Neste artigo abordo a fraca sustentabilidade do nosso modelo de crescimento.

Em 2024, a economia portuguesa cresceu 1,9%, em termos reais, pelo terceiro ano seguido com uma dinâmica superior à da União Europeia (UE), que progrediu apenas 1,0%, a refletir a contração de 0,3% do PIB da Alemanha e o baixo crescimento da Itália (0,7%), tendo a França subido 1,2%.

Como o crescimento económico deve ser analisado em períodos longos, para expurgar efeitos temporários, realço que o nosso PIB subiu a um ritmo médio anual de 1,0% entre 1999 e 2024 (i.e., desde o início do milénio), que traduz o terceiro valor mais baixo da UE, onde o aumento foi 1,5%. A evolução foi similar de 1999 a 2019 (0,9% ao ano em Portugal, na mesma o terceiro pior registo, e 1,5% na UE).

Entre 1999 e 2024, o nosso ritmo médio anual de 1,6% foi o 12º maior da UE, cujo valor baixou para 1,1%, numa inversão de dinâmicas determinada por fatores que se perspetivam como temporários.

Por um lado, se a nossa economia foi inicialmente muito penalizada na pandemia pelo forte peso do turismo, tal determinou depois uma verba maior no PRR – em execução até 2026 – e, entretanto, a forte retoma turística após o ‘grande confinamento’ há muito superou a queda inicial. O turismo e o PRR ajudam a explicar a nossa maior dinâmica recente e a ultrapassagem do crescimento médio da UE que, entretanto, baixou com a guerra na Ucrânia, por ter penalizado fortemente a economia da Alemanha face ao fim do gás barato da Rússia, tendo os países de Leste perdido também algum dinamismo, mas ainda assim crescem mais que Portugal. O desejado fim da guerra e os sinais de um “regresso” da Alemanha a dias melhores deverão fazer ressurgir a dinâmica de crescimento da UE.

Por cá, o nosso modelo de crescimento evidencia fragilidades claras. A redução significativa da taxa de crescimento do PIB em 2024 (de 2,6% para 1,9%) traduz a quebra do contributo da procura externa líquida (de 0,9 para -0,6 pontos percentuais, p.p.), em resultado da aceleração das importações (de 1,8% para 4,8%) e do abrandamento das exportações (de 3,8% para 3,4%), que teve origem nos serviços (de 11,5% para 2,7%), onde pesa sobretudo o turismo. A evolução externa negativa foi atenuada pelo maior contributo da procura interna (de 1,7 para 2,5 p.p.), com a aceleração do consumo final (de 1,6% para 2,7%) a contrariar o abrandamento do investimento (de 3,6% para 2,3% na FBCF), apesar do PRR.

Mais investimento e exportações em setores de maior produtividade e intensivos em conhecimento são a chave para suportar o aumento do consumo e nível de vida, mas tal requer reformas.

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