Central a carvão do Pego. Endesa já saiu da gestão operacional e aplaude concurso público

A última central a carvão de Portugal fecha a 30 de novembro, mas o futuro do local continua a ser uma incógnita depois de os dois sócios se terem desentendido. TrustEnergy avançou com providência cautelar para travar concurso público lançado pelo Governo, mas Endesa defende o procedimento.

A Endesa deixou a gestão operacional da central a carvão do Pego, no distrito de Santarém. Esta saída teve lugar na sequência do diferendo entre a elétrica ítalo-espanhola e a sua parceira de consórcio, a Trustenergy.

“Continuamos com a participação acionista, mas estando em situação minoritária e com o nosso sócio a tomar posições com as quais não estamos de acordo, saímos da gestão operacional da Tejo Energia há um mês e tal”, disse ao Jornal Económico (JE) o presidente executivo da Endesa Portugal.

A Tejo Energia é detida em 56,25% pela TrustEnergy (um consórcio entre os franceses da Engie e os japoneses da Marubeni) e em 43,75% pela Endesa (elétrica espanhola detida pelos italianos da Enel).

A última central a carvão em Portugal vai fechar as portas a 30 de novembro deste ano, terminando assim uma ligação de 36 anos do país com as centrais a carvão, depois do encerramento da central de Sines da EDP no início deste ano.

Para tentar resolver este diferendo, o Governo anunciou a 17 de setembro a abertura de procedimento concorrencial para atribuição de reserva de capacidade de injeção na Rede Elétrica de Serviço Público na central do Pego.

As propostas teriam de ser apresentadas em outubro, mas devido aos “vários pedidos no sentido da extensão” do prazo, o mesmo foi adiado até ao dia 17 de janeiro de 2022, segundo um despacho do Governo publicado a 18 de outubro.

A Tejo Energia apresentou uma providência cautelar para travar este concurso, conforme avançou recentemente o “Observador”, mas o presidente da Endese esclarece que o processo é da autoria da TrustEnergy.

Nuno Ribeiro da Silva aplaude o facto de o Governo ter avançado para um concurso público. “Compreendemos o quadro de o Governo ter recorrido a esta figura. Achamos que nao havia outra alternativa senão ir a concurso”.

“Compreendemos que face a não existir um acordo entre os dois sócios, a alternativa que restava era abrir o processo”, defende o gestor.

Por estes dias, a central do Pego continua a funcionar “porque se pretende, primeiro, até ao dia 30 de novembro utilizar ao máximo o stock de carvão que esta na central para não ficarmos com problema de stock de que depois não serve para nada. Depois, os preços exorbitantes do mercado diário também permitem – ate porque isto é carvão comprado há muito tempo, logo menos caro do que o registado agora no mercado – que entre no despacho do sistema”, explica Nuno Ribeiro da Silva.

A central localizada a 150 quilómetros de Lisboa tem uma potência instalada de cerca de 630 megawatts (MW). O terreno onde se encontra a central a carvão é detido pela Tejo Energia e tem um total de 300 hectares, com 20/30 hectares a serem ocupados pela central de ciclo combinado de gás natural (ElecGás, detida em partes iguais pela Endesa e pela TrustEnergy). O restante terreno é ocupado pela central a carvão, o parque de carvão e o de cinzas. O desmantelamento da central tem a duração de três a quatro anos, sendo necessário um investimento de 40 milhões de euros pelo consórcio para desmantelar a infraestrutura e descontaminar solos, segundo o líder da Endesa Portugal.

Sócios de candeias às avessas com futuro da central

Os sócios da central, todos investidores internacionais, têm visões diferentes para o futuro do projeto a ser desenvolvido nestes terrenos localizados no Pego, no concelho de Abrantes.

A TrustEnergy veio a público este ano apresentar um projeto de 900 milhões de euros que visa a “eletricidade, hidrogénio e outros gases renováveis”, assim como energia “solar, eólica”, mas também “resíduos florestais locais”, ou seja, a queima de biomassa para produzir eletricidade.

Mas a Endesa discorda desta aposta na biomassa por parte do seu sócio no Pego, destacando várias razões para rejeitar esta visão, entre as quais a falta de resíduos florestais suficientes no país para rentabilizar o projeto e o seu preço elevado no caso da importação.

“O nosso projeto foca-se em centrais solares fotovoltaicas, num eletrolisador de produção de hidrogénio de origem renovável e armazenamento em baterias. Não incluímos a biomassa, que foi o enfase da proposta que veio a lume [da TrustEnergy]. Sabemos que não existe o recurso, o custo de produção seria muito acima do preço do mercado, e não há possibilidade de subsidiar esse diferencial, as feed-in tariffs [tarifa bonificada] já acabaram”, disse o presidente da Endesa Portugal em final de maio.

“Temos um plano detalhado, bem maduro. A nossa visão para aquele local e infraestrutura tem diferenças relativamente ao que veio a lume [TrustEnergy]. O que preparámos pode envolver um investimento substancial de 600 milhões de euros”, segundo Nuno Ribeiro da Silva.

Perante a discórdia instalada entre os dois sócios, Nuno Ribeiro da Silva defende que o Governo deve atuar como um árbitro neste processo: “Não havendo um projeto comum aceite comummente pelos atuais sócios e proprietários da central, o Governo deve montar um processo que gere um concurso para selecionar um projeto, um conceito que considere o mais adequado para responder aos vários requisitos: questão da segurança do sector elétrico, questão dos impactos económicos e de emprego na região, questão de estar de acordo com os objetivos da política energética”.

A ideia é que seja feita uma avaliação imparcial dos projetos “através de um concurso que venha a ser proximamente lançado pelo Governo, em que seja feita a avaliação do projeto mais realista: que tenha custos mais comportáveis para o sistema elétrico, que vise a criação de emprego, a adesão aos objetivos portugueses e europeus para a política energética, confrontando conceitos e ideias relativamente ao futuro”.

Estas centrais solares beneficiariam da atual licença de ligação com capacidade para injetar até 600 megawatts na rede elétrica. Já o hidrogénio verde produzido no Pego poderia ser utilizado por indústrias próximas, permitindo criar um cluster de hidrogénio verde no centro do país, semelhante ao projetado para Sines, destacou na altura Nuno Ribeiro da Silva.

O presidente executivo da Trust Energy, José Grácio, defendeu este ano que as instalações da central podem vir a ser utilizadas para queimar biomassa já este ano com o fim do carvão. “Já este ano, e após o final da produção de energia elétrica a carvão, a Tejo Energia poderá produzir energia elétrica nas atuais instalações, através da utilização de forma sustentável de resíduos florestais torrificados quando não houver no país produção de origem solar nem eólica”, disse à agência Lusa a 17 de maio.

Por sua vez, como prova do fim de um cenário favorável à biomassa, Nuno Ribeiro da Silva dá o exemplo das seis organizações ambientalistas (incluindo a Zero, Quercus e a Geota) que pediram ao Governo português, como presidente do Conselho da União Europeia, e à Comissão Europeia para que não viabilizem dinheiro público para apoiar a produção de eletricidade a partir de queima de biomassa.

O gestor prevê que a União Europeia venha no futuro a alterar “os critérios para aceitar a biomassa como fonte renovável, pelo menos nas instalações de grande escala. Não é sustentável fazer investimentos de centenas de milhões de euros para 20/25 anos a contar que vai haver subsídios ou apoios, ou a manutenção do status quo da biomassa como fonte renovável. Isto envolvendo centenas de milhões de euros, assim como as pessoas e a economia da região”.

“Há uma reação muito negativa por parte de indústrias que utilizam material da floresta, como a indústria de móveis e da pasta de papel: face à escassez de matéria-prima são contrárias ao uso de alguma biomassa. Não sentimos que a aposta na biomassa seja sustentável por estas razões económicas, e também administrativas, por a União Europeia poder vir a rever a classificação da biomassa”, concluiu o líder da Endesa Portugal.

Endesa e TrustEnergy de candeias às avessas na última central a carvão

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