Eduardo Santini pede uma refeição leve ao almoço. Ao final da tarde vai treinar crossfit e não quer exagerar na alimentação. Entre garfadas curtas, fala de fornecedores, de frutas e de texturas com a mesma atenção que dedica ao treino ou à produção dos seus gelados.
Encontramo-nos num restaurante perto do mar, em Carcavelos, onde a calma da vista combina com a atenção que Eduardo, de 49 anos, dedica a cada detalhe. Neste negócio, a disciplina é evidente, mas nunca compromete a curiosidade: desde a acidez do limão até à qualidade da baunilha, cada elemento é analisado com a mesma transparência que aplica ao avaliar a concorrência. Confessa que já provou gelados de limão de outras marcas — por pura curiosidade profissional.
O limão é a sua bitola, o primeiro teste quando quer perceber a sério o nível de uma gelataria. “Se uma casa não consegue fazer bem um gelado com uma fruta relativamente barata, imagine o que acontece com ingredientes que custam três, quatro ou cinco vezes mais”, diz ao Jornal Económico. A lógica é simples. O limão não permite grandes disfarces. Exige equilíbrio, frescura, técnica. Se falha ali, dificilmente resultará noutros sabores mais complexos.
Depois, há a questão do custo da matéria-prima. A manga ou frutos secos como o pinhão — que pode rondar os 80 ou 90 euros por quilo — ou a baunilha, cuja vagem chega facilmente aos 400 euros por quilo, tornam qualquer atalho ainda mais evidente. “Usamos o mesmo sabor, mas sem qualquer aditivo. O que não conseguirmos fazer de forma natural, não fazemos”, explica.
Durante o almoço, no Vírgula, Eduardo fala sobre como o negócio cresceu ao longo dos anos, mantendo sempre a essência da gelataria: desde a abertura de novas lojas até à atenção rigorosa às matérias-primas e ao receituário original. Explica que, mesmo com a entrada de novos sócios [família Botton] e a expansão, o lado familiar continua a tratar da produção e de novos sabores. As receitas são supervisionadas por quem conhece cada detalhe, e qualquer gelado só sai se estiver à altura do padrão que o fundador estabeleceu.
História familiar
Eduardo Santini recorda que a primeira loja foi aberta em 1949. Conta que o seu avô, Attílio, nasceu em Cortina d’Ampezzo [região italiana onde foram realizados os Jogos Olímpicos de inverno], numa família com tradição na arte da gelataria, e decidiu aventurar-se pela Europa. “Foi para a França, onde estive alguns anos, e depois mudou-se para Espanha, onde conheceu a minha avó e casou-se”, recorda Eduardo. Mais tarde, trabalhou num café e acabou por ser convidado pelo cônsul português em Valência para se instalar em Cascais, que naquela época era uma zona em ebulição, com muitos refugiados da Segunda Guerra Mundial e diversos membros das realezas europeias.
Attilio abriu uma loja junto à praia do Tamariz, no Estoril. No dia da abertura da loja todos os gelados foram oferecidos. “Naquela altura, os gelados ainda não eram comuns na região, e a loja rapidamente conquistou uma legião de fãs”, lembra Eduardo. O avô fez amizade com a família real italianas e espanhola. O rei Juan Carlos chegava a vestir-se na parte de cima da loja, que era também a casa dos avós. Em 1960, Attilio abriu uma loja no centro de Cascais, no edifício São José, ao lado do antigo cinema, mas a localização não resultou. “Acabou por abrir na avenida Valbom, onde ainda hoje temos uma loja”, acrescenta.
Sobre a infância, Eduardo diz: “Recordo-me bem do meu avô, de como era uma pessoa afável; até hoje é o exemplo dele que seguimos, de como tratar os clientes, do atendimento personalizado, das receitas e dos cuidados que sempre tivemos”.
Eduardo representa a terceira geração à frente do negócio e admite sentir alguma pressão da herança a que deu continuidade antes até de terminar o 12.º nos Salesianos. Diz-se que a primeira geração faz, a segunda aproveita e a terceira destrói. “É verdade… mas temos conseguido fazer um bom trabalho, acho que o meu avô estaria orgulhoso”, acrescenta. Se hoje reconhece que ter feito um curso de Gestão teria sido “bastante útil”, a verdade é que muito poucos sabem mais de gelados do que ele. “Temos de nos manter atualizados, sem esquecer o que faz de nós o que sempre fomos. Há um cuidado muito grande em manter tudo como era. Se provasse um gelado em 1949 e agora, é precisamente a mesma coisa, o mesmo procedimento, a mesma maneira de trabalhar, o mesmo receituário”.
Evolução do negócio
A trajetória da marca Santini reflete a evolução de um negócio familiar tradicional que, ao longo do tempo, precisou de se adaptar para crescer. Desde 1949 que o negócio estava nas mãos da família Santini. Depois, essas mãos passaram a ser também apoiadas pela família Botton. “Foi um negócio familiar, puro e duro, até que, em 2009, resolvemos abrir o capital social da empresa à família Botton, e começamos outra fase de crescimento. Era fundamental dar um salto, aprender e profissionalizar o negócio”, conta Eduardo.
Apesar da mudança na gestão, a Santini conseguiu manter a harmonia e a cooperação entre os diferentes lados da administração. Enquanto o lado fundador mantém as “mãos” sobre o lado da receita, o outro par gere a parte financeira do negócio. “A família Santini faz os gelados e a Botton trata dos negócios. É assim desde 2009 e cada parte tem 50%. Somos uma empresa bifamiliar”, diz o empresário.
A aventura pelos centros comerciais começou pouco depois da pandemia, como forma de reduzir a dependência da sazonalidade. Boa parte das vendas continua condicionada pela meteorologia. Se estiver a chover ou se o vento estiver desagradável, as pessoas tendem a ficar em casa. Tendo em conta essa influência do clima e também a conjuntura económica, a Santini planeia manter a aposta nos centros comerciais, precisamente para reforçar a estabilidade do negócio e garantir maior sustentabilidade financeira.
A presença da Santini nas grandes superfícies responde à procura crescente por experiências de qualidade acessíveis no quotidiano dos consumidores. A marca mantém uma única unidade de produção em Carcavelos, de onde saem todos os gelados, garantindo que a qualidade é idêntica em qualquer ponto de venda, seja numa loja própria ou num espaço de grande distribuição.
Cada ponto de venda conta com arca própria da marca, permitindo não só dar destaque ao produto como também assegurar as condições ideais de conservação e apresentação, mantendo o posicionamento premium da Santini.
O canal das grandes superfícies representa mais de 10% do negócio e a produção supera os 400 mil litros de gelado, sobretudo nos sabores mais icónicos, como morango, chocolate, nata, framboesa e baunilha.
Não é raro a Santini ser desafiada a levar os seus gelados artesanais além-fronteiras. É frequente a empresa receber na caixa de correio eletrónico convites com sugestões para expandir a marca nos Estados Unidos, África ou Médio Oriente. A estes juntam-se também abordagens feitas pessoalmente, incluindo episódios curiosos, como o de alguns sheiks que chegaram a propor a criação de uma fábrica no Qatar, garantindo que a Santini não teria de se preocupar com mais nada.
Com 19 lojas em Portugal e um volume de negócios a rondar os oito milhões de euros, a Santini prepara agora o próximo passo da sua trajetória: a internacionalização. A empresa está a estruturar a produção e a organização interna para garantir que a expansão aconteça de forma gradual e sustentada, evitando mudanças abruptas no modelo de negócio.
A prioridade deverá passar pela Europa, com Espanha a surgir como o destino mais natural para a abertura da primeira loja fora de Portugal. Ainda assim, os detalhes permanecem em estudo — desde a cidade até ao tipo de localização, que poderá incluir um centro comercial ou outro espaço estratégico.
Para já, o plano passa por começar com uma única loja e avaliar os resultados antes de avançar para novas etapas. O arranque desta expansão está previsto, em princípio, para 2026 ou 2027, marcando o início de uma nova fase de crescimento para a histórica marca portuguesa. “Já demos um salto bem grande e é preciso algum cuidado nestas coisas. Desde que começámos a evolução, tivemos sempre grande preocupação em manter a qualidade e é esse o grande objetivo que não podemos perder de vista. Isso e manter a empresa sustentável”.
Um artigo do jornal Financial Times coloca a histórica gelataria Santini entre as melhores 22 lojas do mundo para saborear gelados. De acordo com o artigo, a gelataria Santini é descrita como “a instituição portuguesa de gelados kitsch que abriu em 1949”, figurando ao lado de instituições históricas do gelado como a gelataria Berthillon em Paris, ou o Caffè Sicilia, em Noto, Itália.
“As famílias acorrem agora a salões em todo o país, mas o da elegante Avenida Valbom, em Cascais, oferece sabor e uma excelente observação de pessoas – se conseguir perdoar o seu interior branco e ofuscante. Os sorvetes são dignos de peregrinação”, escreveu a jornalista Sophie de Rosée sobre uma das lojas da marca na vila.
Apesar da expansão e do reconhecimento internacional, Eduardo Santini mantém a rotina diária com a mesma disciplina que aplica aos gelados. Treina crossfit todos os dias, com exceção do domingo, terminando as reuniões sempre às 17h00 para poder ir ao ginásio. “É a maneira ideal de acabar o dia. Limpa a mente, reduz o stresse e ajuda-me a manter o foco”, explica. E, tal como na gelataria, cada detalhe importa: seja no treino ou na gestão do negócio, o rigor e a atenção às pequenas coisas fazem toda a diferença.
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