Entendimento entre PSD e Chega? Declarações de Rio deixam partido em polvorosa e reacendem debate

A possibilidade de entendimentos eleitorais com o Chega foi levantada pelo presidente do PSD, Rui Rio, numa entrevista à RTP3, que apanhou de surpresa vários sociais-democratas. A discussão, no entanto, não é nova e marcou divisões no partido na corrida à presidência do PSD em janeiro. Fora do partido, há quem também critique a abertura de Rui Rio.

Poderá o Partido Social Democrata (PSD) vir a dialogar com o Chega de André Ventura? A hipótese foi levantada pelo presidente do PSD, Rui Rio, numa entrevista à RTP3, na semana passada, e apanhou de surpresa vários sociais-democratas. De tal maneira, que a entrevista continua a ter eco entre os críticos de Rui Rio, depois de ter motivado também críticas de outros líderes partidários, que temem que o PSD venha a cair em “ratoeiras ideológicas”.

Apesar de ter inicialmente negado a possibilidade de entendimentos eleitorais com o Chega, Rui Rio acabou por admitir, em entrevista à RTP3, que as conversações “não dependem do PSD, dependem do Chega”. “Se o Chega evoluir – embora seja um partido marcadamente de direita, em muitos casos de extrema-direita, muito longe de nós que estamos ao centro – para uma posição mais moderada, penso que as coisas se podem entender”, referiu.

Rui Rio sublinhou, no entanto, que o partido de André Ventura só poderá ser parceiro político do PSD “se mudar” e, caso decida “continuar numa linha de demagogia e populismo”, não haverá qualquer entendimento possível.

As declarações deixaram vários social-democratas em choque. Pouco depois de a entrevista ter ido para o ar, o antigo secretário de Estado José Eduardo Martins escrevia no Facebook: “Isto é só a confissão de uma enorme aflição. O Dr. Rio saberá bem, acho eu, espero eu, que o Chega se mudar não faz sentido. A mudança que faz falta não virá nem do Chega nem do triste suicido do CDS. Não é de nada disso que a direita democrática e liberal está à espera”.

Em declarações ao jornal i, o antigo líder do PSD Rui Manchete considerou que, “por este caminho, o PSD não vai ter grandes possibilidades de ser Governo” e sublinhou que um Chega mais moderado não seria o Chega. “O Chega, tal como se apresentou, foi como um partido de um certa violência do ponto de vista político, e portanto, teríamos outro partido”, disse, salientando que uma eventual aliança com o Chega “é descaracterizar por completo o PSD”.

Já o antigo deputado do PSD por Viana do Castelo Carlos Abreu Amorim acredita que a hipótese de uma coligação do PSD com o Chega serve apenas para “deitar areia para os olhos dos militantes, que estão muito descontentes com a colagem cada vez mais evidente do PSD ao PS [Partido Socialista]”, e sublinha que, com Rui Rio ao leme, o PSD “pisca o olho à direita e faz o jogo da esquerda socialista”.

“Rui Rio admitiu uma aliança com o Chega, porque na semana anterior tinha feito um favor desbragado a António Costa [com a aprovação do fim dos debates quinzenais]. Tentou reequilibrar a sua imagem junto do eleitorado do PSD. Só é enganado por isto quem quer”, disse Carlos Abreu Amorim, ao jornal i.

Uma discussão que não é nova

Em janeiro, o líder social-democrata já tinha admitido a possibilidade de eventuais entendimentos com o Chega, mas só se o partido fosse “moderando”. “Acho que é um bocadinho exagerado classificarmos o Chega de fascista ou de extrema-direita. Tem algumas posições extremistas e de perfil populista, se forem ganhando peso no Chega não será possível entendimentos com o PSD, se se forem moderando penso que sim”, disse, na altura, à rádio TSF.

Na altura, também Miguel Pinto Luz, adversário de Rui Rio na corrida à presidência do PSD, afirmou aos jornalistas que não excluía “falar com nenhuma força partidária que esteja representada no Parlamento”, incluindo o Chega. “As minhas linhas vermelhas são claras, são os valores do PSD e a liderança de qualquer aliança por parte do PSD, sendo a agenda nossa, isso é que são as nossas linhas vermelhas”, disse.

Já Luís Montenegro, que também se lançou na corrida ao PSD, descartou logo à partida qualquer possibilidade de  manter um diálogo político com o Chega por considerar que “tem um programa incompatível” com o PSD. Luís Montenegro, que defendia um “partido vocacionado para ser maioritário” admitia apenas conversações com os partidos mais próximos como o CDS-PP, Iniciativa Liberal ou o Aliança de Pedro Santana Lopes.

Reações estendem-se fora de portas

Quem não se inibiu de comentar as declarações mais recentes de Rui Rio foi o próprio líder e deputado único do Chega. Nas redes sociais, André Ventura escreveu: “se o PSD disser sim à prisão perpétua de homicidas, à castração química de pedófilos, à redução do número de deputados e à redução de impostos, podemos lançar a primeira pedra de uma grande maioria absoluta de direita em Portugal”.

Já o secretário-geral adjunto do PS, José Luís Carneiro, considerou que eventuais negociações entre o PSD e o Chega significariam uma rutura dos sociais-democratas com a sua cultura. Para José Luís Carneiro, só uma atitude de “condução política em contramão no percurso da inovação social e económica pode justificar que o PSD esteja hoje já em fase de admitir poder vir a negociar com Chega”. “Caso Rui Rio opte pela experiência de condução em contramão corre sério risco de colisão com a sua base eleitoral social-democrata”, acrescentou.

Do CDS-PP – habitual parceiro de coligação do PSD, que já veio admitir coligações com os outros partidos à direita do PS, incluindo o Chega, desde que os programas respeitem os valores democratas-cristãos e não reflitam um “discurso de ódio” e um “populismo agressivo que semeia medo e fraturas sociais” –, veio dizer que “o bom senso é único radicalismo de que Portugal precisa”.

Sobre a contramanifestação promovida pelo Chega, em Lisboa, para mostrar que Portugal não é racista – para a qual André Ventura convidou Rui Rio –, o líder do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, referiu que “a verdadeira direita que o CDS representa não cai nas ratoeiras ideológicas da extrema-esquerda para se afirmar”.

Pelo Bloco de Esquerda (BE), o eurodeputado José Gusmão escreveu nas redes sociais: “No momento em que o Chega branqueia um assassinato, Rui Rio faz-se ao piso para uma futura aliança. Diz que é uma espécie de banho de ética. Nunca se esqueçam que é a esquerda que abre caminho à extrema-direita”.

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