Emprego no turismo e nas ‘startups’: modelos opostos e ineficazes

A tecnologia do século XXI com direitos laborais do século XIX reedita o antigo proletariado fabril num novo “precariado” tecnológico.

As férias de verão são particularmente apropriadas para estimular a reflexão através de um olhar diferente sobre o quotidiano, que se transforma num sucedâneo da realidade desprovisto das nossas responsabilidades habituais.

Nesse estado de ânimo, observava há algumas semanas a enorme transformação social que o turismo está a provocar em Barcelona, a minha cidade natal. Embora reconheça o contributo positivo que, no curto prazo, as atividades turísticas representam no emprego, trata-se tipicamente de trabalhos mal remunerados e voláteis que dificilmente cobrirão, no longo prazo, os custos sociais das pessoas que os desenvolvem.  As menores taxas de ocupação nos hotéis deste verão demostram a volatilidade de uma economia sustentada nesta atividade.

Além do crescimento do turismo, Barcelona tem também experimentado uma explosão na implantação de novas empresas tecnológicas, colocando a cidade no quinto lugar entre as mais atrativas da Europa para o empreendimento e o desenvolvimento de startups, que já integram um ecossistema abundante em talento, recursos e qualidade de vida. Ao contrário do turismo, estas empresas criam pouco emprego, mas de altíssimo nível, conformando um modelo de desenvolvimento oposto ao baseado no turismo.

A escassez de postos de trabalho que estas novas empresas criam, junto com a eliminação de outras tarefas de baixo valor acrescentado, automatizadas e desintermediadas pelas suas plataformas tecnológicas, permitem concluir que esta não deverá ser uma fonte de emprego suficientemente abundante.

Pelo contrário, as plataformas digitais importadas de outras geografias têm vindo a substituir as fábricas oitocentistas no desenvolvimento de uma grande quantidade de postos de trabalho precários, preenchidos por falsos autónomos sem direitos laborais e remunerados à hora. Tecnologia do século XXI com direitos laborais do século XIX, que reedita o antigo proletariado fabril num novo “precariado” tecnológico.

Esta amálgama de atividades turísticas e tecnológicas, com as suas duas componentes extremas de sofisticação e precarização, é já também muito patente em Lisboa, criando uma imagem de cidade cada vez mais dissonante e incoerente socialmente.

Nesta base, nem o aumento das atividades mais simples como o turismo, nem o desenvolvimento de novas empresas locais de base tecnológica, que são dificilmente escaláveis, permitirão desenvolver sustentadamente empregos de alta qualidade. A solução para este dilema passa, necessariamente, pela transformação digital das empresas existentes no país, que permita a transformação dos negócios tradicionais em operações mais modernas, intensivas em inovação, com uma atividade produtiva eficiente e uma abordagem comercial ambiciosa.

Desta forma, conseguiremos atenuar o “paradoxo laboral” da transformação digital que, da mesma forma que nos aproxima com aplicações dos que estão longe e nos afasta dos que estão perto, enriquece os promotores das plataformas, que estão longe, e precariza os nossos trabalhadores.

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