Há algo de estruturalmente novo — e simultaneamente arcaico — no fenómeno político que envolve Donald Trump. Após sobreviver a uma tentativa de assassinato durante a campanha, consolidou-se entre seus apoiantes a percepção de que sua trajetória transcende a política ordinária. A narrativa da missão substitui a da alternância; o destino pessoal sobrepõe-se ao ciclo institucional.
Quando Trump afirma que a única coisa que o limita é sua própria moralidade, desloca-se o eixo da legitimidade. Já não se trata do direito internacional, das alianças tradicionais ou dos freios constitucionais. O limite passa a residir na consciência individual do líder. A formulação ecoa a antiga doutrina do poder divino dos reis: o governante responde apenas a Deus — ou, na versão contemporânea, à sua própria convicção moral.
Essa dimensão ganha contornos ainda mais densos na relação com Israel. A aproximação estratégica entre Washington e Telavive não é apenas geopolítica; ela é também simbólica. Parte significativa do movimento evangélico norte-americano interpreta a centralidade de Israel como elemento escatológico, associado à narrativa dos “fins dos tempos”. Nesse imaginário, apoiar Israel não é apenas política externa — é cumprimento de um desígnio histórico.
Trump, nesse contexto, surge não apenas como aliado estratégico, mas como instrumento providencial. A transferência da embaixada para Jerusalém e o alinhamento inequívoco com o governo israelita foram lidos por sua base religiosa como gestos de fidelidade a uma promessa maior. O líder político torna-se, assim, arauto de uma história que ultrapassa o cálculo diplomático.
O problema não é a fé privada, mas a fusão entre crença escatológica e decisão estratégica. No Médio Oriente, onde cada gesto tem repercussão regional e global, a política conduzida sob lógica de missão reduz o espaço da prudência. Guerras deixam de ser apenas conflitos de interesse e passam a integrar narrativas de restauração moral.
Trump é, paradoxalmente, um presidente de mandato único. Sem horizonte eleitoral futuro, o incentivo à moderação estrutural diminui. A tentação do gesto decisivo, do ato disruptivo, cresce. E quando a autoridade moral é apresentada como suficiente, os freios institucionais tornam-se secundários.
Mais inquietante é a fragilidade da resistência. Instituições hesitam; partidos opositores carecem de coesão; setores económicos adaptam-se pragmaticamente. A ausência de contraponto robusto reforça o personalismo. A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos na questão das tarifas pode ser um primeiro foco de resistência doméstica. Externamente, a resistência é fragmentada, reativa e incapaz de constituir alternativa estratégica coesa.
A Europa, outrora defensora do multilateralismo normativo, revela-se frequentemente vassala, incapaz de formular alternativa estratégica autónoma. Observa, reage, mas raramente lidera.
O Direito Internacional nasceu para substituir o trono sagrado pelo império da lei. Quando a política se reveste de aura providencial e a moralidade individual se apresenta como limite suficiente, reabre-se a tensão entre carisma e instituição. A história ensina que, quando essa balança se desequilibra, os custos são sempre coletivos e globais. Gaza e Irão são provas disso.



