EPI reutilizáveis: a segunda vaga de proteção

Não há dúvidas de que a reutilização dos equipamentos de proteção individual é o próximo grande desafio. Quer pela necessidade de reduzirmos o consumo, quer para garantirmos a sustentabilidade do planeta e dos recursos.

A Organização Mundial de Saúde declarou como pandemia a doença de Covid-19, provocada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, no dia 11 de março de 2020. Apesar de ainda existirem incógnitas sobre a forma de propagação do vírus sabe-se hoje, mais do que durante a primeira onda,  que a sua transmissão  acontece, sobretudo, através da disseminação de gotículas respiratórias produzidas quando tosse, espirra ou fala, as quais podem ser inaladas ou pousar na boca, nariz ou olhos de pessoas que estão próximas.

Desta forma, a propagação de doenças infeciosas tem reforçado a necessidade de existirem equipamentos de proteção individual (EPI) eficientes, que protejam não só os profissionais de saúde, mas também o cidadão.

Segundo o Plano Nacional de Preparação e Resposta para a doença pelo novo coronavírus da Direção Geral de Saúde, um EPI define-se como um conjunto de barreiras protetoras, usadas com o objetivo de proteger as mucosas, pele e roupa, do contacto com agentes infeciosos, podendo incluir luvas, máscaras, respiradores, óculos, viseiras, toucas, aventais, batas, proteção de calçado ou outros que se considerem necessários.

Todos nós, de uma forma direta ou indireta, temos a perceção da sua importância nos dias de hoje e sobretudo da necessidade de termos estes produtos disponíveis no mercado a um preço socialmente aceitável.

Ao longo da primeira vaga ocorreram relatos da falta de material de proteção individual. A elevada procura de EPI face à sua disponibilidade no mercado esteve relacionada com diferentes fatores: choque na procura relativa à oferta o que provocou o efeito chicote na cadeia primária; a procura foi concentrada num período curto de tempo e a nível global; houve uma reduzida produção de matéria prima a nível europeu, especialmente o material utilizado como filtrante; e ainda a falta de know-how para o desenvolvimento e produção destes equipamentos.

Naturalmente, estes fatores estimularam diversas iniciativas individuais, mas, e sobretudo, coletivas com destaque para a mobilização e articulação de diversos agentes e instituições. Assistimos a um conjunto de ações de mobilização e rápida adaptação de atores críticos na produção e difusão do conhecimento científico e tecnológico, mesmo considerando o contexto de crescente incerteza e crise sanitária em que vivemos.

Exemplo disso foi a reconversão do setor industrial nacional para a produção de equipamentos de proteção individual. Muitas empresas adaptaram agulhas, alteraram a matéria prima, modificaram processos, qualificaram os seus recursos humanos e redirecionaram as estratégias comerciais.

Ainda assim, e olhando em particular para o setor têxtil como um dos principais intervenientes na produção de EPI, segundo um inquérito conduzido pela Associação Têxtil e Vestuário de Portugal entre 14 e 20 de abril, a produção de equipamentos de proteção individual foi “apenas alternativa para um quarto das empresas”. Mas para as empresas que estão a investir neste mercado os desafios são interessantes, desde logo pela necessidade de capacitação estratégica, partindo da produção da matéria prima até à certificação e análise de desempenho dos EPI.

Não restam por isso dúvidas de que a sua reutilização será o próximo grande desafio. Por um lado, pela necessidade de reduzirmos o consumo, por outro, para garantirmos a sustentabilidade do planeta e de recursos.

Neste sentido têm vindo a ser desenvolvidos EPI com capacidade de serem reutilizados, quando a legislação assim o permite, e que vão de encontro às necessidades específicas do momento que atravessamos, como é o caso das máscaras comunitárias tipo I e II, onde se verifica o aumento da durabilidade sem comprometer a eficácia da propriedade filtrante e de respiração. Também aqui se confirmam funcionalizações à superfície, à base de óxidos metálicos, para neutralizar bactérias e vírus.

As máscaras cirúrgicas também têm sido melhoradas nesta segunda vaga, promovendo maior ergonomia e conforto ao seu utilizador, fruto de um design funcional sem descurar a sua capacidade filtrante. Vemos vários projetos a serem desenvolvidos com o intuito de substituir algumas das matérias primas utilizadas, mas também melhorar a eficiência dos processos de fabricação.

Já no que diz respeito às máscaras com capacidade de filtração, FFP2 e FFP3, as inovações têm sido incrementais muito devido à exigência da sua função e dos requisitos técnicos. Têm vindo a ser explorados novos materiais filtrantes na sua construção, com destaque para os nanomateriais desenvolvidos a partir da nanotecnologia. A necessidade de termos materiais a uma escala nano e micro está relacionada com a dimensão do vírus e de criarmos redes filtrantes em diferentes planos.

Este é um processo de evolução colaborativo e com vários atores: Centros do Conhecimento, Empresas, Sociedade em geral e outros, em que apenas existe espaço para rutura necessária que permita reconfigurar o conhecimento para além das regularidades propostas pela modernidade atual. As próximas cenas serão de rutura paradigmática, mesmo que parcial, impactando positivamente a qualidade de vida e o desenvolvimento humano, em que a multifuncionalidade de superfícies com capacidade antivírica demonstraram eficácia na neutralização do vírus e bactérias.

O conforto e a ergonomia dos equipamentos de proteção individual, através do design funcional dos mesmos, irão incrementar a usabilidade ao longo do tempo. Além disso, e acima de tudo, a sustentabilidade e economia circular vão fazer parte de um futuro próximo, onde os materiais reutilizáveis ou biodegradáveis irão impulsionar novas oportunidade no mercado.

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