicídio social, mesmo se disperso num curso intergeracional. Sem tecnologia o mundo não dá para tantos, nem para a sua décima parte. Rejeitá-la é uma opção egoísta de quem gosta de estilos de vida alternativos, mas condenaria uma esmagadora maioria da população humana à extinção.

A questão não é se a queremos ou não, mas que tecnologia queremos. Nem o suicídio que nos subtraia do mundo, nem uma cósmica fusão com ele são respostas razoáveis. O que há a fazer é sermos muito melhores a apanhar as boleias, do sol, do mar e da inteligência técnica da vida natural do mundo. Tentarmos viver sendo do mundo e não num pós-mundo.

 

Por uma tecnologia simbiótica

Como fazer vingar a ideia de que é necessária uma orientação diferente na evolução da tecnologia, que não é, no curto prazo, a que mais retorno dá? Tal como socialmente se deve procurar condicionar o crescimento das desigualdades com políticas redistributivas, é preciso condicionar o aumento de produtividade à neutralização do aumento de impactos. Poderíamos chamar-lhe uma eco-social-democracia. Mas será preciso esperar pelo desastre iminente em que aquele retorno a curto prazo fique comprometido?

A inteligência imaginativa dá-nos capacidade de antecipar cenários. A pedagogia do desastre ou da catástrofe pode tornar o espaço público mais consciente dos riscos, levando a uma adaptação dos comportamentos. Se bem que o catastrofismo tenda a engolir distinções, o que não é boa pedagogia, talvez haja alguma eficácia em manter-se um “catastrofismo esclarecido” (Jean-Pierre Dupuy),  ou uma “heurística do medo”, como recomendou Hans Jonas, célebre pela ideia de uma ética da responsabilidade.

Mas muito melhor seria que as condicionantes negativas fossem apenas o lado compressivo de uma orientação optimista, que fosse aproximando as soluções tecnológicas dos processos que encontramos na Natureza, percebendo-os e incorporando-se neles.

A tecnologia deve, então, ir em direcção a um paradigma simbiótico em vez de exploratório, pensado em termos de ciclos e processos espontâneos, participando neles sob o signo de uma abundância natural, onde o pecado não é haver desperdício, mas falar-se nesses termos. É assim com a energia solar por exemplo, mas também com outras fontes de energia renováveis; é assim com produções agrícolas baseadas na boa integração da sazonalidade, não procurando contorná-la; é assim com a produção (agrícola ou industrial) baseada na relocalização em proximidade, não procurando a concentração da produção sempre que esta é tecnologicamente possível.

Em termos de comportamentos de consumo, há duas tendências gerais que precisam ser contrariadas.

Primeira, o embaratecimento de bens tornando possível o consumo a uma escala cada vez mais alargada tem sido feito sobretudo a partir de formas de produção pouco sensíveis ao impacto ambiental, sobretudo quando isso significa menos rendimento, designadamente pelo aumento do preço final dos bens junto ao consumidor. É assim, por exemplo, na indústria da carne, cujo preço baixo é pago em sofrimento atroz infligido aos animais – não será exagero dizer, os horrores que Dante conseguiu imaginar para o último dos círculos do Inferno são o quotidiano de milhares de milhões de bichos.

Segunda, o consumismo de ponta, destinado aos segmentos mais endinheirados de consumidores, que cedem à obsolescência programada seduzidos pelo capricho de acompanharem sem “delay” o último grito tecnológico. É assim com automóveis e telemóveis. Ainda há pouco a Apple foi apanhada a incluir no software de alguns modelos de iPhone instruções para uma degenerescência programada. A falta de investimento na perdurabilidade dos bens de melhor qualidade subverte a própria ideia do que é um bem de qualidade. Ironicamente, começa a suceder não só durarem mais como não se desactualizarem tão depressa bens que não são topo de gama, mas de segunda linha.

Há uma grande ilusão a desmontar na satisfação, até moral – como se o bem estivesse a acontecer – em se espremer, como sumo de uma laranja, todo o esforço da natureza, das pessoas, do trabalho, até da sua capacidade de consumir.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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