Por estes dias, Lisboa torna-se numa das capitais de referência da economia digital com a realização da Web Summit. Portugal pode, na realidade, afirmar-se no roteiro internacional dos grandes eventos, independentemente do futebol, e ao contrário do que muitos admitem.
Já no século XV fomos pioneiros da globalização ao iniciarmos a epopeia dos Descobrimentos. Efetivamente, lançar pontes sobre outros continentes, outros povos e outras culturas faz parte do nosso código genético. Estamos, assim, em excelente posição para nos colocarmos novamente na vanguarda de outro movimento globalizador que tem vindo a alterar a face do mundo com a revolução tecnológica em curso, e que se manifesta nos mais variados domínios do nosso quotidiano, das telecomunicações aos transportes, do comércio ao consumo e entretenimento.
Porém, alguns ainda pensam que Portugal pode ficar à margem deste processo, como se estivesse entrincheirado numa espécie de “aldeia do Astérix” em contraciclo com os ventos da história. Mas pensam erradamente. O nosso país cumpre a sua mais genuína vocação ao acertar o passo com as rotas da modernidade num mundo em que as fronteiras têm vindo a ser diluídas, possibilitando a ascensão de centenas de milhões de pobres à classe média em vastas áreas continentais ainda marcadas pelo estigma da desigualdade de oportunidades, como a Ásia e a América Latina.
Numa ótica empresarial, a importância da economia digital transcende largamente a conquista de meras vantagens competitivas, como a diferenciação de produtos ou a redução de custos de produção. Não se limita a ter um valor instrumental, vai ao ponto de alterar radicalmente os modelos de negócio induzindo transformações nas próprias indústrias, como tem vindo a ocorrer, por exemplo, nos media. Também as alterações tecnológicas introduzidas na indústria da música não se limitaram a modificar apenas a relação entre a criação artística e os circuitos comerciais, acabando por se repercutir profundamente na própria relação entre os criadores e o seu público.
O peso da componente digital tem vindo a atingir uma relevância tal que acaba por forçar os próprios produtos industriais a incorporarem um conteúdo de informação cada vez mais significativo, através da chamada Internet das Coisas (Internet of Things). Tudo isto obriga os empreendedores a dar passos ainda mais rápidos e decisivos para não ficarem irremediavelmente para trás.
Nos dias que correm, o universo empresarial está consciente de que o cliente deixou de ser um elemento passivo nos circuitos comerciais para se tornar cada vez mais determinante, em grande parte graças ao impacto das novas tecnologias, nomeadamente os dispositivos móveis, que à distância de um clique o afirmam como autêntico cidadão do mundo. O grau de exigência aumentou a todos os níveis, forçando as organizações a reequacionarem gamas de produtos, ofertas de serviços e modelos de negócio.
Tudo isto estará, naturalmente, em debate na Web Summit, a que os agentes económicos portugueses não deixarão de prestar a devida atenção. Com uma certeza antecipada: os anos que vão seguir-se tornarão ainda mais irreconhecível a economia que vigorou nas últimas décadas. Outra forma, afinal, de dobrarmos o Cabo Bojador e rumarmos às Índias. Desta vez, as Índias da tecnologia, do desenvolvimento e do progresso. Ou seja, de construirmos o nosso futuro.