Em outubro ainda nos lembraremos

Alguém que acabe com esta agonia de não podermos senão abster-nos nas próximas eleições ou, sim, votar PS de quem os vícios que tanto nos repelem parecem qualidades face à falta delas neste PSD.

Podia começar este texto recordando os valores do salário médio na função pública e no setor privado para mostrar como o segundo não abarca apenas as empresas do PSI 20, mas também – e sobretudo – salários mínimos nacionais pagos em supermercados e cafés. Podia também recordar que as pensões no setor privado são incomparavelmente mais baixas que as do Estado e que a Caixa Geral de Aposentações está muito mais capitalizada que a Segurança Social, o que significa que, face ao último salário, um reformado do Estado ganha muito mais do que um reformado do setor privado.

Podia ainda falar do absurdo que soa ao setor privado a noção de progressão automática. Podia falar do facto de 48% da riqueza produzida em Portugal em 2017 ter sido utilizada para assegurar as despesas de funcionamento do Estado. Podia falar da perda de rendimento do setor privado e dos reformados (do Estado e setor privado) que nunca foi recuperada face aos anos anteriores ao programa de ajustamento e que torna as exigências dos professores imorais.

Podia até recordar a falta de sensibilidade e paciência que todos– professores incluídos – tivemos para estas lutas quando se tratou dos direitos dos pilotos da TAP. Não estava em causa uma classe profissional. Estava em causa o país. Exatamente como agora. Sim, os professores ganham menos, mas o argumento aqui é o da reposição de direitos versus o interesse do país.

Mas não vale a pena, porque todos estes números o PSD conhece. Aliás, por conhecê-los quis uma Revisão Constitucional quando o Tribunal Constitucional mandou para trás todas as tentativas de cortes permanentes de remunerações no Estado, estávamos nós em pleno programa de ajustamento. O melhor que conseguiu foi interromper essa despesa, a mesma que agora quer retomar, alheio por oportunismo eleitoral, à realidade do país em que vivemos. É outro PSD e é difícil senão impossível perceber o que defende, agora, para Portugal.

Miopia e irresponsabilidade financeira são bandeiras da esquerda, não da direita, pelo menos a antiga. O buraco financeiro português não resultou só de Sócrates, ainda que este o tenha tornado finalmente impagável. Resulta de uma máquina pesada e ruinosa, cujas regras foram pensadas quando o país estava manietado por sindicatos e acordos coletivos de trabalho leoninos absolutamente alheios à capacidade de os honrar indefinidamente num país que é pobre (equilíbrio financeiro é uma questão de gestão, não de riqueza).

E o paliativo que PSD e CDS vieram a correr usar como recuo – um travão financeiro na reposição dos rendimentos dos professores – não é nada. Pura demagogia. O PSD e o CDS não se puseram só do lado dos professores, o ângulo mais míope desta história toda. Puseram-se contra os portugueses. Todos os outros que pagaram taxas de imposto inaceitáveis em 2018. Todos os que ainda pagam sobretaxa. Todos os que perceberam em 2011 que o mundo mudou e não mais voltaria atrás.

Rui Rio não tem razão nem quando diz que sem Sá Carneiro poderia ter sido membro do PS. Pelo menos do PS de António Costa, que claramente está mais à direita que o PSD. Pelo menos o PSD de Rui Rio. Alguém que acabe com esta agonia de não podermos senão abster-nos nas próximas eleições ou, sim, votar PS de quem os vícios que tanto nos repelem parecem qualidades face à falta delas neste PSD.

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