E se preferíssemos ser caracóis a ser andorinhas?

Só através do direito a parar nos devolvemos a possibilidade de ser senhores do tempo em que estamos. E só assim conseguimos ter a liberdade de estar no nosso tempo, mas também de estar nos lugares, nas coisas, até nos pensamentos.

Vivemos em sociedades aceleradas muito além do sustentável e por razões cada vez mais insustentáveis. Não há recursos que suportem as necessidades de crescimento de que o sistema económico global depende e pelo qual somos arrastados. Consumimos para alimentar necessidades de produção em vez de produzirmos para satisfazer necessidades de consumo. É sintomático que se morra, hoje, mais de obesidade do que de fome, como não se cansa de notar Yuval Noah Harari nos seus livros. A indústria global da publicidade inventa-nos, a um ritmo cada vez mais rápido, novas necessidades em que acreditamos piamente.

O produtivismo é esta produção pela produção, que é fútil e irresponsável por um lado, mas por outro é decretado com intransigência por um sistema económico que não sabe viver sem crescer, nem sequer crescendo mais devagar. Um equívoco importante a desfazer, em torno da ideia tão em voga de sustentabilidade, passa por aí: o esforço não deve estar em tornar sustentável a aceleração do crescimento, mas em abrandá-lo até um patamar que permita conservar o equilíbrio com tudo em redor, ecológico portanto.

É preciso ter cuidado com certos conceitos, como o de capitalismo verde, que se apresentam como compromissos interessantes mas, na verdade, não enfrentam o problema, apenas o contornam e o aprofundam. E é preciso ter abertura de espírito para com outras formas de abrandamento. Uma bicicleta pode ser mais veloz que um automóvel ao deslocar-se dentro de uma capital à hora de ponta, sendo ao mesmo tempo uma boa escolha por abrandar.

Podemos reter a metáfora do caracol, que não deixa de fazer o seu caminho, só que mais lentamente. Isto que parece ser uma discussão abstracta mais ou menos interessante ganha feições muito concretas quando pensamos num Aeroporto da Portela para aviões maiores e num novo aeroporto no Montijo para todos os aviões… É crescer, crescer e crescer mais, como uma embriaguez alegre a que se diz sim, apesar de a aviação ser o meio de transporte que, mesmo quanto não toca no chão, mais pegada ecológica deixa. E apesar de haver necessidades estruturais que seriam muito mais estruturantes.

Não se estará a projectar para todos os tempos, com investimentos tão avultados em infra-estruturas tão definitivas, uma moda lisboeta tão transitória como qualquer outra? A Madonna já está de partida. Não seria muito mais sustentável e sustentador, mais territorialmente conectivo e menos ambientalmente impactante, investir em linhas férreas modernas e bons comboios, legando às próximas gerações o que deve ser o transporte público de média distância no futuro?

O que acharemos no futuro serem inevitabilidades, às vezes tolamente atribuídas a traços de carácter nacional, são o que as escolhas que se fazem agora determinam. Mas que fazer quando a decisão política nem consegue aguardar por um estudo de impacto ambiental obrigatório?

Esta é uma discussão económica sem dúvida, mas é também uma discussão com outros planos, quase nunca considerados com a mesma atenção que a economia. Não é tanto não deixar os problemas económicos apenas nas mãos de economistas, mas constatar que há problemas que não são apenas económicos e que, por maioria de razão, devem ainda menos ficar nas mãos de economistas apenas. Por exemplo, há que fazer também uma discussão mais pública sobre o que andamos a fazer da ciência e há também que identificar e discutir criticamente uma moral moderna, de moralidade duvidosa, que nos vai pautando como seres produtivos — produtores e consumidores de um crescimento imparável.

Ciência não é produção

A humanidade cresce como um imenso Ícaro a subir em direcção ao Sol, confiante de que encontrará sempre forma de as asas não lhe arderem. Entenda-se: forma proporcionada por investigação científica. Esta é a situação. Entretanto, não sabemos se já não ultrapassámos pontos de não retorno, como o do aquecimento global, que derrete calotes polares que dessa forma deixam de reflectir a luz solar, acelerando o seu próprio derretimento. Este é só um exemplo de como o sistema planeta Terra perde a homeostasia, como se sofresse de febre.

Andamos às cegas e entregues à fé. Só uma fé muito desprovida de espírito crítico acredita que a ciência virá sempre a tempo de encontrar uma tecnologia salvífica que nos livre de ardermos. Houve autores que notaram que os conceitos políticos tinham uma origem teológica. Pois bem, também as nossas expectativas sobre a ciência se assemelham demasiado e perigosamente às de uma religião da redenção.

O inglês William Morris, extraordinário pensador e designer, perguntava, já no século XIX, o que hoje, com muito mais urgência, se deveria perguntar à ciência. “E a Ciência – nós admiramo-la e seguimo-la diligentemente –, o que vai ela fazer?” Ao que logo acrescentou: “Receio que, por agora, nada, ocupada, como está, ao serviço do gabinete de contabilidade e do sargento instrutor. No entanto, existem problemas que ela poderia facilmente solucionar: por exemplo, ensinar Manchester a processar o seu próprio fumo, ou ajudar Leeds a encontrar uma outra forma de se livrar do seu excedente em corante que não seja despejá-lo no rio (…)” (Artes Menores, Antígona).

Mudando um ou outro pormenor, o receio de William Morris é mais actual hoje do que no seu tempo. Os avanços científicos vão muito menos na direcção conscienciosa que ele defendeu do que noutras direcções, que investem em investigação no estrito pressuposto de que esta lhes trará retornos, nos termos de uma “sustentabilidade” que apenas significa prolongar as suas explorações.

A ciência aplicada deve resistir a ser apenas mais um campo de investimento. Mas faltam propósitos públicos suficientemente fortes para mobilizar os imensos meios ao dispor da investigação científica noutra direcção, atenta aos impactos em redor, genuinamente ecológica.

No passado, houve outros propósitos públicos e provavelmente de motivação discutível, como aquela demonstração de poderio e liderança geoestratégica que foi a corrida ao Espaço no tempo da Guerra-Fria e que, curiosamente, desde então, ficou estagnada vai para meio século. Hoje, nanotecnologia, automação, engenharia genética encabeçam a produção científica de produtos de mercado, incrementando crescimento económico tão obsessivamente como no tempo na Guerra-Fria não se descansava enquanto não se levasse o homem à Lua e se produzisse um arsenal capaz de extinguir a vida na Terra num ápice. Os resultados da ciência aplicada são fruto de escolhas muito pouco científicas. É o mercado que as dita.

Chamar à ciência “investimento” e “produção” é como chamar às pessoas “recursos” humanos  ou “capital” humano. É não conseguir pensar nada, sequer o melhor que fazemos ou procuramos ser, fora da moldura totalitária da racionalidade económica, da eficiência de um sistema produtivo que vai absorvendo toda a diversidade de actividades humanas, ciência, arte, até o lazer, numa mesma monocultura.

O destino de todas estas não é muito diferente do da biodiversidade ameaçada. E pelas mesmas razões de fundo. A imposição de uma racionalidade linear produtiva que tudo abastarda. Num mundo complexo, o desafio social a lançar aos cientistas é, como escreveu Ilya Prigogine, “uma compreensão da complexidade e da criatividade na natureza, a continuação do trabalho da natureza”. William Morris já o intuíra à sua maneira.

“Não pararás!” não é um mandamento

A aceleração não é só resultado de uma auto-ilusão de felicidade e prazer. Beneficia dos bons ofícios de uma moral. Não se permitir estar parado é comparável a um mandamento moral, como os que prescrevem “não enganarás” ou “não matarás”.

O ambiente moral da modernidade moldou-nos à escala global, pouco importa se protestantes, católicos, budistas, hinduístas, agnósticos ou ateus, de forma a tornar difícil estarmos parados sem sermos logo assaltados por sentimentos de culpa, que só encontram alívio numa ocupação. Há-de haver sempre alguma coisa que ficou por fazer, ou alguma coisa a fazer amanhã que se pode fazer já hoje. A própria ideia de pessoas desocupadas implica uma de duas possibilidades: ou são pessoas em risco que deveriam quanto antes encontrar ocupação, ou são pessoas perigosas, à margem, que colocam as outras em risco. Ou mesmo ambas, até pelo exemplo que dão.

Nesta moralidade da ocupação que nos domina, parar é algo que só se admite, tanto na íntima consciência moral de cada um como aos outros, no que for estritamente necessário para restaurar a força de se ocuparem.

Para inverter tudo isto devemos começar por resgatar os direitos à experiência do parar. Não basta fazer a crítica da moralidade moderna socialmente vigente. Precisamos também de redescobrir o valor intrínseco da experiência de parar, a partir da qual se articulem valores sociais diferentes. Por exemplo, a propósito da globalização, é preciso cultivar o elemento “aldeia” da metáfora de Marshall MacLuhan da “aldeia global” e fazê-lo contra toda uma linha habitual que põe a ênfase no aspecto “global”. Em vez de globalização, uma certa “aldeiação” que restaure o sentido de proximidade que o global perdeu, até mesmo nas aldeias, apesar do desenvolvimento e das múltiplas formas de fazer as coisas estarem mais próximas.

Só através do direito a parar nos devolvemos a possibilidade de ser senhores do tempo em que estamos. E só assim conseguimos ter a liberdade de estar no nosso tempo, mas também de estar nos lugares, nas coisas, até nos pensamentos. Uma coisa é certa: não há “estar” que resista ao modo de passagem perpétua em que vivemos. Como não há verdadeiramente possibilidade de contemplar alguma coisa, ou de vivência da intimidade, sem se possuir a capacidade de se deter, sair da corrente. É preciso redescobrir a bondade do parar, moral e existencialmente.

Curiosamente, a língua portuguesa tem um bom recurso linguístico de que, por exemplo, nem o inglês nem o francês dispõem. Temos palavras diferentes para “ser” e “estar”, com, as quais se consegue dizer, com sentido, que há um desequilíbrio na desejo pelas duas, queremos demasiado ser tudo sem nos apercebermos que assim não estamos realmente em parte nenhuma.

Há um verso da canção de Simon & Garfunkel “El condor pasa” que diz “I’d rather be a sparrow than a snail”. Pois, hoje, temos muitas razões para preferir o contrário: ser caracóis a ser andorinhas, pardalitos ou condores.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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