Eleições: “qu’é qu’isso m’intressa”

Muitas pessoas gritam em desespero que o voto deve ser obrigatório. Na minha opinião, não deve. Votar deve ser um ato informado e voluntário, fundacional à democracia.

Hesitei no título desta reflexão sobre a abstenção. A primeira ideia foi adotar uma frase comum entre as crianças atualmente: o que é que isso me interessa? Ou melhor, “qu’é qu’isso m’intressa”, como eles dizem, e que é muitas vezes complementada com “quero lá saber”. Parece-me que as crianças estão hoje mais seletivas, mais cedo, daquilo que decidem gostar ou desgostar. Parecem rejeitar rápida e despreocupadamente, sem contemplações e sem remorso, o que não cativa a sua atenção, o seu gosto, ou do seu grupo.

“O que é que isso me interessa” foi o comportamento de mais de metade dos eleitores relativamente às eleições, embora mais de um milhão sejam residentes no estrangeiro, o que distorce a comparação com eleições anteriores. O facto é que a maioria dos portugueses não votou e dos que votaram quase 130 mil fizeram-no em protesto votando branco ou nulo. É uma notável manifestação de desprezo pelo processo eleitoral. Este facto é muitíssimo mais relevante do que saber quem ganhou ou quem perdeu no clube cada vez mais restrito dos que ainda votam.

Muitas pessoas gritam em desespero que o voto deve ser obrigatório. Na minha opinião, não deve. Votar deve ser um ato informado e voluntário, fundacional à democracia. Estudos feitos em França revelam que 92% por cento dos franceses considera que é preciso votar porque é  importante. Esses estudos dividem os abstencionistas em dois grupos: “hors jeu” e “dans le jeu” político.

Anne Muxel refere que os primeiros encontram-se em maior número nas camadas populares, com baixo nível de escolaridade, entre as categorias com dificuldades de integração social, bem como nas populações urbanas. Os segundos são bastante jovens, escolarizados e melhor integrados socialmente. Os “hors jeu” não estão interessados em política, não se sentem próximos de nenhum partido e permanecem longe de qualquer forma de participação e envolvimento político, enquanto os segundos são politizados, na medida em que estão interessados em política e são partidários.

O não voto dos primeiros assinala desfasamento e desinvestimento do cenário político, o dos segundos procura expressar uma sanção endereçada aos candidatos e aos partidos (“L’abstention: déficit démocratique ou vitalité politique?”, 2007).

Abster-se ou votar branco/nulo é uma forma de exprimir uma opinião. O outro título que considerei para este texto foi “Abstenção: o regresso da maioria silenciosa”, essa frase maldita que Nixon procurou utilizar a seu favor e que foi utilizada em Portugal em 1974. Mas estaria incorreto. Na verdade, há uma maioria de desinteressados da política, mas não é silenciosa. Manifestou-se com estrondo nestas eleições, mas muitos responsáveis políticos não os querem sequer ouvir, nem procurar saber porque essas pessoas se sentem marginalizadas, incompreendidas, frustradas.

Essa atitude displicente e autofágica dos políticos do sistema é extremamente preocupante, para não dizer perigosa. O crescimento da tendência abstencionista diminuirá progressivamente a representatividade dos eleitos. A democracia representativa é colocada em causa e surgirão tendências plebiscitárias. É um comportamento perigoso porque esses cidadãos sentem que os atuais partidos não os representam, ou venham alguma vez a representar, e poderão ser sensíveis a mensagens populistas ou até mesmo extremistas.

Este “decoupling” já começou a verificar-se com a entrada ou crescimento de vários partidos exteriores ao sistema fixado desde 1974. Para agravar a situação, aquilo a que se chamava o “arco da governação” corre o risco de se tornar nesta legislatura no “arco da desgovernação”. De certo modo, é possível dizer-se que a 6 de outubro de 2019 ocorreu uma proto-revolução em Portugal. Tal como a de 5 de outubro de 1910, teve lugar em Lisboa. Agora o movimento com toda a probabilidade irá alastrar ao Porto e por fim ao resto do país.

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