Escravos precisam-se para turismo da treta

Não sou contra o turismo nem tão-pouco o AL, mas sou contra a falta de inteligência estratégica na criação de uma economia com maior valor acrescentado.

Começo com um esclarecimento, sou Capitalista Democrata, pró-negócios e a favor da iniciativa privada, não excluindo, no entanto, a intervenção do Estado em sectores estratégicos da economia.

Dito isto não sou acéfalo, como alguns que por aí andam a debitar spins, pagos ou não para esse fim. Não defendo que qualquer negócio é um bom negócio e que criar empregos é sempre melhor que não os criar, e não concordo por uma razão muito simples: tudo o que se faz deve ter uma estratégia por detrás, com a eficiência e a mais-valia como expoente máximos, “criar” empregos para escravizar pessoas e encher as carteiras de meia dúzia, rejeito em absoluto.

O principal movimento de escravização actual, iniciado por este Governo, é o fomento cego e desmesurado do turismo. A ideia criada é a de trazer o maior número de turistas possível, spin que tanto agrada aos lobbies que estão por detrás dele e que tenta justificar mais uma negociata/propaganda, como o novo aeroporto do Montijo.

Diz o Governo que o turismo é só maravilhas, sendo a criação de emprego o seu maior feito, “esquecendo-se” desde logo e convenientemente do seu custo ambiental. Ora, infelizmente, de 2015 a 2017, o sector do “Alojamento, restauração e similares” foi efetivamente o que mais cresceu no número de pessoas empregues, 64.500 para 323.200 (Pordata).

Digo infelizmente porque é também o sector com mais trabalhadores por conta de outrem a ganhar o Salário Mínimo Nacional (SMN), cerca de 35,9%. Valor que justifica em boa parte outro dado negro do sector, é o que tem a remuneração base média mensal mais baixa, 713,5 euros. Nas actividades financeiras e de seguros, por exemplo, esse valor sobe para os 1,571 euros e apenas 1,3% dos trabalhares auferem o SMN.

A estratégia de ter o maior número de turistas sem qualquer preocupação com a capacidade económica dos mesmos, e a consequente maior rentabilização do negócio do turismo, fica bem patente quando analisamos os dados das Estatísticas do Turismo do INE de 2015 a 2017.

Para se abrir uma nova frente de negócio é preciso analisar se os incumbentes estão a dar conta do recado (capacidade), se existe concorrência efectiva e os efeitos colaterais dessa decisão. Ora, com uma taxa de ocupação média de 43,7% (2015) no total dos Alojamentos Turísticos (nacional) e com picos de 80% e 75% apenas no Algarve e em Lisboa no mês de Agosto, dificilmente se justificaria deixar o mercado do Alojamento Local (AL) sem qualquer tipo de controlo e/ou estratégia.

AL que criou mais oferta de camas em 2017 que a indústria hoteleira, só que com um pormaior que faz toda a diferença. É que enquanto o rendimento médio por quarto disponível (RevPar) na Hotelaria foi de 51,7 euros, no AL esse valor ficou nos 25,4 euros, inclusivamente inferior em cerca de 15% dos 29,3 euros dos hotéis de uma e duas estrelas – ou seja, é inequívoco que a principal oferta criada foi no chamado low end do negócio. Turistas mais propensos a consumir num qualquer fast food ou estabelecimento low cost, onde os trabalhadores ganham o SMN, e não num restaurante onde os preços são um pouco superiores, podendo assim pagar melhor aos trabalhadores.

Em 2017, a Suíça, com metade das dormidas e metade dos trabalhadores, conseguiu um contributo directo para o PIB ligeiramente superior aos 13,2 mil milhões de euros atingidos por Portugal (WTTC), ou seja, mais receitas, menos custos, menos trabalhadores, resulta em mais lucros para as empresas e muito melhores ordenados para os trabalhadores. Simples.

Acresce que a maioria do AL foi criado em Lisboa, Algarve e Porto, afetando de sobremaneira a disponibilidade de casas para arrendamento nas duas principais cidades do país, empurrando os trabalhadores e estudantes para fora da cidade, com todos os custos económico-sociais e ambientais que isso acarreta. Tristemente, o AL, que podia ter sido uma excelente solução para combater a desertificação do interior, com benefícios fiscais extraordinários, tornou-se num problema nas grandes cidades para cidadãos e restantes incumbentes, pouco ou nada trazendo de valor acrescentado.

Esclareço novamente que não sou contra o turismo nem tão-pouco contra o AL, mas sou contra a falta de inteligência estratégica na criação de uma economia com maior valor acrescentado e na “mcdonalização” da mesma.

E para sermos “ricos”, com salários condignos, não precisamos de ter o turismo como aposta primária, longe disso. Analisando os casos dos países com melhor qualidade de vida, salários elevados e bons sistemas sociais, como o dos países nórdicos que têm menos receitas de turismo que nós e um PIB superior, encontramos uma solução perfeitamente ao nosso alcance, haja inteligência estratégica. Desde logo pela aposta na Investigação e Desenvolvimento que gera as valiosas patentes.

Suécia, Dinamarca, Finlândia, Áustria e Alemanha são dos que mais gastam no mundo neste campo em percentagem do PIB, entre os 2,9% e os 3,3%, enquanto Portugal não passa dos 1,3%. Inovação que lhes permite depois aplicar a segunda parte da estratégia, apostar em sectores que são realmente lucrativos, que criam maior valor acrescentado, permitindo às empresas gastar mais em salários dos seus trabalhadores.

A Alemanha por exemplo, dos 2,954 milhões de euros em valor acrescentado bruto (VAB), cerca de 46,4% foram em salários. Em Portugal, esse valor cai para os 39,9% (Eurostat), sendo que o sector que mais “retribui” é o da construção com 51%, só que vale apenas 4% do VAB nacional, enquanto o sector do comércio, transportes e turismo vale cerca de 25% do VAB nacional, mas “paga” apenas 41% no VAB que cria. Essa diferença de 6,5% para com a Alemanha resultaria, em traços largos, num acréscimo médio de salário anual de 2,300 euros para cada um dos mais de 4,7 milhões de cidadãos empregues em Portugal.

Destaque para o muito reduzido custo que os empregadores na Dinamarca têm com as contribuições sociais dos trabalhadores, cerca de 4,7% do VAB, enquanto que Portugal é dos que mais cobra às empresas, com cerca de 11,3%.

Em suma, o importante não é fazer volume, mas ter mais lucro bruto no negócio para se poder pagar melhor aos trabalhadores. Essa maior margem atinge-se com a aposta na inovação, em indústrias de maior valor acrescentado, e não a fomentar trabalho escravizante como é todo o que paga o SMN.

Depois é preciso, por exemplo, produzir algo que se possa escalar globalmente com o mínimo de obstáculos possível, requisito que o turismo não preenche, daí que as novas tecnologias sejam o palco preferido para a criação de negócios multi-milionários quase de um “dia para o outro”. Mas não só. Nos serviços e na indústria pesada existem inúmeras opções de aposta, mas curiosamente nenhuma está a ser explorada seriamente por Portugal, nem tão-pouco têm o fomento público dedicado ao Turismo.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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