Ecologia do tempo para um tempo de Frankensteins

Que pedaços de tempo humano estão a ser costurados, como pedaços de corpos, e animados pela corrente da produção e o estímulo da procura, do mercado, da necessidade artificial, que assim que é satisfeita logo se torna obsoleta?

Um tempo de vidas em desequilíbrio

“Koyaanisqatsi: Life out of Balance” é um filme de culto de 1982, realizado por Godfrey Reggio, com fotografia de Ron Fricke e música do Philip Glass. É um documentário poético sobre o nosso tempo, apenas sequências de imagem e música genialmente articuladas, dando conta dos ritmos da vida moderna, industrial, acelerados, em contraste com os ritmos do mundo, com todo o tempo do mundo. Começa lento, então, mostrando gravuras pictográficas dos índios nativos americanos hopi — figuras humanas, talvez alusivas a espíritos ou divindades —, demorando-se depois em paisagens naturais, geológicas, acompanhadas do tom gutural de um coro que entoa: “Koyaanisqatsi… Koyaanisqatsi…” repetidas vezes.

Esta palavra hopi quer dizer “vida maluca, vida em turbilhão, vida fora de equilíbrio, vida a desintegrar-se, estado de vida que pede uma outra maneira de se viver”… A seguir, um fogetão ascende em câmara muito lenta. Depois, o contraste: câmaras-aceleradas nocturnas captam ritmos de cidades modernas comparáveis a fluidos orgânicos, as artérias do tráfego verdadeiras artérias de uma nova biologia. Os automóveis e os peões, guiados pela batuta de semáforos cegos, escadas rolantes como cascatas de águas humanas.  O trabalho, em série, repetitivo, indiferenciado, padrão comum à produção, ao consumo e até ao lazer. Em câmara acelerada, a cidade moderna revela-se um organismo vivo cuja corrente sanguínea é corrente eléctrica. Só não se desloca.

Restamos nós, rostos captados por close-ups em câmara-lenta, retratos de olhares fixos, que se sucedem, como se nos parassem e parassem o movimento imparável que ocupou o mundo humano, rostos a dar cara pela perda de autonomia. Um homem que parece barbear-se ou fingir que o faz em plena rua, olhares vários perdidos, vagos, uma senhora que se inquieta com um isqueiro que não funciona, o moribundo levado da via pública, tudo parecendo deteriorar-se, fora de equilíbrio — Koyaanisqatsi… Koyaanisqatsi…, o cântico regressa. E o fogetão de início também regressa, demorando-se, até explodir — como se uma fuga se gorasse. E de novo as gravuras dos hopi. Fecha-se o ciclo. Há uma versão no YouTube que passa todo o filme de trás para a frente, sem que deixe de fazer sentido. Estaremos a fechar um ciclo? E que ciclo?

O tempo moderno é um frankenstein

Em 1944 George Woodcock publicava um livro (“A Tirania do Relógio”) que talvez mais do que se imaginaria à data da sua publicação é chave para compreender este nosso tempo de desequilíbrio. Nesse texto, o aperfeiçoamento da medida do tempo, com ponteiros de horas, depois de minutos e segundos, é entendida como aperfeiçoamento de um instrumento de dominação humana. Para compreender a invenção deste tempo mecânico Woodcock evocou a metáfora de Victor Frankenstein, o criador do monstro cujo controlo perderia mal lhe insuflasse vida, uma vida de rejeição e sofrimento, abatendo-se sobre o próprio e sobre o seu criador na forma de ameaça, terror e morte. A pergunta que ocorre é se devemos esperar que nos aconteça o mesmo, que o tempo mecânico nos faça o mesmo.

Mas o tempo não se tornou um Frankenstein apenas porque a criatura, no caso o tempo mecânico, se rebelou do seu criador, nós mesmos. Tornou-se um frankenstein porque, além disso, como o monstro da novela de Mary Shelley, é uma composição de partes desiguais e desarmónicas, sem equilíbrio… um koyaanisqatsi. Para os gregos, o tempo envolvia o equilíbrio entre chronos, tempo sequencial, medido por relógios, e kairós, tempo não linear, do acontecimento significativo. Pelo contrário, o nosso tempo moderno é distrófico, hipertrofia de chronos: hoje, se um momento significa, se vale como acontecimento é porque se bateu mais um record, se ultrapassou um número qualquer, toda a diferença qualitativa reduzida a saltos quantitativos.

Na novela de Mary Shelley (que completou dois séculos este ano que passou), logo no seu título, Frankenstein era também uma evocação de Prometeu, o titã condenado pela ousadia de roubar o fogo aos deuses para o dar aos humanos, conferindo à humanidade a sua feição humana, de inteligência e domínio de técnica, primeiro do fogo, depois todas as outras, até à mais alta tecnologia. Mitologicamente, o que afastou os humanos da bestialidade e os tornou, por isso, dignos do amor e também do ódio dos deuses, é o domínio da técnica, a começar pela do domínio do fogo. Não podia ser mais verdade. O nosso ADN não biológico é sermos animais tecnológicos.

Mas a evocação de um Prometeu moderno leva-nos mais longe. Não é só o tempo estar desequilibrado, a vida moderna e até o tempo climático (curiosamente, kairós também significa “tempo climático”). Não é só o tempo por nós criado estar a subjugar-nos cada vez mais. É também o ciclo aberto por Prometeu poder estar a encerrar-se. O ciclo da humanidade, começado pelo domínio do fogo, terminando na dominação através do tempo.

As representações na história de arte de Prometeu podiam hoje ser representações de nós mesmos, como uma de Constantin Hansen, estudo para decoração do vestíbulo da universidade de Copenhaga, em que um Prometeu esculpe um homem no barro. De ousadia em ousadia, de criação de Prometeu, passámos a emular o próprio Prometeu, calhando-nos a mesma sorte talvez. O que talvez Prometeu não imaginasse mas Zeus antecipasse, a maldição de Prometeu é a maldição humana.

Frankensteins do nosso tempo

Que frankensteins do tempo andamos a montar? Que pedaços de tempo humano estão a ser costurados, como pedaços de corpos, e animados pela corrente da produção e o estímulo da procura, do mercado, da necessidade artificial, que assim que é satisfeita logo se torna obsoleta? Apresento sete, a combinar com o tom apocalíptico das sete pragas.

1.Um tempo acelerado que não consegue ser uma composição equilibrada, tecendo fios do passado e do futuro com os do presente. O monstro que criámos e nos domina é uma colagem de pedaços. Não de fragmentos de cadáveres, como o monstro da novela de Mary Shelley, cada um com a sua história, mas fragmentos de tempo humano. Uma colagem que não consegue ser uma unidade, uma entidade resolvida, uma identidade, isso é sofrer ser monstro.

O resultado principal de vivermos aceleradamente é não conseguirmos alcançar, enquanto sujeitos temporais, mais do que uma relação fragmentária com o tempo muito pouco nosso que é este “nosso” tempo. Perdemos a soberania sobre ele à medida que o aceleramos. É um paradoxo ou uma loucura. De tal forma queremos apropriar-nos dele, que dele nos tornamos presas, agarrados ao momento presente como náufragos a uma tábua de salvação numa corrente rápida de actualidade obsolescente.

Como se não bastasse, enquanto objectos temporais, necessariamente obrigados a estar num tempo, o tempo económico que encontramos nas nossas vidas tornou-se uma férrea continuidade sem fissuras, entre passado, presente e futuro, sem rupturas, sem dissipação, sem entropia. Estamos assim, enquanto sujeitos, demasiado impotentes para nos relacionarmos activamente com o tempo como um todo, e somos, enquanto objectos, subjugados pela demasia de poder do tempo contínuo que conserva, conta e acumula, sem lugar a segredos, as nossas dívidas.

2. Um tempo de que tentamos apropriar-nos pondo fim ao morrer quando, na verdade, assim pomos fim ao nascer. Frankenstein não nasceu, verdadeiramente. Trazia demasiado passado dentro dele, de que se recordava e o fazia sofrer. Serão de certa forma assim, os nossos filhos futuros, se permitirmos que nasçam com ADN de ricos ou de pobres. Trarão a história dentro deles quando nascerem, serão velhos apesar de o não serem. Existir sem se nascer por inteiro, um futuro de vidas biológicas feitas de vidas passadas é um frankenstein de passados económicos desiguais.

3. Um tempo industrial, de trabalho medido em unidades de tempo, trabalho maquinal, de rodas dentadas, dos “tempos modernos” como o do engenho de um relógio. Os trabalhadores transformados em peças da linha de montagem é um dado por demais conhecido da industrialização. Mas a industrialização não parou na indústria. Chegou ao lazer e à intimidade, modelo para qualquer aspecto da existência.

— O frankenstein em que tornámos o tempo de lazer, induzido a seguir, voluntariamente e por prazer, o mesmo ritmo da produção, da maior produtividade, como se esse ritmo acelerado, obsolescente fosse bom, natural. A ambivalência do lazer é, aliás, muito análoga à de conceitos como “empreendedor”, “colaborador”, “projecto”. Posta assim, a dissolução entre trabalho e lazer não é um bem. A mensuração passou a simular a realização com significado até nas coisas simples, mais elementares, onde se experimentaria a alegria de estar no mundo: o brincar sem objectivo cada vez mais coisa de tolos a substituir pelo “gaming” e a sua lógica de objectivos, records, tudo análogo à produção. Talvez uma ecologia do tempo e do mundo devesse começar por aqui mesmo: jogar menos e tornar a brincar mais.

— A industrialização da intimidade assume a forma de um frankenstein por promover, sem saída, um desequilíbrio entre excesso de presença, nas redes sociais desde logo, e incapacidade de ausência, de retirada. Na verdade, eliminação do modo próprio da intimidade. O tempo relacional, acelerado, onde estar presente se tornou incompatível com sair da corrente, recuado da exposição, é um frankenstein do tempo. Deixou de haver outro presente além do da produção de actualidade.

4. O tempo do curto prazo das vidas modernas, em que escolhas existenciais cruciais, como ter filhos, casar, contrair um empréstimo para comprar uma casa onde esse filho possa crescer, etc., são compromissos demasiado longos para a janela de tempo que as nossas vidas aceleradas e seus “projectos” para amanhã lhes podem reservar. O regime do “curto prazo” não tem a nossa escala. Ficamos desajustados como os transtornos de Alice no país das maravilhas ao cair na toca do coelho branco ora tornando-a demasiado minúscula ora tornando-a gigante, tonando-a incapaz de interagir bem com o mundo em seu torno.

5. A linha de montagem. Sabemos da aceleração do tempo de montagem de automóveis e telemóveis, mas também da criação de frangos, prontos para abate em meia dúzia de semanas, metade ou menos do tempo que há décadas era necessário. Sabemos das linhas de produção que tratam vida como máquinas, mas há um escândalo nesta equivalência a linhas de montagem ou de desmontagem. E ainda não sabemos bem que estamos a fazer o mesmo a todos os aspectos das nossas vidas, vidas a correr, de fadiga, apesar de mais longas. As nossas “timelines” são as linhas de montagem em que vamos nós, pensamentos, vontades, emoções no tapete rolante.

6. Segundos de nada pelo preço de milénios de tudo é a imagem do desprezo absoluto por uma ecologia do tempo. Mas não é isso o uso de plástico para fabricar objectos consumíveis efémeros, ou embalagens descartáveis que os trazem? O plástico é literalmente um frankenstein do tempo: monstro feito de pedaços de tempo geológico cosido, com linhas de mercado e lei da oferta e da procura, à volatilidade do instante da fome ou da sede, dos apetites e, pior, da sua obsolescência programada.

7. Podíamos chamar ao princípio que trabalha plasticamente o nosso tempo princípio “frankenstein” no sentido de que é uma montagem com retalhos, cosida com as costuras de fora, unidade de plástico, falsa, sem sentido de ligação, montagem do que não chega a nascer. Este princípio frankenstein deve preocupar-nos num tempo em que, como nunca antes, como Prometeu, poderemos criar novos seres, e recriar-nos a nós próprios. Retalhos de Inteligência Artificial, bionanotecnologia, engenharia genética, implantes, etc., toda a panóplia de melhoramentos do humano, sem o cuidado de uma ecologia serão monstros. O tema do transhumano tem de ser o tema filosófico do Frankenstein simplesmente posto em melhores bases científicas.

Em conclusão, num tempo em que seremos cada vez mais Prometeus modernos, é urgente pensar e praticar uma ecologia do tempo para os frankensteins que criamos, o primeiro deles o próprio tempo como o temos vivido.

 O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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