Emprego? Qual emprego?

Os números da descida do desemprego são muito positivos e nenhum Governo pode deixar de ‘embandeirar em arco’ quando os tem à sua disposição. Mas convinha que se fizessem umas contas para se verificar a qualidade dos empregos que vão sendo lançados no mercado.

É da mais elementar evidência que uma parte substancial das pessoas que mantiveram o emprego – e principalmente daquelas que, tendo-o perdido, conseguiram uma alternativa – tem neste momento uma atividade pela qual auferem rendimentos menores do que há uns anos atrás.

E não é só numa perspetiva de envolvente comparável (até porque a inflação está a níveis muito baixos): parte dos portugueses ganha hoje menos (em absoluto) do que ganhava há uns anos atrás.

Se fosse necessário provar esta evidência, o recurso ao insuspeito governador do Banco Central Europeu chegava. Mario Draghi disse há umas semanas que estava chegada a hora de os empresários europeus reverterem a diminuição real da massa salarial anual que nos tempos de crise quiseram impor como medida de emergência e de socorro, para fazer face à péssima envolvente económica que caracterizou o espaço comum durante pelo menos meia década. Infelizmente, não é nada disso que se passa.

Só para conversar sobre um setor que me é próximo, o jornalismo, os empregos oferecidos neste momento pelos agentes com interesses ali instalados são de fazer corar de vergonha qualquer pessoa. Desde logo, a precaridade dos empregos oferecidos é mais ou menos uma obrigação. E depois as remunerações oferecidas são uma piada de mau gosto.

No turismo – setor que tem sustentado em grande parte o aumento das ofertas de emprego – as coisas passam-se do mesmo modo. Para além da sazonalidade – encargo que tem de ficar do lado do empregado e não no do empregador – os serviços são tremendamente mal pagos e a concorrência é tremendamente desleal: cursos superiores, anos de experiência e outros fatores anteriormente tidos como uma mais-valia valem coisa nenhuma. Pior ainda é o caso dos ginásios que surgem como cogumelos por todo o lado. Este aparecimento inusitado compreende-se: é um belo negócio.
A coisa funciona assim: praticamente todos os que, através do envio de um currículo, se propõem trabalhar num estabelecimento destes são chamados a uma entrevista pessoal.

É um bom começo – mas a ‘bondade’ fica por aqui. É-lhes dito que, para trabalharem no estabelecimento, têm de cumprir um programa de formação que, por muitos programas que o candidato já leve no currículo, nunca são ‘o’ programa que interessa àquele caso em particular. Resultado: os candidatos têm de cumprir o programa. O que não seria um desastre se não se desse o facto de ser pago, por valores que podem chegar aos 200 euros. Não é um bom negócio? Claro que sim.

É inegável que é o setor dos serviços que está a sustentar a retoma do emprego. O que faz com que seja igualmente inegável que a sustentabilidade da retoma seja potencialmente muito escassa. E que a qualidade dos empregos seja potencialmente muito baixa. Não será por acaso que um número constantemente muito alto de jovens muito qualificados continue a sair do país para trabalhar – por muito que qualquer um dos que regresse tenha de imediato direito aos seus 15 minutos de fama estrelar.

PS: A propósito do texto “Uma gaivota voava, voava”, recebi de Fernando Leite, administrador-delegado da Lipor, um texto que afirmava o seguinte: “(…) não é verdade que os aterros da Lipor sirvam de fonte de alimentação das gaivotas. A Lipor gere quatro aterros, sendo que três deles estão selados (entenda-se encerrados) (…) pelo que apenas um aterro está em laboração e a ‘caminhar’ rapidamente para o seu encerramento.” Agradeço o esclarecimento.

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